Mármores é o primeiro livro de poesia de Francisca Júlia, publicado em 1895, no Rio de Janeiro, pelo editor Horacio Belfort Sabino. A edição original, impressa nas oficinas da Tipografia Paulista, em São Paulo, contém um prólogo do filólogo e crítico literário João Ribeiro.

A obra é associada ao parnasianismo brasileiro em razão do rigor formal, da impassibilidade, da descrição plástica e da recorrência de temas clássicos. Estudos posteriores, entretanto, também identificaram no livro oscilações líricas e elementos relacionados ao Romantismo e ao Simbolismo.

Publicação e circulação

Antes da publicação do volume, Francisca Júlia já divulgava poemas em periódicos como O Estado de S. Paulo, Correio Paulistano, Diário Popular, Álbum e A Semana. No prólogo de Mármores, João Ribeiro declarou que várias composições haviam sido publicadas em A Semana e recebido comentários de críticos e escritores como Araripe Júnior, Lúcio de Mendonça, Valentim Magalhães, Escragnolle Dória e Max Fleiuss.

Os dois sonetos intitulados “Musa impassível” também haviam circulado em A Semana. Segundo João Vicente Pereira Neto, o primeiro foi publicado em 9 de setembro de 1893 e o segundo em 16 de fevereiro de 1895.

Pereira Neto, com base em pesquisa de Márcia Camargos, registra que a primeira edição teve cinco exemplares impressos em papel Whatman e cem em papel de arroz. Para o pesquisador, o cuidado com a apresentação material do livro correspondia à valorização parnasiana do acabamento formal.

O lançamento repercutiu nos meios literários de São Paulo e do Rio de Janeiro. Pereira Neto menciona, como indícios da projeção alcançada pela autora naquele período, sua presença nas capas dos periódicos A Cigarra, em agosto de 1895, e A Paulicéia, em agosto de 1896.

Composição

O livro contém 43 peças, distribuídas em quatro partes. A primeira reúne dezoito sonetos de Francisca Júlia. Seguem-se “Lieder de Goethe”, formada por três traduções de poemas de Johann Wolfgang von Goethe, e “H. Heine — Números do Intermezzo”, com quatro traduções de Heinrich Heine. A última parte, intitulada “Balada”, contém outros dezoito poemas da autora.

A coletânea começa e termina com poemas distintos intitulados “Musa impassível”. O primeiro abre a seção inicial, enquanto o segundo encerra “Balada”. Pereira Neto considera que os dois sonetos funcionam como pórticos do livro e conferem simetria à sua organização, além de apresentarem, de maneiras complementares, o ideal poético da impassibilidade.

Estilo

A impassibilidade constitui um dos aspectos mais recorrentes na recepção de Mármores. Os poemas de abertura e encerramento apresentam uma musa que rejeita a manifestação de dor e solicita versos regidos pela precisão formal, pela sonoridade e pela referência à cultura clássica. Pereira Neto observa, contudo, que a leitura da obra apenas como manifestação de frieza e rigor parnasianos não abrange a variedade do volume.

Na análise do pesquisador, os poemas combinam rigidez escultórica, descrição visual, musicalidade e presença do eu lírico. Composições como “A um artista”, “Paisagem”, “A florista” e “Quadro incompleto” aproximam a linguagem poética da pintura, enquanto os dois sonetos “Musa impassível” e poemas como “Vênus” recorrem a imagens associadas à escultura e ao mármore.

Pereira Neto também identifica elementos românticos e simbolistas em poemas do livro. Para o autor, composições como “Pérfida” e “No boudoir” apresentam temas amorosos de filiação romântica, ao passo que poemas como “De joelhos”, “Inverno” e “Sonho africano” não se limitam ao descritivismo associado ao parnasianismo.

As traduções de Goethe e Heine demonstram o contato da autora com a poesia alemã, mediado por versões em francês. Pereira Neto caracteriza os poemas de Heine e algumas das traduções de Goethe como portadores de elementos românticos, em contraste com a contenção formal predominante em outras partes da coletânea.

Representações do feminino

Jaqueline Ferreira Borges analisa “Musa impassível” como uma representação feminina definida pela neutralidade diante da dor, pela recusa da lágrima e pela contenção dos afetos. Segundo a pesquisadora, a personagem também concretiza o ideal parnasiano de uma escrita preocupada com a métrica, o ritmo, a rima e o acabamento formal.

Para Borges, as figuras femininas presentes na poesia de Francisca Júlia não formam um conjunto homogêneo. A pesquisadora identifica representações que transitam entre comportamentos considerados transgressores e outros vinculados a modelos tradicionais do século XIX.

Em sua leitura de poemas de Mármores, Borges relaciona “Rainha das águas” e “A Ondina” a figuras femininas associadas ao mar, ao movimento, à força e à sensualidade. Já poemas como “Prece” e “Mãe” apresentam representações ligadas à religiosidade, à maternidade e a papéis femininos tradicionais. A pesquisadora interpreta essa diversidade como uma representação plural do feminino, em vez de uma oposição absoluta entre submissão e ruptura.

Recepção crítica

No prólogo da primeira edição, João Ribeiro descreveu a poesia de Francisca Júlia como “enérgica” e “vibrante” e destacou sua sonoridade, o interesse pela beleza clássica e a atenção ao ritmo e à harmonia. Utilizou “Os argonautas” como exemplo de acabamento formal, comentou os efeitos sonoros de “Musa impassível” e examinou as imagens de “Sonho africano” e “De joelhos”.

Ribeiro também comparou a elaboração formal da autora à poesia francesa de José María de Heredia e Leconte de Lisle. Ao tratar das traduções, elogiou a capacidade de Francisca Júlia de conservar ritmo e musicalidade, embora tenha feito ressalvas ao emprego da paráfrase.

Em crônica publicada em A Cigarra, em 11 de julho de 1895, Olavo Bilac destacou o rigor formal e o emprego da língua portuguesa em Mármores. Segundo a reconstituição de Pereira Neto, Bilac considerou que a autora não transferia aos versos apenas a dureza da construção clássica e descreveu sua poesia como uma arte “calma” e “consoladora”.

Três dias depois, em crônica publicada em A Semana, Machado de Assis comentou a impassibilidade dos poemas e questionou se ela correspondia à natureza da autora ou a uma escolha literária. O escritor observou, contudo, a presença de elementos líricos e reflexivos que ultrapassavam a imagem de uma poeta inteiramente insensível.

Estudos acadêmicos posteriores passaram a problematizar a identificação exclusiva da obra com a impassibilidade parnasiana. Pereira Neto examina as tensões entre rigor formal, lirismo, Romantismo e Simbolismo, enquanto Borges concentra-se nas diferentes formas de representação do feminino presentes nos poemas.

Edições

Primeira edição

A primeira edição foi publicada em 1895 por Horacio Belfort Sabino, no Rio de Janeiro, e impressa pela Tipografia Paulista, em São Paulo. O exemplar digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin possui 31 páginas preliminares e 104 páginas numeradas.

Coleção Escritoras do Brasil

Em 2020, o Senado Federal publicou Mármores como o quarto volume da Coleção Escritoras do Brasil, coordenada pela Biblioteca do Senado Federal.

O texto foi preparado a partir do exemplar de 1895 disponibilizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. A reedição atualizou a ortografia e acrescentou notas explicativas para palavras em desuso e trechos em outros idiomas, preservando o prólogo de João Ribeiro. Também corrigiu a indicação “A. Heine”, presente no original, para “H. Heine”.

A capa da edição utiliza uma fotografia da escultura Musa impassível, de Victor Brecheret, realizada em homenagem a Francisca Júlia.

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