A codorna-mineira ou codorna-buraqueira (nome científico: Nothura minor) é uma espécie de ave tinamiforme da família dos tinamídeos (Tinamidae). É endêmica dos ambientes campestres do Cerrado, ocorrendo principalmente em áreas abertas do Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, com uma população isolada conhecida no nordeste do Paraguai. Trata-se da menor espécie do gênero Nothura, caracterizada pela plumagem castanho-avermelhada densamente marcada por manchas e estrias escuras, hábitos terrestres e comportamento extremamente discreto. Habita sobretudo áreas de campo limpo e campo sujo, geralmente associadas a gramíneas altas, vegetação arbustiva esparsa e solos arenosos.

A espécie pertence à subfamília dos noturíneos, grupo de tinamídeos adaptado a ambientes abertos. Estudos filogenéticos recentes indicam que suas relações evolutivas dentro do gênero Nothura permanecem parcialmente incertas. Análises moleculares sugerem afinidade com a codorna-pálida (Nothura darwinii), enquanto hipóteses anteriores a relacionavam à codorna-do-nordeste (Nothura boraquira) ou ao grupo formado pela codorna-amarela (Nothura maculosa) e pela codorna-chaquenha (Nothura chacoensis). A espécie foi descrita por Johann Baptist von Spix em 1825 como Tinamus minor e possui como sinônimo taxonômico Nothura schreineri, proposto por Alípio de Miranda-Ribeiro em 1938.

Considerada uma das aves mais raras e ameaçadas do Cerrado, a codorna-mineira sofreu forte redução de distribuição em decorrência da conversão de campos nativos para agricultura, pecuária e silvicultura. Atualmente, as principais populações conhecidas concentram-se em áreas protegidas como o Parque Nacional da Serra da Canastra, o Parque Nacional das Emas e o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A espécie é classificada como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e como em perigo no Brasil, onde suas populações remanescentes encontram-se fortemente fragmentadas e sujeitas à perda de habitat, incêndios frequentes, caça e aos efeitos previstos das mudanças climáticas.

Etimologia

O nome popular codorna deriva por regressão de codorniz, forma documentada em português desde pelo menos o como codornjzes. Por sua vez, codorniz tem origem no termo latino coturnix, coturnīcis, utilizado para designar aves da família dos tinamídeos e posteriormente aplicado a diferentes espécies conhecidas popularmente como codornas. O vocábulo codorna encontra-se registrado em português desde 1853. O ergônimo "-mineira" diz respeito ao fato de se esconder em túneis escavados pelos tatus. O nome genérico Nothura deriva do grego nothos (), que significa "espúrio", "falso" ou "bastardo", combinado com oura (), "cauda", em referência à cauda extremamente curta e pouco evidente característica das espécies do gênero. O nome foi originalmente proposto na forma Nothurus, posteriormente substituída por Nothura para adequação ao gênero gramatical adotado na nomenclatura zoológica. O epíteto específico minor deriva do latim minor, que significa "menor".

Taxonomia

A codorna-mineira é monotípica. Pertence à família dos tinamídeos e à subfamília dos noturíneos, que reúne os tinamídeos associados predominantemente a ambientes abertos. Análises filogenéticas baseadas em dados moleculares, osteológicos, miológicos e em evidência combinada corroboraram a divisão da família em dois grandes clados: os tinamíneos, principalmente florestais, e os noturíneos, ligados a áreas abertas. Dentro destes últimos, estudos morfológicos e moleculares recuperaram consistentemente um agrupamento formado por Taoniscus, Nothura, Nothoprocta e Rhynchotus, distinto do clado constituído por Eudromia e Tinamotis. Bertelli et al. (2014) recuperaram Eudromia e Tinamotis como grupo-irmão de todos os demais noturíneos e posicionaram Taoniscus como grupo-irmão de um Nothura parafilético, seguido pelo clado formado por Nothoprocta e Rhynchotus. Já Almeida et al. (2022) encontraram uma estrutura semelhante para a subfamília, mas recuperaram especificamente os clados (Taoniscus + Nothura) e (Nothoprocta + Rhynchotus) como grupos-irmãos, reforçando a estreita afinidade entre esses gêneros.

Análises anteriores fundamentadas em caracteres fenotípicos sugeriram que a codorna-do-nordeste (N. boraquira) e a codorna-mineira constituíam espécies-irmãs. Contudo, estudos posteriores produziram resultados distintos. Na análise osteológica e miológica de Bertelli et al. (2014), a codorna-mineira, a codorna-do-nordeste , codorna-amarela (N. maculosa) e a codorna-pálida (N. darwinii) foram recuperadas como linhagens sucessivas dentro de um Nothura parafilético, sem suporte para uma relação particularmente próxima entre N. minor e N. boraquira. Já nas análises moleculares de Almeida et al. (2022), N. boraquira foi recuperada como a linhagem mais basal entre as espécies amostradas de Nothura, enquanto N. minor formou um clado bem sustentado com a codorna-pálida. Esse agrupamento apareceu como irmão do clado formado por Nothura maculosa maculosa e Nothura maculosa chacoensis nas análises moleculares, embora a análise de evidência total tenha apresentado diferenças na posição relativa desses táxons, evidenciando alguma incerteza quanto às relações internas do gênero.

Uma hipótese mais antiga, baseada na distribuição de piolhos-de-penas (), sugeriu que a espécie seria mais próxima do grupo formado pela codorna-amarela e pela codorna-chaquenha (Nothura chacoensis) do que das demais espécies do gênero. Em uma análise biogeográfica dos endemismos do Cerrado, a codorna-mineira foi considerada uma das linhagens mais distintas da avifauna característica desse bioma, sendo interpretada como uma possível linhagem antiga isolada de seus parentes por eventos vicariantes ocorridos durante o Terciário Inferior ou Médio. A hipótese de que Nothura seja parafilético não se restringe aos estudos moleculares recentes. Bertelli et al. (2014) já haviam recuperado o gênero como parafilético em uma análise baseada exclusivamente em caracteres osteológicos e miológicos, resultado posteriormente corroborado por Almeida et al. (2022), que encontraram o inhambu-carapé (Taoniscus nanus) inserido dentro de Nothura em análises bayesianas e de máxima verossimilhança. Como a posição de Taoniscus variou entre diferentes métodos analíticos e pode ter sido influenciada pela quantidade limitada de dados moleculares disponíveis para a espécie, os autores consideraram prematura qualquer revisão formal da delimitação dos gêneros. A espécie foi descrita por Johann Baptist von Spix em 1825 como Tinamus minor e possui como sinônimo taxonômico Nothura schreineri, nome proposto por Alípio de Miranda-Ribeiro em 1938.

Descrição

A codorna-mineira é a menor espécie do gênero Nothura, medindo entre 18 e 19,5 centímetros de comprimento. Os machos pesam entre 158 e 174 gramas, enquanto as fêmeas apresentam massa corporal em torno de 158 gramas. Em comparação com outras espécies do gênero, possui postura relativamente ereta quando em repouso. A plumagem é bastante variável. Os indivíduos mais escuros apresentam testa e píleo castanho-avermelhados com manchas negras e pequenas estrias esbranquiçadas laterais. O pescoço é bege, marcado por manchas e estrias pretas, frequentemente mescladas por tonalidades castanho-avermelhadas na região inferior. As partes superiores são predominantemente castanho-avermelhadas, com manchas e vermiculações negras de intensidade variável. As penas apresentam finas estrias esbranquiçadas laterais, enquanto as coberteiras das asas são mais claras e barradas. As rêmiges são castanho-escuras com barras de coloração canela a castanha em ambas as vexilas. Alguns indivíduos apresentam padrão geral mais pálido, mantendo, entretanto, a mesma disposição básica das marcações. A face varia de castanho-avermelhada a amarelo-escura e apresenta ampla região relativamente uniforme ao redor dos olhos, interrompida por uma faixa pós-ocular escura. Em alguns exemplares ocorre ainda uma estreita linha malar escurecida. A garganta e o mento são brancos ou esbranquiçados, enquanto o peito apresenta estrias escuras ao longo das hastes das penas. O restante das partes inferiores varia de esbranquiçado a avermelhado. A íris é amarelo-clara a amarelo-alaranjada; o bico varia de cinza-córneo a castanho-escuro ou rosado-escuro na maxila, tornando-se mais claro na mandíbula, com a ponta geralmente mais escura. As pernas variam de rosa-amareladas a amarelo-alaranjadas. Os sexos são externamente semelhantes e a plumagem juvenil permanece insuficientemente conhecida.

Distribuição e habitat

A codorna-mineira é quase endêmica do Brasil, ocorrendo de forma descontínua no Cerrado do Centro-Oeste e Sudeste do país. Os registros recentes concentram-se principalmente em Goiás e Minas Gerais, embora existam registros relativamente recentes para o Distrito Federal e o interior de São Paulo. Historicamente, a espécie também ocorria em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, mas não existem registros recentes confirmados nesses estados. Há ainda referências históricas para Santa Catarina, onde a espécie é atualmente considerada possivelmente extinta. Durante muito tempo acreditou-se que a distribuição da espécie estivesse restrita ao Brasil. Entretanto, em 2001 foi descoberta uma população na região da Laguna Blanca, no departamento de São Pedro, no nordeste do Paraguai, constituindo o único registro conhecido fora do território brasileiro. Essa descoberta ampliou significativamente a distribuição conhecida da espécie, embora sua ocorrência continue extremamente localizada e fragmentada. Os registros paraguaios foram obtidos em diferentes propriedades inseridas em um remanescente de Cerrado com cerca de 26 mil hectares, dos quais aproximadamente 18 mil hectares permaneciam relativamente preservados à época da descoberta. Na maioria das localidades brasileiras existem apenas registros históricos, sendo atualmente reconhecidas como remanescentes apenas algumas populações isoladas, principalmente no Parque Nacional da Serra da Canastra, Parque Nacional das Emas e Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Em avaliação nacional realizada pelo ICMBio, a área de ocupação da espécie foi estimada em apenas 200 quilômetros quadrados, refletindo a forte fragmentação e a restrição das populações atualmente conhecidas. Sua distribuição atual está associada às sub-bacias do Araguaia, Paranaíba e Alto São Francisco. Em março de 2020, a espécie foi fotografada e filmada no município de Pompéu, em Minas Gerais, constituindo um dos poucos registros documentados recentes fora das localidades tradicionalmente monitoradas para a espécie.

A espécie está associada a ambientes campestres do Cerrado, ocupando principalmente áreas de campo limpo e campo sujo, além de formações de cerrado mais densas. No Brasil, ocorre predominantemente entre 700 e mil metros de altitude, enquanto a população paraguaia foi registrada a cerca de 215 metros de altitude, significativamente abaixo do limite inferior anteriormente atribuído à espécie. Em comparação com a codorna-amarela (Nothura maculosa), tende a ocupar ambientes mais arbustivos, especialmente aqueles com cobertura contínua de gramíneas altas e juncos. Na Laguna Blanca, foi considerada localmente comum em áreas elevadas de campo sujo adjacentes a formações campestres mais abertas, sendo encontrada principalmente em trechos gramíneos próximos a ilhas de vegetação arbustiva, frequentemente associados a solo arenoso exposto e manchas de vegetação lenhosa baixa. Embora possa utilizar áreas anteriormente queimadas após o início da regeneração da vegetação, aparentemente evita áreas submetidas a queimadas recentes, embora existam registros de indivíduos vocalizando em áreas queimadas já em processo de regeneração.

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