Tácito Pires (Porto Alegre, 20 de outubro de 1874 - Porto Alegre, 3 de julho de 1939), foi professor, jornalista, tipógrafo, redator e líder operário.PERUSSATTO, Melina. Arautos da liberdade: educação, trabalho e cidadania no pós-abolição a partir do jornal O Exemplo de Porto Alegre (c. 1892 - c. 1911). Tese de Doutorado. UFRGS. Porto Alegre: 2018. Em 1899, foi diretor de redação de A Voz do Operário, e em 1902 participou da refundação do jornal O Exemplo.
Biografia Pedro de Tácito Pires, de prenome Pedro não mais utilizado, nasceu em Porto Alegre no dia 20 de outubro de 1874, filho de Clemência Pires, escravizada e pertencente à herança de João Marcelino Pires, de quem adotaram o sobrenome. Devido à lei promulgada em 1871, Tácito nasceu de “ventre livre”, o que, porém, não garantiu a sua total liberdade. Seguindo a lei, até completar oito anos, a tutela do filho livre seria do proprietário da mãe. Depois que completasse oito anos, o senhor poderia optar por entregá-lo ao governo mediante uma indenização ou explorar seu trabalho até que esse completasse 21 anos. Em 1882, Tácito (ainda Pedro) completou oito anos, logo, o proprietário poderia escolher entre entregá-lo ao estado ou permanecer com ele. Mas, caso Clemência tivesse alcançado a liberdade, a lei assegurava que, se assim quisesse, poderia levar seu filho com ela. Devido à falta de registros encontrados, não se sabe muito sobre a infância e juventude de Tácito Pires. O que se sabe é que Clemência Pires, buscando um futuro melhor para o filho, escolheu o professor Salvador de Albuquerque como padrinho e batizou-o no dia 4 de novembro de 1874. Mesmo que não tivesse posição social de prestígio e recursos pecuniários, como era professor, Salvador Albuquerque foi provavelmente o responsável por introduzir o mundo das letras a Tácito Pires, segundo Melina Perussatto.
Foi casado com Sophia Ferreira Chaves, também conhecida como “Pepita”. Ambos eram defensores da via educacional como meio de ascensão social. Sophia Chaves lecionou na 6ª escola, mista, dos subúrbios de Itaqui e Tácito, na 5ª escola, de 1ª entrância. Em outubro de 1907, nasceu Dunia, a filha do casal, que acabou por falecer com apenas nove meses de idade. Sophia não tinha uma saúde muito forte e, poucos dias depois do falecimento da sua filha, acabou por falecer por razão desconhecida. Na viuvez, Tácito, com apenas seus 34 anos de idade, declarou ao Juízo de Órfãos do 3° Distrito que não havia nada a ser inventariado. O juiz distrital, Aurélio Júnior (um dos fundadores de O Exemplo), concedeu uma declaração de pobreza. Tácito permaneceu lecionando em Itaqui até 1917 e, por dois anos, paralelamente em São Borja.
Assim como outros nomes que construíram O Exemplo, Tácito recebeu uma patente da Guarda Nacional, sendo então condecorado como capitão Tácito Pires. Ele reestruturou sua vida familiar com sua colega de trabalho Adalgisa Pinto Bandeira Pires e seguiu o vínculo com a imprensa, sendo colaborador do jornal A Ordem, de Itaqui.
Atuação profissional e militância
O perfil de militância de Tácito teve início em meados dos seus vinte anos. Com 25 anos de idade, era eleitor e tipógrafo ativo politicamente na cidade de Porto Alegre. Operário de um dos primeiros bairros fabris da capital gaúcha, ele e outros trabalhadores perceberam que a maioria dos seus colegas aproveitava da ignorância de ser explorados para viver uma vida plena. Em discordância disso, foi criada a Associação Socialista Democrática – onde havia uma contraposição com uma associação socialista anarquista – de trabalhadores. Fundada por Tácito Pires, em 1896, surge a Liga Operária Nacional na cidade de Porto Alegre.
Unindo sua luta por proletários e pessoas negras, Tácito se tornava uma ponte entre organizações operárias negras.
Como professor concursado, começou a dar aulas particulares para operários em Caxias do Sul, cidade da serra gaúcha, por volta de 1918.O Brazil, 05.02.1921, p. 02. Em meio a todas as suas ações, Tácito Pires se mostrava a favor da educação entre negros, trabalhadores e estrangeiros, lutava pela beneficência da classe dos professores e se posicionava em ambientes onde majoritariamente existiam imigrantes europeus.
Entre suas atuações profissionais, também existem registros sobre sua ascensão docente, com chamamentos para professores de instrução pública do município de Porto Alegre em 1908, e depois mencionado entre os professores estaduais do Rio Grande do Sul.
Um dos seus maiores reconhecimentos no âmbito profissional foi a teorização e planejamento de uma escola noturna porto-alegrense. A escola teria o viés republicano dos criadores, focariam na agenda negra da comunidade operária, tornando adequada para a emancipação educacional do grupo. Dessa forma, os organizadores do jornal, em apoio à educação, criaram um símbolo de sua principal vertente: a educação como meio de ascensão social dos cidadãos negros no pós-abolição brasileiro.
Participação em jornais Tácito teve atuação no jornal O Exemplo de Porto Alegre, um jornal de autoria negra e militante, que reivindicava a comunicação entre as classes oprimidas. Sua inserção neste projeto foi mediada por Esperidião Calisto, um dos fundadores de O Exemplo, no momento de retomada da produção. Tácito torna-se, então, redator do jornal em 1902.O Exemplo, 12.10.1902, capa; 13.05.1904, capa. Um ano depois, se tornou diretor do jornal e professor concursado, ao passo que tinha sido aprovado em um concurso público no mesmo ano para lecionar em Itaqui.A Federação, 27.12.1904, p. 02.
Um dos refundadores do jornal, junto com Esperidião e Tácito, foi Vital Baptista. Ele assumiu a direção da Liga Operária Internacional, sucedendo o período em que Tácito Pires era vice-presidente, afirmando, assim, mais um elo entre os fundadores do jornal e o movimento operário.
Tácito Pires também atuou em outros dois jornais relevantes para a época, o jornal A Ordem, onde foi articulista, e o jornal A Voz do Trabalhador, onde foi redator em 1889. Dentro dos jornais, como redator, além de críticas, publicava poemas, muitos sob o pseudônimo de Ancanio Cardolino. Como exemplo, o texto “Finados”, na edição do jornal O Exemplo de 02 de dezembro de 1902, no qual aborda uma crítica ao calendário religioso e a realidade melancólica pelo qual o casal passava.
Marcas na atualidade Agora, no século XXI, mais de 80 anos depois de sua morte, ainda há múltiplas marcas de suas ações e lutas na cidade de Porto Alegre. Na imprensa porto-alegrense é onde a continuidade das ideias de Tácito Pires fica mais explícita. O seu maior trabalho, o jornal O Exemplo, abriu caminho para todo o segmento da imprensa negra, dois bons exemplos são o PINE (Projeto Imprensa Negra Educadora) por se basear diretamente no trabalho de Tácito. Este é um projeto da UFRGS para educar a população sobre essa importante imprensa negra da capital gaúcha e a sua história. Além dele, o outro exemplo seria a revista Tição, parte do Sindicato dos jornalistas de Porto Alegre, que tinha o objetivo de estudar história e cultura negra, principalmente no teatro. Existiu durante a ditadura cívico-militar brasileira, dos anos de 1978 a 1980, no início do movimento de abertura, e retornou no ano de 2025.
Seus ideais, que iam contra as “ideias raciais” e os que buscavam uma melhor qualidade de vida para os trabalhadores, eram, na verdade, os mesmos, nunca estiveram desassociados. Por este motivo, parte dos pesquisadores sociais o veem como uma figura que já articula o que hoje se chama interseccionalidade, e portanto, é uma figura que não apenas antecipa esse estilo de pensamento, mas principalmente inspira diretamente aqueles que a usam. Infelizmente não sobraram instituições criadas diretamente pelas ações do Tácito Pires, o jornal O Exemplo encerrou suas atividades em 1930, e a Liga Operária Internacional foi lentamente morta por divisões internas até estar completamente enfraquecida em 1905. Desse modo, o que ficou foi sua história e sua filosofia e os ecos das suas ações, que, conforme as pesquisas históricas e sociais nos revelam, influenciam movimentos sociais negros e trabalhistas atuais.
Morte Tácito Pires morreu no dia 3 de julho de 1939, após ser fatalmente atropelado por um automóvel na faixa em frente ao Instituto de Educação, Avenida Oswaldo Aranha em Porto Alegre. Tácito havia passado a tarde com seu amigo, o professor público César Pitoni, em palestras no educandário por Lourenço Filho.
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