Os Lares Coniumbricenses (em latim: Lares Coniumbricenses ou Lares Conimbrigenses) constituem o conjunto de divindades lares, génios tutelares e espíritos protetores da antiga cidade luso-romana de Conímbriga (situada em Condeixa-a-Nova, Portugal), no território dos antigos LusitanosVASCONCELOS, José Leite de (1905). Religiões da Lusitânia. Volume II. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 185.. O culto a estas entidades coletivas representa um dos exemplos mais puros de interpretatio romana e sincretismo político na província da Lusitânia, onde os deuses indígenas da comunidade foram formalmente integrados no modelo cívico do Império RomanoAULANIER, C. et al. (1969). Le culte des Lares à Conimbriga (Portugal). In: Fouilles de Conimbriga. Bordeaux: Ausonius Éditions. p. 1-3..
O Achado no Cryptoportique de Conímbriga A comprovação material e epigráfica definitiva do culto aos Lares da cidade provém de uma importante campanha arqueológica realizada a **28 de setembro de 1967**. Durante as escavações franco-portuguesas lideradas por Jorge de Alarcão e Robert Étienne no setor 12/13 do Criptopórtico romano — uma zona subterrânea monumental que funcionava como estrutura de suporte e terraço do grande templo do Fórum de Conímbriga, consagrado ao culto imperial de Augusto e de Roma —, foi descoberta uma ara de calcário dedicada às divindades locais.
A Inscrição Latina O monumento epigráfico, esculpido com caracteres elegantes datados da transição do século I para o século II d.C., apresenta o teónimo da cidade associado às forças tutelares através da seguinte leitura oficial no latim epigráfico: CONIMBRICAE ET LARIBVS CONIVMBRICENSIVM SACRVM
Tradução Reconstituída: "Consagrado a Conímbriga e aos Lares Coniumbricenses".
Análise Teológica e Contexto Social
O Par Divino do Oppidum A inscrição do criptopórtico é de excecional relevância historiográfica, pois estabelece pela primeira vez a comprovação jurídica e religiosa do estatuto urbano do *oppidum* de Conímbriga através do seu par divino: Conímbriga Divinizada: A primeira linha personifica a própria cidade como uma deusa tutelar soberana e abstrata. Os Lares Coniumbricenses: Atuavam como os deuses domésticos, agrícolas e municipais que velavam pela segurança de todos os cidadãos (os *Coniumbricenses*), pelas habitações rústicas e pela salubridade pública da comunidade.
O Sincretismo Luso-Romano No âmbito do estudo das religiões paleohispânicas, os Lares Coniumbricenses ilustram o processo de pacificação e assimilação cultural romana. Enquanto no interior profundo os lusitanos mantinham divindades com nomes nativos compósitos (como *Bandua* ou *Reve*), nas cidades em vias de forte desenvolvimento municipalizados como Conímbriga as elites indígenas instruídas traduziam os seus antigos "génios do castro" ou deuses do clã para a terminologia dos **Lares** itálicos.
Ao monumentalizarem este altar diretamente nas fundações do complexo do fórum romano, os magistrados locais vinculavam espiritualmente os seus cidadãos à lealdade ao Império Romano, sob o patrocínio de deuses que resguardavam tanto a herança hispano-celta (*-briga*) como o novo quotidiano provincial romano.
Ver também Conímbriga Fórum de Conímbriga Lares Religião paleohispânica
Referências
Categoria:Mitologia lusitana Categoria:Mitologia celta Categoria:Lares