Cyphocharax tamuya, popularmente chamado saguiru, é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, endêmica da bacia do alto rio Paraíba do Sul, no estado de São Paulo. Foi descrita em 2022 por Guilherme Moreira Dutra e colaboradores com base em uma abordagem de taxonomia integrativa, que combinou evidências morfológicas e moleculares para demonstrar que populações anteriormente atribuídas a C. gilbert representavam uma espécie distinta. O nome específico homenageia o povo indígena tamoio (tamuya), antigo habitante da região de ocorrência da espécie. Sua descrição contribuiu para esclarecer a diversidade dos curimatídeos das drenagens costeiras do Sudeste brasileiro e reforçou a necessidade de revisão taxonômica do complexo de espécies tradicionalmente incluídas sob o nome C. gilbert.

A espécie apresenta corpo relativamente alongado, podendo atingir cerca de 20 centímetros de comprimento padrão. Distingue-se da maioria dos congêneres pela combinação entre coloração corporal pouco conspícua e uma mancha escura arredondada no pedúnculo caudal. Entre as características diagnósticas mais importantes destacam-se o elevado número de escamas circumpedunculares, a presença de 33 vértebras e o formato da mancha caudal, que não se prolonga sobre os raios medianos da nadadeira caudal. Análises filogenéticas baseadas no gene mitocondrial COI recuperaram C. tamuya como integrante do clado Cyphocharax gilbert e reconheceram a espécie como uma linhagem evolutiva independente dentro desse grupo.

Cyphocharax tamuya é conhecida apenas dos rios Paraibuna e Paraitinga, além de tributários associados, todos situados na porção superior da bacia do Paraíba do Sul, em área inserida no domínio da Mata Atlântica. Os exemplares conhecidos foram coletados tanto em ambientes fluviais quanto em áreas influenciadas pelo reservatório de Paraibuna, sugerindo tolerância a águas de baixa velocidade. Embora a região tenha sofrido alterações significativas após a construção da barragem de Paraibuna na década de 1970, avaliações realizadas pelos autores da descrição original e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade indicaram que a espécie não apresenta ameaças imediatas conhecidas, sendo atualmente classificada como Menos Preocupante (LC).

Etimologia

Cyphocharax tamuya é conhecida localmente como saguiru. O termo é provavelmente de origem tupi, embora sua etimologia permaneça obscura. O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado na Antiguidade a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico tamuya homenageia o povo indígena tamoio (tamuya), que habitava a região de ocorrência da espécie antes da colonização europeia. O termo, originário da língua tupinambá, significa “avô” ou “o mais velho” e apresenta variantes como tamúya, tamuja e tamuía, todas derivadas da mesma origem e com significado equivalente. Os tamoios foram exterminados durante a colonização do litoral brasileiro, sobretudo ao longo dos séculos XVI e XVII. O epíteto foi proposto como substantivo em aposição.

Taxonomia

Cyphocharax tamuya é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2022 por Guilherme Moreira Dutra, George Vita, Péricles Vinícius Gentile, Luz Eneida Ochoa e Andre Luiz Netto-Ferreira com base em uma abordagem de taxonomia integrativa, que combinou caracteres morfológicos, análises filogenéticas moleculares e diferentes métodos de delimitação de espécies. Antes de seu reconhecimento formal, exemplares da bacia do alto rio Paraíba do Sul haviam sido identificados como C. gilbert, inclusive na revisão taxonômica realizada por Richard P. Vari em 1992. A reavaliação desse material revelou, entretanto, uma combinação própria de caracteres morfológicos, sobretudo o número de escamas circumpedunculares e o padrão da mancha do pedúnculo caudal, além de divergência genética suficiente para sustentar seu reconhecimento como espécie distinta. O holótipo, catalogado como MZUSP 125833, é um exemplar de 106,8 milímetros de comprimento padrão coletado em 19 de maio de 1977 no rio Paraibuna, no município de Paraibuna, estado de São Paulo. A série de parátipos reuniu exemplares provenientes do próprio rio Paraibuna, do córrego do Rogero, no município de Santa Branca, do rio Paraitinga, em São Luiz do Paraitinga, e do reservatório de Paraibuna. Os espécimes examinados apresentaram entre 64 e 196,2 milímetros de comprimento padrão, embora a descrição morfométrica tenha se baseado principalmente no holótipo e em 24 parátipos de até 164,5 milímetros. Parte do material-tipo havia sido coletada ainda nas décadas de 1960 e 1970, mas sua identidade permaneceu encoberta pela interpretação ampla de C. gilbert adotada nas revisões anteriores.

A família dos curimatídeos compreendia 117 espécies válidas à época da descrição, das quais catorze haviam sido nomeadas na década anterior. Entre seus oito gêneros, Cyphocharax era o mais diversificado, com 44 espécies válidas, correspondendo a aproximadamente 40% da diversidade da família. O gênero também apresentava a distribuição mais ampla entre os curimatídeos, com representantes nas principais bacias hidrográficas da América do Sul, em regiões situadas tanto a leste quanto a oeste dos Andes, e alcançando a Costa Rica por meio de C. magdalenae. Apesar dessa diversidade, poucas contribuições haviam tratado especificamente das espécies das drenagens costeiras orientais brasileiras, região na qual diferentes populações foram historicamente incluídas em uma concepção excessivamente abrangente de C. gilbert. Em sua revisão do gênero, Vari considerou C. gilbert uma espécie amplamente distribuída pelas drenagens costeiras do leste brasileiro, desde a Bahia até o Rio de Janeiro e o leste de São Paulo. Trabalhos posteriores demonstraram que essa interpretação reunia várias entidades distintas. Em 2017, C. albula foi revalidada e removida da sinonímia de C. gilbert, ao mesmo tempo que C. lundi foi reconhecida como seu sinônimo mais recente. A descrição de C. tamuya forneceu evidência adicional de que a concepção tradicional de C. gilbert ocultava diversidade taxonômica significativa nas drenagens costeiras do Sudeste brasileiro.

Cyphocharax tamuya foi recuperada como integrante do clado Cyphocharax gilbert, agrupamento originalmente proposto com base na presença de uma mancha escura arredondada no pedúnculo caudal. Além de C. tamuya, esse clado inclui C. gilbert, C. corumbae, C. modestus, C. naegelii, C. platanus, C. santacatarinae, C. spilotus e C. voga. A análise de máxima verossimilhança baseada no gene mitocondrial COI recuperou uma topologia semelhante à obtida em estudos anteriores e sustentou a inclusão da nova espécie nesse clado, corroborando as semelhanças morfológicas observadas entre seus integrantes. A análise molecular reuniu 210 sequências do gene COI, cada uma com 657 pares de bases, das quais sete pertenciam a C. tamuya. Das posições examinadas, 386 eram conservadas e 271 variáveis. As sequências da nova espécie foram depositadas no GenBank sob os números de acesso ON997071–ON997075, OP056028 e ON997076. Três métodos independentes de delimitação molecular foram empregados: o modelo bayesiano de processo de Poisson em árvores, a abordagem generalizada de Yule e coalescência mista e o método de particionamento automático por distâncias genéticas. As análises reconheceram C. tamuya como uma linhagem evolutiva distinta, embora tenham apresentado diferenças quanto à delimitação de algumas outras espécies do clado.

A distância genética média entre as espécies do clado C. gilbert foi de aproximadamente 3%. A menor divergência entre C. tamuya e outra espécie reconhecida foi de 2,5% em relação a C. gilbert, seguida por 3% em relação a C. santacatarinae e 3,2% em relação a uma linhagem provisoriamente identificada como Cyphocharax aff. gilbert. A análise filogenética recuperou esta última linhagem, proveniente da bacia do rio Mucuri, como grupo-irmão de C. tamuya, formando um clado que, por sua vez, apareceu como irmão de C. gilbert das proximidades de sua localidade-tipo e de drenagens costeiras entre o Paraíba do Sul e a Baía de Guanabara. Os autores ressaltaram, contudo, que essa hipótese se baseava em apenas um marcador mitocondrial e necessitava ser testada com uma matriz multilocus. Os resultados também evidenciaram que populações tradicionalmente atribuídas a C. gilbert nas drenagens costeiras do Nordeste brasileiro podem representar espécies ainda não reconhecidas. Exemplares de rios situados entre as bacias do Mucuri e do rio de Contas apresentam uma mancha alongada no pedúnculo caudal que se prolonga sobre os raios medianos da nadadeira caudal, padrão diferente daquele observado no holótipo de C. gilbert, cuja mancha é arredondada e não alcança os raios. A divergência genética de 1,9% entre exemplares de C. gilbert próximos da localidade-tipo e a população do Mucuri reforçou a hipótese de que esta última constitui uma espécie distinta. Diante disso, os autores defenderam uma revisão taxonômica abrangente do clado C. gilbert mediante métodos integrativos, tanto para esclarecer sua diversidade quanto para permitir avaliações de conservação adequadas em regiões intensamente urbanizadas e alteradas por agricultura e barramentos.

Diagnose

Cyphocharax tamuya distingue-se da maioria das espécies do gênero pela combinação entre ausência de padrões conspícuos de pigmentação no corpo e nas nadadeiras e presença de uma mancha escura arredondada na região mediana do pedúnculo caudal. Diferencia-se, assim, de espécies que apresentam padrão reticulado formado pela pigmentação das margens das escamas, como C. gangamon; de espécies com múltiplas faixas ou séries de manchas entre as fileiras de escamas, como C. cramptoni, C. helleri, C. multilineatus e C. pantostictos; de espécies com manchas escuras concentradas na nadadeira dorsal, como C. notatus e C. vexillapinnus; de espécies com uma faixa médio-lateral escura bem definida, como C. boiadeiro, C. corumbae, C. laticlavius, C. saladensis e C. signatus; de espécies com séries de manchas escuras distribuídas ao longo da linha lateral, como C. albula, C. jagunco, C. punctatus e C. vanderi; de C. biocellatus, que apresenta uma mancha escura médio-lateral sob a base da nadadeira dorsal; de C. sanctigabrielis, que possui uma faixa escura longitudinal associada a uma mancha alongada no pedúnculo caudal; e das espécies que não apresentam mancha pronunciada nessa região, como C. abramoides, C. aspilos, C. derhami, C. festivus, C. leucostictus, C. magdalenae, C. microcephalus, C. muyrakytan, C. nigripinnis, C. pinnilepis, C. plumbeus e C. stilbolepis.