Sophia Ferreira Chaves, também conhecida pelo codinome Pepita (Porto Alegre, 12 de agosto de 1883 - Itaqui, c. 1908), foi uma intelectual, poeta, cronista, jornalista e professora brasileira. Como jornalista, foi redatora do periódico abolicionista O Exemplo, de maio de 1904 até janeiro de 1905, obtendo 10 publicações, transitando entre crônicas, poesias e artigos.PERUSSATTO, Melina Kleinert. Biografias da intelectualidade negra porto-alegrense: a microanálise como possibilidade de pesquisa e ensino de história do pós-abolição. In: KARSBURG, Alexandre; VENDRAME, Maíra Ines; CARNEIRO, Deivy (orgs.). Práticas de micro-história: diversidade de temas e objetos de um método historiográfico. São Leopoldo: Oikos, 2022, p. 1120-1137. Já na carreira como docente, foi professora e servidora do Estado do Rio Grande do Sul, pelo município de Itaqui, na 6ª escola mista dos subúrbios da cidade.ROSA, Marcus Vinicius de Freitas. Além da Invisibilidade: História Social do Racismo em Porto Alegre Durante o Pós-Abolição (1884-1918). 2014. Tese (Doutorado em História). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2014.

Infância, Origens e Contexto Familiar As informações sobre sua vida anterior ao jornal são escassas. Não há registros conhecidos sobre seus pais, irmãos ou o local exato de seu nascimento. Sabe-se apenas que nasceu em 1883 e faleceu em 1908, tendo sua atuação pública registrada em Porto Alegre, onde colaborou com o jornal O Exemplo, e em Itaqui, onde atuou como professora pública.

A ausência de dados sobre sua infância e família não é por acaso, o apagamento sistemático das trajetórias de mulheres negras nos registros oficiais do período faz parte de um processo mais longo de construção da invisibilidade dos negros no Rio Grande do Sul, que foi deliberadamente representado como um "lugar de europeus" desde o século XIX.PINTO, Ana Flávia Magalhães. Imprensa negra no Brasil do século XIX. São Paulo: Selo Negro, 2010. Sophia, como a maioria das pessoas negras no pós-abolição, pertencia provavelmente a uma família de origem humilde, o que é corroborado pelo inventário de seus bens após sua morte. Na ocasião, seu viúvo, Tácito Pires, declarou ao Juízo de Órfãos que nada havia a ser inventariado, obtendo uma declaração de pobreza, confirmação de sua condição social modesta.PERUSSATTO, Melina Kleinert. Aurora da Liberdade: o pós-abolição nos escritos de Sophia Ferreira Chaves na imprensa negra (Porto Alegre, 1904-1905). Currículo sem Fronteiras, v. 19, n. 2, p. 431-452, maio/ago., 2019. Disponível em: https://www.curriculosemfronteiras.org/vol19iss2articles/perussatto.pdf

Apesar da origem humilde, sua trajetória adulta revela uma mulher que, em um contexto de profundo analfabetismo, patriarcado e racismo, conseguiu acesso à instrução e tornou-se literata e professora. No pós-abolição, a cor da pele funcionava como um critério de suspeição e controle social, dificultando o acesso de negros a direitos básicos, o que torna a conquista de Sophia ainda mais importante.

Atuação no Jornal O Exemplo e Escrita Literária A atuação de Sophia Chaves no jornal O Exemplo e sua produção literária representam um marco, principalmente para as mulheres negras do Rio Grande do Sul, por inseri-la em um espaço até então dominado por homens. Sua entrada no jornal ocorreu em uma das datas mais celebradas pela população negra, dia 13 de maio, na edição que comemorava a abolição, no ano de 1904. Lá, Sophia publicou seu primeiro texto, a crônica “Aurora da Liberdade”, utilizando o codinome de “Pepita”. Essa estreia foi apenas o início de sua produção, ao longo de menos de um ano ela somou dez colaborações entre crônicas, poemas e artigos.

Sua escrita faz parte do que podemos chamar de “imprensa negra”, uma produção de pessoas negras, pensada para vincular assuntos e interesses da população negra.ZUBARÁN, Maria Angélica. O Acervo do Jornal O Exemplo (1892-1930): patrimônio cultural afro-brasileiro. Revista Memória em Rede, v. 7, n. 12, p. 03-18, 2015. Sendo assim, seu texto não era apenas algo artístico, mas sim uma ferramenta política. A temática central de seus escritos era a instrução como caminho para a liberdade. Nos artigos "Impressão" e "Observando", Sophia discorria sobre os males da ignorância e dos preconceitos, clamando pela "regeneração" de sua "classe" através do conhecimento. Sua atuação no jornal, portanto, não se limitava à produção literária, era um ato político de resistência e de reivindicação de cidadania em um contexto de profundo racismo e patriarcado.

Sua colaboração foi interrompida em janeiro de 1905, quando um comunicado na redação informou seu afastamento, causado por motivos de saúde. O jornal lamentou sua partida, ressaltando como sua ausência seria uma grande perda para o projeto, como um todo, principalmente na área literária do jornal, na qual ela era uma das principais  responsáveis. Sua última contribuição conhecida foi uma "Saudação", do ano de 1905, na qual reafirmava o jornal como o "paladino de um ideal santíssimo", remetendo à sua importância para lutar e defender uma transformação social.

Apesar de sua breve passagem, sua colaboração permanece como um marco da presença feminina na imprensa negra do Rio Grande do Sul e um testemunho das lutas das mulheres negras por direitos e representatividade no pós-abolição, como nota-se no excerto abaixo, retirado da primeira página de uma edição de dezembro de 1904 d'O Exemplo:PERUSSATTO, Melina Kleinert. “Às mulheres”: gênero, raça e classe nos escritos de Sophia Ferreira Chaves (Porto Alegre, 1904). In: FAGUNDES, Marluce Dias; et al (orgs.). Dialógos entre História e Gênero: Costumes, Práticas e Fazeres. Porto Alegre: Editora Fi, 2019, p. 121-137.[...] Ao assistir tudo quanto descrevi, se me representou: a noite, a Sociedade envolvida na atmosfera abafadiça dos vícios; as nuvens negras, o egoísmo e o amor próprio geradores de trovões dos preconceitos, dos relâmpagos da vaidade, da chuva das convenções, do vendaval da desarmonia, e a barquinha é a ignorância em que a tripulação – a humanidade – luta embalde para alcançar o porto salvador. O naufrágio é o período de transição do estado em que nos encontramos ao estado em que devemos atingir, e a salvação dos náufragos, a vitória do nosso esforço sobre as condições humilhantes em que nos encontramos. A aurora sorridente e bela, afigura os dias sublimes imediatos àquele de nossa conquista de instrução e de mútuo auxílio na verdadeira expressão da palavra. [...] Portanto mocidade, alerta! É chegado o momento da luta, e se a medonha tempestade desabar sobre vossas cabeças: lutai! Lutai! Mas não desanimeis, e quando depois de tantas fatigas, de tantos sacrifícios a bonança da Instrução nos levar ao desejado porto, quebrada a canoa da Ignorância, ide descansar na formosa praia da Ilustração, ouvindo o murmúrio doce do balouço suave das águas. (PEPITA. Descrição. O Exemplo, Porto Alegre, p.1, 11 dez. 1904.)

Pensamento Intelectual e Ativismo Interseccional Sophia desenvolveu, por meio de suas colaborações no jornal O Exemplo de Porto Alegre, um pensamento que antecipava categorias do feminismo negro, como a articulação interseccional entre gênero, raça e classe. Sophia denunciou a dupla marginalização vivida por mulheres negras pobres no pós-abolição, apontando que a desigualdade não decorria apenas do preconceito racial, mas da sua combinação com a opressão de gênero e a exclusão de classe.

Escrevendo em um contexto de profundo analfabetismo e patriarcado, sua presença como autora regular em O Exemplo era um ato político por si, produzindo diversos textos em que apresentava a instrução como ferramenta central para a emancipação coletiva, convocando outras mulheres a assumirem o protagonismo nas lutas sociais. Sophia também se posicionou sobre o associativismo negro, defendendo a criação de uma confederação de associações que integrasse instrução, beneficência e recreação, e incentivando ativamente a participação feminina nesse projeto.

Sophia apresentou, ao longo de sua trajetória como autora, um forte ativismo pelo protagonismo feminino no movimento negro e no combate à ignorância, sobretudo através da participação nos meios literários e pela conexão da luta pela educação no pós-abolição. Pepita, em 1904, convocou as mulheres para tornarem-se Joana D'Arc, como símbolo de heroína:Há, entretanto, no meio social quem poderia com coragem consumar as obras que os homens por falta de ânimo abandonam e, com sua nunca assaz desmedida perseverança, com seu caráter tão doce quanto sofredor calcando essa repulsa e desvalimento, levá-las ao fim. Esse alguém é ‘a mulher’ que poderia, imitando as heroínas de outrora, tornar-se a Joana D’Arc na guerra que movemos contra a ignorância. (PEPITA. O Exemplo, Porto Alegre, capa, 1904)

Magistério, Casamento e Vida na Fronteira Sophia foi casada com Tácito Pires – um dos principais líderes negros de Porto Alegre e refundador do jornal O Exemplo – e ambos eram docentes e  parceiros intelectuais no periódico. Tácito editava também sob o codinome de Arcânio Cardolino e Sophia, como Pepita, uma das vozes femininas mais atuantes da redação. Defensores da educação como meio de ascensão social, Sophia e Tácito, além de articulistas do jornal, pleiteavam vagas para professores públicos no estado do Rio Grande do Sul, ao lado de outras pessoas negras da capital gaúcha.

Em 1903, Sophia concorreu a uma vaga de professora no município de Camaquã. Dois anos depois, em 1905, quando saiu do periódico por questões de saúde, concorreu a vagas no magistério em Sertão Santana e Alfredo Chaves – a atual Veranopólis – no Rio Grande do Sul. Em 1907, prestou concurso para Porto Alegre e finalmente, para Itaqui – município na fronteira Brasil - Argentina, cerca de 600 quilômetros da capital –, onde se tornou professora municipal. Em Itaqui, o casal viu no magistério uma possibilidade de sobrevivência e de reorganização de suas vidas fora da capital, atuando Sophia na 6ª escola mista e Tácito na 5ª escola de 1ª entrância.PERUSSATTO, Melina Kleinert. A trajetória de Tácito Pires entre a história social do trabalho e do pós-abolição (Rio Grande do Sul, 1874-1939). Revista Mundos do Trabalho, v. 10, n. 19, p. 43-58, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.5007/1984-9222.2018v10n19p43

Sophia e Tácito tiveram uma filha, nascida em outubro de 1907, chamada Dunia. Durante esse ano, Sophia solicitou várias licenças-saúde para buscar tratamento na capital, acompanhada do marido. Em junho do ano seguinte, Dunia faleceu e, duas semanas depois, Sophia não resistiu à doença que possuía e morreu aos 24 anos. O marido procurou o Juízo de Órfãos do 3º Distrito para declarar que não havia nada a ser inventariado. O pedido de declaração de pobreza foi deferido por Aurélio Júnior, juiz distrital e um dos fundadores de O Exemplo, o que não apenas confirmou as origens humildes e o modo de vida simples do jovem casal, mas também demonstrou a permanência das redes de solidariedade da imprensa negra gaúcha mesmo após o afastamento de Sophia da redação.

Pepita, enquanto docente e escritora, alertava os mais novos e argumentava que era “preciso instrução” para melhorar as condições de vida da população negra. Sua prática educativa buscava instrumentalizar a classe trabalhadora negra, proporcionando os meios intelectuais para que tanto os mais inexperientes quanto os mais vividos compreendessem as complexas disputas de cidadania que marcaram a queda da monarquia e a aurora do período republicano. Para ela, o magistério não era apenas um ofício, mas uma ferramenta política de resistência para combater o racismo e a evasão escolar.

Maternidade e Morte Precoce