Cyphocharax sanctigabrielis é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, descrita em 2014 a partir de exemplares coletados no alto rio Negro, próximo a São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas. Seu nome específico faz referência a esse município, onde a espécie foi descoberta. Pertence ao gênero Cyphocharax, um dos mais diversos da família, cuja maior riqueza de espécies concentra-se na bacia Amazônica. A espécie distingue-se de todos os seus congêneres por apresentar uma mancha escura característica na lateral do pedúnculo caudal, alongada longitudinalmente e frequentemente expandida verticalmente em sua porção posterior, padrão de pigmentação único entre os curimatídeos conhecidos.

Trata-se de um peixe de pequeno porte, atingindo cerca de 67 milímetros de comprimento padrão. Possui corpo moderadamente alongado, linha lateral completa com 31 escamas perfuradas, nove raios ramificados na nadadeira dorsal e 30 ou 31 vértebras. A coloração geral é castanho-clara ou amarelada, com reflexos prateados nos exemplares que conservam depósitos de guanina. Uma discreta faixa escura percorre a lateral do corpo e conecta-se à mancha característica do pedúnculo caudal, enquanto as escamas das regiões dorsal e dorsolateral formam um padrão reticulado devido à concentração de cromatóforos escuros.

A espécie é endêmica do Brasil e conhecida apenas do igarapé Nouba Uba, um pequeno afluente do alto rio Negro inserido em ambiente florestal preservado de águas pretas. O riacho apresenta correnteza lenta, fundo arenoso e águas naturalmente ácidas e pobres em minerais dissolvidos. Pouco se sabe sobre sua biologia, alimentação ou reprodução, sendo conhecidos apenas os exemplares da série-tipo. As corredeiras de São Gabriel da Cachoeira provavelmente atuam como uma importante barreira biogeográfica para a espécie, que pode representar um caso de endemismo restrito às cabeceiras do alto rio Negro. Apesar de sua distribuição extremamente limitada, C. sanctigabrielis foi classificada pelo ICMBio como Pouco Preocupante (LC), uma vez que não foram identificadas ameaças significativas em sua área de ocorrência.

Etimologia

O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado na Antiguidade a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico sanctigabrielis faz referência ao município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas, onde a espécie foi descoberta e de onde provêm os exemplares-tipo.

Taxonomia

Cyphocharax sanctigabrielis é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2014 por Bruno F. Melo e Richard P. Vari com base em exemplares coletados no igarapé Nouba Uba, um afluente do alto rio Negro, próximo ao município de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas. O holótipo, catalogado como MZUSP 115004, mede 60,7 milímetros de comprimento padrão e foi coletado em agosto de 2008. A série de parátipos é composta por seis exemplares provenientes da mesma localidade. A inclusão da espécie em Cyphocharax seguiu o conceito taxonômico tradicional empregado para os curimatídeos. Segundo os autores, o gênero é definido pela combinação das sinapomorfias compartilhadas por um clado que inclui Curimatella, Pseudocurimata, Cyphocharax e Steindachnerina, associada à ausência das características diagnósticas exclusivas dos três últimos gêneros. Embora não existam sinapomorfias conhecidas que unam todas as espécies atualmente atribuídas a Cyphocharax, C. sanctigabrielis não apresenta nenhuma das características derivadas que permitiriam sua inclusão em Curimatella, Pseudocurimata ou Steindachnerina, motivo pelo qual foi atribuída a Cyphocharax sob a definição vigente do gênero. À época de sua descrição, Cyphocharax compreendia 37 espécies válidas, das quais mais da metade ocorria na bacia Amazônica, considerada o principal centro de diversidade do gênero.

As relações filogenéticas da espécie foram investigadas em uma análise molecular multilocus publicada em 2022, baseada em seis genes, 218 terminais e pares de bases. Os resultados posicionaram C. sanctigabrielis dentro do amplo clado Cyphocharax sensu lato, grupo que reúne espécies tradicionalmente atribuídas a Cyphocharax, representantes de Steindachnerina e algumas espécies de Curimatella. Nessa análise, C. sanctigabrielis surgiu como linhagem-irmã de um agrupamento formado pelo clado C. spilurus e pelo clado C. saladensis, não se agrupando diretamente com nenhuma dessas duas linhagens. Os autores interpretaram esse resultado como evidência de que a espécie representa uma linhagem isolada dentro do complexo C. spilurus, distinta tanto do grupo formado por C. gillii, C. oenas, C. spiluropsis e C. spilurus quanto do clado C. saladensis, que reúne C. boiadeiro, C. caboclo, C. saladensis e C. vanderi. A proposta foi acompanhada de evidências morfológicas, especialmente diferenças no padrão de pigmentação corporal e na estrutura do sistema látero-sensorial, levando os autores a reconhecer três linhagens distintas dentro do antigo clado C. spilurus: C. sanctigabrielis, restrita ao alto rio Negro; o clado C. spilurus propriamente dito; e o clado C. saladensis.

Diagnose

Cyphocharax sanctigabrielis distingue-se de todos os demais representantes do gênero pela presença de uma mancha escura conspícua na superfície lateral do pedúnculo caudal, alongada longitudinalmente e frequentemente expandida verticalmente em sua porção posterior. Essa mancha estende-se anteriormente desde a base dos raios medianos da nadadeira caudal até a vertical correspondente ao limite posterior da base da nadadeira adiposa. Entre as espécies que possuem pigmentação escura nessa região, o formato da mancha difere substancialmente dos padrões observados em outros congêneres, que podem apresentar manchas arredondadas, triangulares, elipsoidais ou faixas longitudinais contínuas ao longo do pedúnculo caudal. A espécie também pode ser diferenciada de C. helleri, C. multilineatus e C. pantostictos pela ausência de múltiplas faixas ou séries de manchas escuras entre as fileiras de escamas; de C. biocellatus, C. punctatus e C. vanderi pela ausência de duas ou mais manchas escuras distribuídas ao longo da lateral do corpo; de C. nigripinnis, C. notatus e C. vexillapinnus pela ausência de manchas escuras na nadadeira dorsal ou adiposa; e de C. mestomyllon pela presença de um lábio superior não carnoso. Meristicamente, distingue-se ainda por apresentar 31 escamas perfuradas na linha lateral, nove raios ramificados na nadadeira dorsal e 30 ou 31 vértebras. Essa combinação de caracteres diferencia a espécie de diversos congêneres com linhas laterais reduzidas, números distintos de raios dorsais ou contagens vertebrais mais elevadas.

Descrição

Cyphocharax sanctigabrielis é uma espécie de pequeno porte, atingindo pelo menos 67 milímetros de comprimento padrão nos exemplares examinados. O corpo é moderadamente alongado, tornando-se proporcionalmente mais esguio nos indivíduos maiores. A altura máxima do corpo corresponde a 30,4–33,2% do comprimento padrão, enquanto a cabeça representa 23,9–26,6%. O perfil dorsal da cabeça é convexo entre o lábio superior e as narinas anteriores, tornando-se quase reto até a região occipital. O perfil dorsal do corpo é levemente convexo até a origem da nadadeira dorsal, reto ou discretamente convexo até a origem da adiposa e ligeiramente côncavo em direção ao pedúnculo caudal. Ventralmente, o corpo apresenta contorno suavemente convexo desde o istmo até a origem das nadadeiras pélvicas e mantém-se convexo até a extremidade posterior da base da anal. A cabeça apresenta aspecto afilado em vista lateral, embora o focinho seja arredondado. A boca é terminal ou ligeiramente subterminal, com a maxila superior igual ou discretamente mais longa que a inferior. As narinas são próximas entre si, sendo a anterior circular ou ovalada e a posterior semilunar. A pálpebra adiposa é bem desenvolvida e se prolonga sobre a região anterodorsal do opérculo. Nos exemplares maiores, a abertura da pálpebra torna-se verticalmente ovalada, cobrindo parcialmente as porções anterior e posterior da pupila. A nadadeira dorsal é pontiaguda e possui três raios simples e nove ramificados. As nadadeiras peitorais apresentam quatorze ou quinze raios ramificados e, quando adpressas, não alcançam a origem das pélvicas. As nadadeiras pélvicas possuem nove raios ramificados e terminam uma ou duas escamas antes do ânus. A nadadeira anal é emarginada, com dois ou três raios simples e sete ramificados. A nadadeira adiposa é bem desenvolvida e a caudal profundamente bifurcada. A linha lateral é completa, com 31 escamas perfuradas entre o supracleitro e a articulação hipural, seguidas por duas ou três escamas perfuradas na base da nadadeira caudal. A espécie apresenta 30 ou 31 vértebras.

Nos exemplares preservados em álcool, a coloração geral é castanho-clara, enquanto indivíduos fixados em formol apresentam tonalidade mais amarelada. Os exemplares que conservam depósitos de guanina exibem aspecto prateado ou dourado-prateado. A região dorsal da cabeça e do corpo é mais escura que as regiões laterais e ventrais, estas significativamente mais claras. Uma faixa médio-lateral escura e relativamente discreta percorre o corpo, tornando-se mais evidente posteriormente à vertical da extremidade da nadadeira dorsal. Essa faixa conecta-se anteriormente à característica mancha escura do pedúnculo caudal. A região dorsal do corpo apresenta uma série de pequenos cromatóforos escuros ao longo da linha mediana, desde a espinha supraoccipital até a nadadeira adiposa. As escamas das regiões dorsal e dorsolateral possuem centros mais escuros, formando um padrão reticulado conspícuo. A característica mais marcante da espécie é a mancha escura localizada na lateral do pedúnculo caudal, alongada longitudinalmente e frequentemente expandida verticalmente em sua porção posterior. As nadadeiras dorsal, anal e caudal são levemente escurecidas, com cromatóforos concentrados ao longo dos raios. As nadadeiras peitorais e pélvicas são predominantemente hialinas. A nadadeira adiposa apresenta numerosos pequenos cromatóforos distribuídos sobre sua superfície.

Distribuição e habitat

Cyphocharax sanctigabrielis é endêmica do Brasil e conhecida apenas para o alto rio Negro, na bacia Amazônica, no estado do Amazonas. Todos os exemplares conhecidos provêm do igarapé Nouba Uba, um pequeno afluente do rio Negro localizado nas proximidades de São Gabriel da Cachoeira. Até o momento, não existem registros confirmados da espécie em outras localidades da bacia. A localidade-tipo consiste em um igarapé raso, com profundidade aproximada de 30 a 50 centímetros, correnteza lenta e fundo composto principalmente por areia fina. O curso d'água encontra-se inserido em ambiente florestal bem preservado, com margens cobertas por gramíneas e juncos. As águas do alto rio Negro caracterizam-se por elevadas concentrações de ácidos húmicos e fúlvicos dissolvidos, baixos teores de minerais, pH ácido e baixa condutividade elétrica, condições típicas dos rios de águas pretas amazônicos.

Ecologia