Juliana Barbosa de Araújo (Natal, 23 de dezembro de 1989), conhecida artisticamente como Juliana Linhares, é uma cantora, compositora, atriz e diretora teatral brasileira. Iniciou sua trajetória artística na cena cultural de Natal, tornando-se nacionalmente conhecida como vocalista da banda Pietá, fundada em 2012. Em carreira solo, ganhou projeção com o álbum Nordeste ficção (2021), cuja abordagem sobre identidade, territorialidade e representação cultural do Nordeste foi amplamente destacada pela crítica especializada. Em seus trabalhos, tem articulado elementos da música e do teatro na elaboração de questões relacionadas à memória, pertencimento e exaustão na contemporaneidade.
Carreira
Formação e início artístico Natural de Natal, no Rio Grande do Norte, Juliana Linhares iniciou sua trajetória artística na cena cultural da capital potiguar, onde começou a realizar apresentações musicais em espaços do bairro da Ribeira. Inicialmente matriculada no curso de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), abandonou a graduação para dedicar-se às artes cênicas, após concluir que pretendia seguir carreira artística.
Ainda na infância, participou do coral infantil da UFRN, experiência que descreveu posteriormente como um de seus primeiros contatos com a formação musical.
Antes de se estabelecer profissionalmente como cantora, atuou em projetos musicais locais e participou de apresentações ao lado de artistas da cena potiguar, como Glorinha Oliveira, Khrystal e Simona Talma. Entre suas primeiras experiências musicais de maior visibilidade esteve a participação em um espetáculo em homenagem ao centenário de Cartola, realizado em Natal, a partir do qual passou a integrar projetos conduzidos pelo maestro Neemias Lopes.
No ano de 2010, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar teatro na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), onde aprofundou sua formação artística e passou a desenvolver atividades ligadas ao teatro e à música. Nesse período, estudou técnica vocal e iniciou um processo de investigação da própria identidade como intérprete. Ao chegar ao Rio de Janeiro e antes de ingressar na graduação, frequentou cursos de teatro na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL).
Em entrevistas, Linhares associou sua presença de palco e sua abordagem performática à experiência adquirida como atriz e diretora teatral, indicando que a formação cênica passou a exercer influência permanente sobre sua atuação musical.
Teatro e Pietá Durante a formação na UniRio, atuou em montagens teatrais, incluindo produções dirigidas por João Falcão e espetáculos de caráter experimental. Foi nesse contexto que conheceu os músicos Frederico Demarca e Rafael Lorga, com quem fundou, em 2012, a banda Pietá, cuja produção passou a articular referências da música popular brasileira, poesia e tradições regionais. Em 2016, passou a integrar, ao lado de Duda Brack e Julia Vargas, o projeto musical Iara Ira, que despontou na cena independente carioca.
À frente do Pietá, passou a ser reconhecida por adotar abordagem performática caracterizada pela utilização do corpo e da interpretação cênica como extensões da experiência musical. Em entrevistas, associou essa linguagem à necessidade de ocupar, por meio da performance, espaços expressivos que ultrapassassem os arranjos instrumentais.
Com o lançamento do álbum Leve o que quiser (2015), o Pietá consolidou presença na cena independente carioca e realizou apresentações em festivais e casas de espetáculo de diferentes cidades brasileiras, incluindo Natal, onde o grupo participou de eventos como o Festival Mada e o Ribeira 360º.
Com o segundo álbum do Pietá, Santo sossego, concluído e com uma turnê prevista para 2020, os planos de circulação do grupo foram interrompidos pela pandemia de COVID-19.
Carreira solo e Nordeste ficção Em paralelo às atividades com o Pietá, desenvolveu projetos autorais que culminaram em seu primeiro álbum solo, Nordeste ficção, lançado em 2021. A realização do projeto foi acelerada durante o período de isolamento social provocado pela pandemia, quando a artista retornou temporariamente a Natal.
A concepção do álbum foi influenciada pelo espetáculo A Invenção do Nordeste, do grupo teatral Carmin, e pelo livro A Invenção do Nordeste e outras artes, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior. A partir do diálogo com a obra, Linhares passou a elaborar uma reflexão artística sobre os processos de construção e representação da identidade nordestina, mantendo interlocução com Durval Muniz acerca dos conceitos por ele mobilizados. Segundo a artista, o álbum buscou ressignificar símbolos tradicionalmente associados ao Nordeste, incorporando elementos como o cacto, o forró e referências da cultura popular regional sem rejeitá-los, mas propondo sua reinvenção.
Com direção artística de Marcus Preto e produção musical de Elísio Freitas, Nordeste ficção reuniu colaborações de artistas como Chico César, Zeca Baleiro, Tom Zé e Letrux. O repertório articulou diferentes gêneros e tradições musicais, incluindo forró, frevo, bolero, xote e lambada. Segundo o diretor Marcus Preto, a concepção artística do projeto buscou dialogar com a força estética e interpretativa presente nas obras iniciais de artistas como Elba Ramalho, Amelinha e Cátia de França.
Na cobertura de lançamento do álbum, veículos da imprensa especializada destacaram a construção de uma narrativa musical voltada à problematização de estereótipos sobre o Nordeste e a articulação entre elementos da tradição regional e abordagens contemporâneas.
A faixa "Bombinha" foi utilizada como tema da personagem Candoca, interpretada por Isadora Cruz, na telenovela Mar do Sertão, exibida pela TV Globo entre 2022 e 2023. Posteriormente, a canção "Balanceiro" integrou a trilha sonora da telenovela Renascer, exibida pela emissora em 2024.
Em 2023, realizou apresentações na França, Espanha e Portugal com apoio do programa Ibermúsicas, dando continuidade à divulgação nacional e internacional de Nordeste ficção.
Em entrevistas posteriores, Linhares associou a concepção de Nordeste ficção à experiência de deslocamento entre Natal e Rio de Janeiro e à percepção de um "não-lugar" identitário vivenciado por artistas nordestinos migrantes. Segundo a própria artista, a circulação de Nordeste ficção prolongou-se por cerca de cinco anos, impulsionada pela retomada das apresentações presenciais após a pandemia e por sua incorporação a produções audiovisuais.
Até cansar o cansaço e retorno ao teatro musical Após Nordeste ficção, Juliana Linhares passou a desenvolver novos projetos musicais e cênicos. Em 2026, lançou seu segundo álbum solo, Até cansar o cansaço, novamente com direção artística de Marcus Preto e produção musical de Elísio Freitas. O lançamento do projeto foi precedido pelo single "Depois do breu", divulgado em abril daquele ano.
O repertório reuniu composições autorais e releituras, além de participações de artistas como Ney Matogrosso, Anastácia e Agnes Nunes. Entre as faixas do álbum estão uma regravação de "A palo seco", de Belchior, e parcerias com compositores como Juliano Holanda, Josyara, Khrystal e Carlos Posada. Em entrevista, Linhares explicou que as colaborações foram concebidas a partir do interesse em dialogar com intérpretes de longa trajetória artística, vistos por ela como exemplos de permanência e reinvenção criativa.
Segundo ela, a formulação conceitual do álbum surgiu a partir de reflexões pessoais sobre esgotamento acumuladas durante o período de intensa circulação artística posterior a Nordeste ficção, bem como foi inspirada por vivências compartilhadas com o neurocientista Sidarta Ribeiro durante residência artística na Companhia Brasileira de Teatro.
Assim, o projeto aborda temas relacionados à exaustão contemporânea, ao afeto e à transformação social e alcançou relevante repercussão na crítica especializada, que o apontou como uma ampliação do universo artístico desenvolvido em Nordeste ficção, consolidando a atuação de Juliana Linhares como compositora e intérprete.
No mesmo ano, Juliana Linhares retornou aos palcos teatrais como protagonista da remontagem musical de As centenárias, texto de Newton Moreno dirigido por Luís Carlos Vasconcelos. Ao lado de Laila Garin interpretou uma das duas carpideiras centenárias da versão originalmente estrelada em 2007 por Marieta Severo e Andréa Beltrão, com a nova versão incorporando canções inéditas compostas por Chico César e enfatizando elementos da ancestralidade e das tradições populares. Ao comentar a remontagem, Linhares ressaltou a escolha de reunir duas cantoras nordestinas reinterpretando uma obra anteriormente protagonizada por duas atrizes do eixo Sudeste.
Ver também
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