Quádrupla Aliança é a designação dada ao tratado assinado em Londres a 22 de abril de 1834 entre os governos de Guilherme IV do Reino Unido, Luís Filipe de França, D. Pedro IV de Portugal (regente em nome de sua filha D. Maria II) e a regente de Espanha D. Maria Cristina de Borbón, visando impor regimes liberais nas monarquias ibéricas. Tal implicava a garantia da expulsão dos infantes D. Miguel de Bragança de Portugal e D. Carlos de Borbón de Espanha, mesmo que tal obrigasse à entrada de tropas estrangeiras nos respetivos territórios.22 de Abril - É assinado, em Londres, o Tratado da Quadrupla Aliança, entre D. Pedro, Regente de Portugal, Jorge IV do Reino Unido, Luís Filipe de França e Maria Cristina, regente de Espanha.Maria de Fátima Bonifácio, História da Guerra Civil da Patuleia 1846-1847. Editorial Estampa, Lisboa, 1993.João Ricardo de Sousa Barbosa e Dias Costa, «À Procura de uma Política Externa e de Segurança Comum para a Europa». In Revista Militar, n.º 2437/2438 (fevereiro/março de 2005).Britannica: Quadruple Alliance (Europe, 1834). Descrição A Quádrupla Aliança foi um tratado internacional assinado entre o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, a França, o Reino de Espanha e o Reino de Portugal em 22 de abril de 1834, pelo qual os quatro Estados se comprometeram a expulsar de Portugal o infante português D. Miguel e o infante espanhol D. Carlos de Borbón. Com a eclosão da Primeira Guerra Carlista, foram assinados artigos adicionais em agosto desse ano, nos quais as outras partes signatárias se comprometiam a ajudar o governo legitimista em Espanha. O tratado foi entendido pelo Império Austríaco, pelo Império Russo e pelo Reino da Prússia, potências absolutistas, como uma ação diplomática conjunta em política internacional para defender os modelos do liberalismo representados pelos governos signatários da Quádrupla Aliança.

No rescaldo das Guerras Napoleónicas, perante a crescente instabilidade nas duas monarquias ibéricas, nas quais em Portugal desde 1828 se vivia um estado de guerra civil, com os liberais apoiantes da jovem princesa D. Maria da Glória a digladiarem-se pelo trono contra os absolutistas de D. Miguel, e em Espanha, onde a regente Maria Cristina das Duas Sicílias tentava sustentar no trono a jovem rainha Isabel II de Espanha contra as pretensões de seu tio Carlos de Borbón, as duas grandes potências ocidentais, o Reino Unido e a França, resolveram entender-se de forma a assegurar estabilidade na Península Ibérica, favorecendo a estabilização de regimes de pendor liberal.

Em termos práticos, uma vez que a França e o Reino Unido eram as principais potências europeias, tratava-se de ambos assegurarem o controlo parcial de Espanha e Portugal como países médios com políticas instáveis, como o governo de Isabel II em Espanha ou o de D. Pedro IV em Portugal, de uma forma muito semelhante a um protetorado. Este facto pôs termo à adesão de Espanha à Santa Aliança, que se tinha tornado obsoleta face à evolução política do país, e constituiu um marco importante no entendimento entre dois países tradicionalmente beligerantes, a França e o Reino Unido.

A Quádrupla Aliança garantiu o apoio da França e do Reino Unido às pretensões dinásticas da filha de Fernando VII de Espanha, Isabel II, contra o pretendente à Coroa, Carlos María Isidro de Borbón, facto que foi significativo para a derrota do partidários deste último na Primeira Guerra Carlista e para a consolidação do regime liberal em Espanha, e consolidou a vitória liberal em Portugal, e a consequente instalação no trono da jovem rainha D. Maria II, quando as forças lideradas por D. Pedro IV já estavam na posse de Lisboa desde 24 de julho do ano anterior (1833), mas D. Miguel e os seus apoiantes ainda controlavam parte substancial do território português.

Após discretas negociações conduzidas por Charles-Maurice de Talleyrand, o poderoso embaixador da França em Londres, e o visconde Palmerston, ministro dos negócios estrangeiros britânico, a 22 de abril de 1834, foi formalizada em Londres uma aliança entre o Reino Unido, a França e os representantes dos candidatos mais liberais aos tronos de Espanha e Portugal contra os candidatos conservadores a esses tronos.

A aliança apoiou com sucesso Maria Cristina das Duas Sicílias, que exercia o cargo de regente em nome de sua filha Isabel II em Espanha e se tinha aliado aos liberais contra o pretendente D. Carlos de Borbón na Primeira Guerra Carlista (1833-1839), permitindo a estabilização do regime liberal em Espanha. Em Portugal, a aliança apoiou com sucesso as pretensões de D. Pedro, duque de Bragança, regente em nome de sua filha D. Maria da Glória, que já se encontrava na posse de Lisboa, intervindo decisivamente na fase final da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), forçando a Concessão de Évora Monte e a expulsão definitiva de Portugal do reacionário D. Miguel.

Neste sentido ficou aprovado que a Espanha forneceria um corpo de tropas por ela mantido; a Inglaterra uma força naval; e a França, se necessário, o que se combinasse. Portugal enviaria, se fosse necessário, um Exército Auxiliar para Espanha com o intuito de ajudar as tropas liberais espanholas, o que veio a suceder em 1835–1837.

A primeira ação militar assente na Quádrupla Aliança ocorreu em Portugal, no quadro da Guerra Civil Portuguesa (1828–1834) que então opunha os liberais, encabeçados por D. Pedro de Bragança e os absolutistas encabeçados por D. Miguel de Bragança. Naquela intervenção, o almirante Charles Napier desembarcou tropas na Figueira da Foz, avançando por Leiria, Ourém e Torres Novas, e o general espanhol José Ramón Rodil y Campillo entrou em Portugal através da Beira e Alto Alentejo com uma expedição de 15 mil homens em apoio do partido de D. Pedro e de sua filha D. Maria da Glória. Na batalha de Asseiceira, as forças militares miguelistas foram derrotadas pela conjugação destas forças estrangeiras aliadas às forças liberais comandadas por António José de Sousa Manuel de Menezes Severim de Noronha, o 1.º duque da Terceira, sendo o rei D. Miguel forçado a abdicar em favor de D. Maria II através da Concessão de Évora Monte, datada de 26 de maio de 1834.

Mais tarde, ainda no que respeita a Portugal, a Quádrupla Aliança foi invocada para legitimar uma nova intervenção estrangeira que, na primavera de 1847, pôs termo à guerra civil da Patuleia que havia rebentado na sequência da Revolução da Maria da Fonte e do golpe palaciano da Emboscada.

A cooperação entre a França e a Grã-Bretanha nos assuntos da Península Ibérica foi interrompida em 1846, quando Isabel II de Espanha e a sua irmã María Luisa Fernanda de Borbón casaram com príncipes franceses. Contexto e relevância As revoluções de 1830 marcaram um ponto de viragem no sistema de concertação europeu iniciado no Congresso de Viena em 1815. Como afirma María Teresa Menchén Barrios, «as ambições políticas que a ela [à Quádrupla Aliança] conduzem são função dos antagonismos existentes entre a Europa liberal que emerge da revolução e a Europa absolutista».Menchén, 1989, p. 34 A Revolução Belga foi o primeiro exemplo da divisão em blocos, Reino Unido e a Monarquia de Julho de França, por um lado, Reino da Prússia, Império Austríaco e Império Russo, por outro.Rodríguez, 1991, pp. 1-3.

A aproximação entre o Reino Unido e a França foi motivada por «múltiplos interesses, não apenas afinidades ideológicas», embora estas fossem evidentes.López-Cordón, 1981, p. 848. Em França, a revolução de 1830 deu o poder a Louis Philippe que inicialmente adotou posições liberais. No Reino Unido, os Whig assumiram o governo e impuseram uma grande reforma em 1832 (o Reform Act 1832), que permitiu alguma abertura política e um alargamento da base do governo parlamentar. Um ponto importante da abordagem Whig, e especialmente dos radicais que os apoiavam no Parlamento do Reino Unido, era a defesa dos ideais liberais na Europa. Esta defesa e união explicam a aproximação com a França, que tomou a forma de uma Entente Cordiale, uma frente comum contra as monarquias absolutistas. Em todo o caso, esta colaboração tinha duas limitações importantes: o tradicional princípio inglês de não intervenção e os interesses económicos diferentes e contraditórios de cada país.Rodríguez, 1991, pp. 6-11.

Ao mesmo tempo, o Império Espanhol e o Reino de Portugal viviam uma situação interna muito difícil. Em Portugal, desde meados da década de 1820, mas com maior clareza desde 1828, estava a decorrer uma guerra de sucessão entre os irmão D. Pedro e D. Miguel de Bragança. Em Espanha, a situação também era semelhante, embora a Primeira Guerra Carlista só viesse a eclodir após a assinatura do Tratado. Em termos de política internacional, o tratado e a dependência que lhe estava associada foram «o resultado do isolamento internacional do regime isabelino».Vilar, 2003, p. 405. López-Cordón acrescenta ainda que este isolamento resulta da «desqualificação da Espanha como potência europeia, fruto da infeliz política externa de Fernando VII».López-Cordón, 1981, p. 849. Um sinal do isolamento da Espanha na política internacional é o facto de, inicialmente, apenas a França e a Inglaterra terem reconhecido Isabel II como herdeira legítima. O seu exemplo só foi seguido pelos países dependentes dessas potências.

O objetivo imediato do tratado era conseguir a expulsão dos infantes D. Miguel e D. Carlos de Portugal, mas entendeu-se que os compromissos assumidos iam para além disso.López-Cordón, 1981, pp. 849-850. Sem a necessidade de o declarar explicitamente no tratado, o Reino Unido continuou a manter a sua influência em Portugal e evitou-se a ação unilateral espanhola. Além disso, a união dos países constitucionalistas (o que viria a ser designado por espírito da Quádrupla) inquietava as potências do Norte.López-Cordón, 1981, p. 850. Javier de Burgos definiu o tratado como «uma espécie de provocação dirigida às Potências do Norte» (Reino da Prússia, Império Austríaco e Império Russo).Rodríguez, 1991, p. 37.

A negociação dos artigos adicionais foi complicada, pois significava transformar o apoio moral em apoio efetivo no terreno. Os novos artigos diziam respeito ao Reino Unido, mas sobretudo à França, que assumiu compromissos específicos com pouca intenção de os cumprir rapidamente.Rodríguez, 1991, pp. 40-41.

O significado mais evidente para a historiografia sobre a Quádrupla Aliança é que este tratado implicava uma tutela do Reino Unido e da França sobre Espanha e Portugal, o que já se reflectia no próprio texto do tratado. Esta tutela deveu-se à desigualdade de peso dos signatários relativamente à sua situação e circunstâncias.Rodríguez, 1991, p. 39. Autores como Juan Bautista Vilar chegaram a considerar que «na prática é um tratado de protetorado anglo-francês sobre os dois Estados da Península Ibérica».Vilar, 2003, p. 406.

As partes contratantes A iniciativa do tratado partiu do Reino Unido. Portugal, apesar de considerar essencial o apoio militar, aderiu ao tratado com pouco entusiasmo, considerando-o necessário e inevitável.Menchén, 1989, p. 40. Juan Bautista Vilar considera mesmo que Portugal aderiu ao tratado «de uma forma um pouco forçada», mas pelo contrário, a Espanha aderiu com entusiasmo, pois foi vista como um êxito diplomático, como um sinal do «coroamento do processo de aproximação com o Reino Unido».