A Igreja Paroquial da Charneca ou Igreja de São Bartolomeu da Charneca é uma igreja seiscentista situado na Charneca, em Lisboa.

História A instituição formal da paróquia da Charneca ocorreu em 1585, registando-se a existência de um templo primitivo dedicado ao Espírito Santo. Da estrutura quinhentista subsistiram múltiplos elementos físicos, na sua maioria de cariz manuelino, que acabaram absorvidos e integrados nas campanhas subsequentes. A campanha de edificação da actual igreja começou um século mais tarde, em 1685, no decurso do reinado do monarca D. Pedro II, conforme registo epigráfico gravado no púlpito. Em 1713, foi anexado o volume exterior correspondente ao baptistério, documentando-se igualmente outras reestruturações internas ocorridas em 1725, patentes no solo de uma das capelas laterais. O Padre Carvalho da Costa firmou a primeira alusão literária ao santuário, fixando uma breve descrição geográfica na obra setecentista Coreografia Portuguesa.

O violento sismo de 1755 infligiu danos estruturais consideráveis no conjunto, forçando a implementação de reparações correctivas na sua arquitectura. Em documento de 8 de Abril de 1758, integrante das Memórias Paroquiais, o pároco Pedro de Oliveira descreve brevemente a igreja como tendo "uma só nave azulejada, de azulejo antigo, em xadrez". Quanto ao tecto, este "é apainelado, em que se vê pintada a vida e martírio do mesmo Santo [São Bartolomeu], pintada pelo insigne pintor Bento Coelho". O padre elenca ainda a vigência de cinco altares, destacando o retábulo-mor dotado de tribuna em talha e as diversas imagens escultóricas administradas pelas confrarias e irmandades, dedicadas a Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora da Purificação e Nossa Senhora da Piedade, a par do morgado instituído por António Luís de Mesquita.

As invasões francesas de inícios de Oitocentos provocaram perdas patrimoniais substanciais e, para agravar a situação, a Implantação da República ocorrida um século depois instigou actos de profanação generalizada: roubaram-se alfaias e perdeu-se o revestimento em talha dourada da capela do Santíssimo. As obras de restauro tomaram lugar nos anos 1940, com a recuperação do cruzeiro fronteiro ao templo no ano de 1943 e arranjos no tecto da nave em 1946. Um terreno lateral acomodou um cemitério até 1959, ano da última sepultura, verificando-se em 2007 a transladação de restos mortais para o Cemitério do Lumiar com o fito de ceder espaço viável para a edificação de duas capelas mortuárias. A tutela oficial de salvaguarda cristalizou-se com o despacho e consequente decisão de classificação da estrutura como Monumento de Interesse Público, formalmente publicada a 20 de Dezembro de 2011.

Descrição

Exterior A igreja, orientada a Poente, caracteriza-se pela linearidade e reveste-se a fachadas brancas percorridas de forma contínua por um soco cinzento e rematadas superiormente por cimalhas rectilíneas. A frontaria articula-se em três corpos assimétricos interceptados por pilastras e cunhais apilastrados. O módulo central acomoda o portal de acesso rasgado em mármore de verga recta, encimado por um frontão triangular sóbrio, posicionado sob um janelão rectangular de verga curva que se prolonga em falsos brincos. A secção culminante deste eixo é executada por um frontão triangular interrompido no qual assenta uma cruz latina.

O flanco esquerdo, um pouco mais baixo, acomoda o baptistério, coberto por um domo de contornos em arco abatido. A torre sineira eleva-se na secção oposta, rasgada na base por uma porta de acesso e no cimo por quatro vãos em arco de volta perfeita na zona dos sinos, ostentando outrora um relógio de mostrador cerâmico polícromo imediatamente abaixo da cornija, rematando numa cúpula circundada por acrotérios, pináculos fusiformes e grimpa metálica, tendo no topo um catavento.

No perímetro fronteiro do adro pontifica o cruzeiro paroquial manuelino erigido sobre uma plataforma de formato octogonal com base moldurada em toros e escócias, de cujo centro ascende um fuste facetado concluído por capitel de elementos fitomórficos, sob o qual assenta uma cruz de hastes abotoadas resguardada por uma estrutura de protecção em ferro.

Interior O interior organiza-se num esquema de nave única com capela-mor destacada, prolongando-se a divisões subjacentes que incluem o coro-alto e a sacristia. O tecto é composto por caixotões quadrangulares de estuque apainelados segmentados em três abas imitadoras de relevo em talha, formato cimeiro inserido após as intervenções de 1946 que impossibilitaram a conservação das telas originais de Bento Coelho da Silveira.

As paredes laterais da nave são integralmente forradas a azulejaria enxaquetada branca e verde, organizada segundo um esquema atípico que justapõe um módulo elementar no estrato inferior e um agrupamento de quatro azulejos na faixa superior, gerando uma ilusão de multiplicação rítmica ao longo das superfícies planas. Por cima desta faixa cerâmica, alinham-se diversas telas emolduradas executadas nos finais de Seiscentos, atribuíveis igualmente às oficinas de Bento Coelho da Silveira, expondo fragmentos sequenciais da biografia da Virgem Maria em alternância com os elementos da hoste apostólica.

Ladeiam a capela-mor altares singelos e frestados, onde um nicho abriga a representação escultórica do orago ladeada por um retábulo da escola de António de Oliveira Bernardes posicionado junto do piso calcetado de 1725, contendo quadros azuis e brancos correspondentes à cena Cristo no Horto e ao próprio martírio de São Bartolomeu.

Separando a tribuna-mor dos fiéis sobressai uma teia construída em pesada madeira de macacaúba interceptada com precisão por pilastras barrocas talhadas em mármore encarnado. O arco triunfal em volta redonda integra na base sepulturas identificadas do século XVII e recruta ao cimo um pequeno nicho que abriga a escultura do Cristo Crucificado contornada pelos instrumentos do suplício e associada à divisa "Eis que será gravada no céu a vossa recompensa." Sob a abóbada de berço assente em decorações eucarísticas estucadas, o enquadramento mor exibe dois painéis figurativos azuis e brancos datados entre os anos de 1696 e 1699 e chancelados pelo mestre Gabriel del Barco, expondo Santo Antão e São Jerónimo isolados num cenário paisagístico marcado pelo espírito penitencial.

Ao fundo ergue-se o retábulo-mor setecentista, moldado em talha policromada que aloja uma imagem central de dimensão real de São Bartolomeu, produzida na mesma época que a estátua análoga de São Pedro. A enriquecer os elementos parietais remanescentes registam-se pias de água benta oriundas de oficinas manuelinas, o púlpito com recurso a duas tonalidades de rocha marmoreada com datação do ano de 1685, o reaproveitamento de silhares enquadrados em azulejaria de padrão tapete multicolor proveniente de espaços alterados, bem como lápides calcárias de tipologia tumular com brasões oitocentistas e caligrafia predominantemente gótica.

No perímetro anexo à sacristia desenha-se um chão marmoreado de xadrez negro e branco que acolhe nas imediações um lavabo do século XVIII esculpido em cantaria clara e rósea, consolidado por um par de volutas que findam numa secção concheada terminal. Nas paredes exibem-se duas pinturas desenhadas sobre suporte de tábua, a par de peças individualizadas onde consta a obra São Francisco a receber as chagas de Cristo, do pintor Clemente da Ilha, e a tela Nossa Senhora do Vale, caracterizada por indumentárias que copiam cânones ibéricos de meados de Setecentos.

Destaca-se ainda um considerável espólio litúrgico constituído materialmente por navetas, campainhas, turíbulos, uma píxide e múltiplos cálices em prata antiga, que se combinam com outras relíquias guardadas nos altares ou recolhidas no antigo baptistério, nomeadamente uma custódia de prata, um pesado crucifixo lavrado em marfim proveniente das oficinas indo-portuguesas, assim como a imagem em tamanho natural da Virgem da Assunção e representações de mártires de vestir, tais como a de Santa Luzia, de Santa Catarina e a efígie enlutada de Nossa Senhora da Soledade, resgatadas aquando de obras nas extintas ermidas da Portela e da Panasqueira.

Categoria:Igrejas de Lisboa