As Quarenta Horas de Angicos foram uma experiência de alfabetização de adultos e educação popular realizada no município de Angicos, no interior do Rio Grande do Norte, entre janeiro e abril de 1963. Concebida sob a direção pedagógica de Paulo Freire e executada por uma equipe ligada ao Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte (SECERN), ao Serviço de Extensão Cultural da então Universidade do Recife e a estudantes universitários e secundaristas, tornou-se a aplicação pública mais conhecida, até então, do conjunto de princípios que passaria a ser denominado Sistema Paulo Freire. O projeto combinava aprendizagem inicial da leitura e da escrita, pesquisa do vocabulário cotidiano, discussão de situações sociais e formação política entendida como participação consciente na vida coletiva.
A denominação “quarenta horas” refere-se ao número planejado de encontros ou unidades de trabalho, e não à duração total do projeto. A aula inaugural ocorreu em 18 de janeiro de 1963; o primeiro debate regular, sobre o conceito antropológico de cultura, em 24 de janeiro; as atividades de alfabetização começaram em 28 de janeiro; e a solenidade final foi realizada em 2 de abril. Os participantes se reuniam à noite em círculos instalados em casas cedidas por moradores e em edifícios públicos, enquanto a equipe mantinha encontros de formação e avaliação da prática.
Os números da experiência variam porque as fontes contabilizam etapas diferentes. A cronologia organizada pelo Instituto Paulo Freire registra 380 pessoas no lançamento, enquanto o levantamento original do “universo vocabular” relaciona 300 matrículas. Apenas 122 educandos compareceram aos testes aplicados nas 35.ª e 36.ª horas, em dias coincidentes com a festa do padroeiro. Entre os examinados, 38 ficaram abaixo da nota 5,5 na prova de alfabetização e 15 abaixo da média 5 no teste de politização. Assim, a fórmula divulgada de que “trezentas pessoas foram alfabetizadas em quarenta horas” sintetiza a repercussão do projeto, mas não corresponde a um único indicador de matrícula, frequência, conclusão ou proficiência.
A cerimônia de encerramento contou com o presidente João Goulart, o governador Aluízio Alves, Paulo Freire, autoridades, observadores e correspondentes estrangeiros. A repercussão contribuiu para a difusão de experiências semelhantes em outros municípios e para a adoção do Sistema Paulo Freire pelo Plano Nacional de Alfabetização (PNA), instituído em janeiro de 1964. Após o golpe de 1964, o PNA foi revogado, seus materiais foram recolhidos e Freire foi preso e partiu para o exílio. Desde então, Angicos tornou-se objeto de disputas políticas, pesquisas acadêmicas, memórias de participantes e iniciativas de preservação patrimonial, sendo frequentemente tratada como marco da história da educação de jovens e adultos no Brasil.
Antecedentes
Analfabetismo, cidadania e educação de adultos
No início da década de 1960, o analfabetismo atingia parcela expressiva da população brasileira, com incidência mais elevada nas áreas rurais e no Nordeste. A privação do acesso à leitura e à escrita tinha consequências econômicas, culturais e políticas. A Constituição de 1946 proibia o alistamento eleitoral dos analfabetos, regra reiterada pelo Código Eleitoral de 1950; portanto, a alfabetização de adultos podia ampliar não apenas a comunicação escrita, mas o universo potencial de eleitores.
Desde o fim dos anos 1940, campanhas governamentais de educação de adolescentes e adultos haviam buscado reduzir o problema, mas eram criticadas por descontinuidade, material pouco relacionado ao cotidiano e ênfase na mera decodificação. No final dos anos 1950 e início dos 1960, educadores, estudantes, igrejas, sindicatos e governos locais passaram a articular alfabetização, cultura popular e participação social. Essas iniciativas não formavam um movimento homogêneo: variavam quanto à vinculação institucional, à orientação religiosa, ao nacionalismo, às concepções de desenvolvimento e às estratégias de mobilização.
A exclusão eleitoral conferia à alfabetização uma dimensão especialmente sensível. Setores reformistas viam a incorporação de novos leitores e eleitores como parte da democratização social; adversários temiam mudanças no equilíbrio político e acusavam programas de educação popular de doutrinação. Estudos históricos observam, contudo, que reduzir essas experiências a recrutamento eleitoral encobre sua pluralidade, os objetivos pedagógicos e as demandas dos próprios participantes por reconhecimento, comunicação e acesso a direitos.
Movimentos de cultura popular
Em 1958, no II Congresso Nacional de Educação de Adultos, Paulo Freire coordenou o relatório pernambucano que defendia uma educação vinculada às condições de vida dos educandos. Em 1960, participou do Movimento de Cultura Popular (MCP), criado no Recife, onde se desenvolveram círculos de cultura e experiências que substituíam a aula expositiva por debates e buscavam partir da linguagem dos participantes. O Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife, dirigido por Freire, ampliou a sistematização dessas práticas e assessorou outras iniciativas, como a Campanha de Educação Popular da Paraíba.
No Rio Grande do Norte, experiências contemporâneas incluíam a campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, organizada pela prefeitura de Natal durante a administração de Djalma Maranhão, e atividades do Movimento de Educação de Base (MEB), ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e apoiado pelo governo federal. A coexistência desses projetos tornou o estado um espaço de experimentação educacional, embora cada iniciativa tivesse estrutura, financiamento e orientação próprios.
Governo estadual, desenvolvimento e Aliança para o Progresso
thumb|esquerda|upright|Aluízio Alves, governador do Rio Grande do Norte durante a experiência, em fotografia de 1967.
Eleito governador em 1960 e empossado em 1961, Aluízio Alves apresentou um programa de modernização administrativa e expansão de serviços públicos. Seu governo buscou recursos federais e internacionais para projetos de energia, habitação, saúde, agricultura e educação. O Rio Grande do Norte tornou-se um dos estados nordestinos mais associados à Aliança para o Progresso, programa lançado pelo governo de John F. Kennedy no contexto posterior à Revolução Cubana, com objetivos declarados de desenvolvimento econômico e social e finalidade geopolítica de conter a expansão do comunismo na América Latina.
O projeto de Angicos foi inserido em um acordo que envolveu o governo estadual, o Ministério da Educação e Cultura, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). A participação norte-americana gerou tensões desde a origem. Freire, desconfiado de interferências, condicionou sua adesão à autonomia para selecionar a equipe e conduzir o conteúdo político-pedagógico. Em depoimentos posteriores, afirmou que aceitou utilizar os recursos porque o controle do trabalho permaneceria com as instituições brasileiras.
O financiamento não eliminou as diferenças entre os atores. Para o governo estadual, a experiência integrava metas de desenvolvimento e combate ao analfabetismo; para a USAID, podia funcionar como demonstração de modernização social; para Freire e sua equipe, deveria manter uma concepção dialógica, nacional e não subordinada à propaganda anticomunista. A historiografia interpreta essa convergência como provisória e marcada pelas contradições da Guerra Fria, não como identidade de objetivos entre os participantes.
Concepção do projeto
Convite e negociação
Em setembro de 1962, o jornalista e secretário estadual de Educação Francisco Calazans Fernandes, coordenador do SECERN, e a educadora Maria José Monteiro procuraram Paulo Freire no Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife. A intenção era aplicar no Rio Grande do Norte o sistema de alfabetização que vinha sendo elaborado em Pernambuco. Uma reunião posterior, realizada na residência de Freire no Recife, contou com Aluízio Alves, Calazans Fernandes e Maria José Monteiro. Freire aceitou participar sob as condições de escolher os educadores e preservar a autonomia pedagógica contra interferências partidárias ou de representantes da Aliança para o Progresso.
A responsabilidade foi distribuída por uma rede institucional. O SECERN administrava o programa estadual; o Serviço de Extensão Cultural fornecia orientação pedagógica; estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e alguns secundaristas atuaram como coordenadores; e moradores cederam espaços, auxiliaram o recrutamento e participaram dos círculos. A expressão “experiência de Paulo Freire” tornou-se corrente por causa da autoria intelectual e da supervisão do educador, mas estudos de memória destacam a coautoria dos monitores, gestores, alfabetizandos e da comunidade.
Escolha de Angicos
Angicos, situada no sertão central potiguar, tinha aproximadamente nove mil habitantes no início dos anos 1960, dos quais pouco mais de 1,5 mil viviam na área urbana segundo dados utilizados pelos organizadores. Estimativas contemporâneas apontavam analfabetismo de cerca de 70% a 75% entre jovens e adultos. A economia local dependia de agricultura, pecuária, comércio e serviços de pequena escala; secas periódicas, pobreza e baixa cobertura escolar limitavam as oportunidades educacionais.
A cidade também era o local de nascimento de Aluízio Alves, fator que lhe dava valor político e simbólico para o governo estadual. Ao mesmo tempo, seu tamanho permitia acompanhar uma experiência concentrada, e a elevada taxa de analfabetismo oferecia um campo para testar a proposta em condições sertanejas. A escolha, portanto, resultou tanto de critérios sociais e logísticos quanto da inserção de Angicos na trajetória do governador.
A literatura por vezes descreveu os participantes como “trezentos cortadores de cana”. Angicos, porém, não era uma zona canavieira típica, e os registros originais mostram diversidade ocupacional. A designação provavelmente decorreu da generalização de imagens do trabalhador rural nordestino em textos posteriores. O artigo enciclopédico deve preferir “adultos de baixa renda de diferentes ocupações” ou discriminar os grupos documentados.
Equipe e formação dos coordenadores
Em dezembro de 1962, Marcos Guerra, então estudante de direito e dirigente estudantil, participou da organização do grupo de monitores. Em janeiro de 1963 foram selecionados 21 coordenadores de círculos de cultura, majoritariamente universitários, além de estudantes secundaristas. Carlos Lyra exerceu funções de supervisão, e Elza Freire colaborou na formação. Madalena Freire, filha de Paulo e Elza, integrou o grupo de coordenadores.
A preparação compreendeu dez encontros de estudo sobre educação de adultos, teoria da comunicação, cultura, técnicas de coordenação de grupos e funcionamento das fichas de alfabetização. A equipe não deveria atuar como corpo docente tradicional que transmitia respostas prontas, mas como coordenadora do diálogo. Na prática, a rapidez da formação e a inexperiência de parte dos estudantes exigiram acompanhamento contínuo; reuniões durante fevereiro e março eram usadas para discutir dificuldades, revisar materiais e replanejar sessões.
A composição jovem e voluntarista da equipe tornou-se um elemento importante dos resultados e também um limite de replicação. Pesquisadores posteriores observaram que Angicos operou como “laboratório vivo”, com atenção intensiva de Freire, supervisores, universitários e autoridades, condição difícil de reproduzir automaticamente em dezenas de milhares de círculos. A experiência demonstrava possibilidades, mas não constituía por si só prova de que resultados idênticos ocorreriam em escala nacional sem formação, recursos e acompanhamento equivalentes.
Preparação
Levantamento do universo vocabular