Tulaia ibne Cuailide ibne Nauful (; m. 642 ou depois) foi um chefe tribal, adivinha e pretendente à profecia da tribo dos açaditas que liderou um dos principais movimentos de oposição à autoridade de Medina durante as Guerras da Apostasia. Reconhecido entre os árabes por sua coragem, habilidade militar, eloquência e talento poético, reuniu seguidores entre diversos clãs dos açaditas, gatafanitas e outras tribos do Négede, tornando-se um dos mais importantes adversários do califa Abu Becre nos primeiros anos do Estado islâmico. Derrotado na Batalha de Buzaca, refugiou-se na Síria, mas posteriormente reconciliou-se com os muçulmanos e participou das conquistas do Império Sassânida sob o califa Omar, distinguindo-se como combatente nas campanhas do Iraque.

As fontes islâmicas tradicionais apresentam Tulaia como um falso profeta e imitador de Maomé, atribuindo sua revolta à ambição política, à rivalidade tribal e à recusa em reconhecer a supremacia dos coraixitas e em pagar o zacate. A historiografia moderna, contudo, interpreta sua atuação de maneira mais cautelosa. Embora reconheça sua reivindicação profética, destaca que Tulaia já exercia anteriormente funções de adivinho e chefe tribal e entende que seu movimento representou sobretudo uma tentativa de preservar a autonomia e a honra das tribos beduínas diante da crescente centralização política promovida por Medina.

Nome

As fontes árabes identificam-no como Tulaia ibne Cuailide ibne Nauful. Segundo a tradição preservada pelos autores muçulmanos, seu nome original era Tala, enquanto Tulaia constituiria um diminutivo empregado de forma depreciativa após sua reivindicação da profecia, significando aproximadamente "pequeno Talha". Essa explicação, entretanto, não é mencionada pela historiografia moderna e permanece restrita à tradição islâmica. Tulaia pertencia ao clã facaítas, um ramo dos açaditas estabelecido no Négede. Ao contrário de outros segmentos da tribo, seu clã aparentemente não mantinha vínculos relevantes com as instituições religiosas e comerciais da Meca pré-islâmica, nem desempenhou papel destacado nas primeiras fases do conflito entre os coraixitas e Maomé.

Vida

Origens

Pouco se sabe sobre a vida de Tulaia antes do surgimento do islão. Pertencia ao clã facaíta, um dos ramos beduínos dos açaditas, estabelecido no Négede. As fontes islâmicas o descrevem como um renomado guerreiro, chefe tribal, poeta, orador e profundo conhecedor das genealogias árabes. A The Encyclopaedia of Islam observa que essas características provavelmente decorrem de sua atuação como adivinha (kahin), função religiosa tradicional na Arábia pré-islâmica, à qual se associavam a composição de prosa rimada, a eloquência e a preservação da memória genealógica das tribos. Também há referências a viagens realizadas por Tulaia à corte do Império Sassânida antes do advento do islão, o que reforça seu prestígio como líder tribal. Embora alguns clãs dos açaditas mantivessem relações com os centros religiosos e comerciais da Meca pré-islâmica, o ramo de Tulaia aparentemente não possuía vínculos significativos com essas instituições. Tampouco existem evidências inequívocas de que tenha desempenhado papel importante na oposição a Maomé durante os primeiros anos do período medinense. A tradição islâmica registra que, no quarto ano da Hégira (625 ou 626), o profeta enviou uma expedição comandada por Abu Salama Almaquezumi contra seu clã, nas proximidades da fonte de Catã, após Tulaia e Uiaina ibne Hisne reunirem guerreiros dos açaditas e dos fazaraítas para combater Medina. Abu Salama conseguiu dispersar a concentração tribal sem enfrentar batalha campal e regressou com considerável quantidade de espólio.

A historicidade desses acontecimentos, contudo, é objeto de discussão. Landau-Tasseron observa que parte das fontes atribui a iniciativa da expedição a Maomé, enquanto outras afirmam que ela teria sido provocada pelos preparativos militares de Tulaia. A autora considera mais provável que a campanha tenha partido do próprio profeta e ressalta que não há provas conclusivas de uma atitude sistematicamente hostil de Tulaia em relação ao islão nesse período. De modo semelhante, embora algumas tradições afirmem que ele comandou contingentes dos açaditas ao lado dos coraixitas durante a Batalha da Trincheira, sua eventual participação pode ter sido motivada principalmente pela expectativa de obter despojos de guerra, e não por oposição religiosa ou política a Maomé. Segundo a tradição preservada pelos cronistas muçulmanos, Tulaia compareceu a Medina no nono ano da Hégira (630 ou 631), integrando uma delegação dos açaditas que declarou adesão ao islão. Pouco tempo depois, porém, teria abandonado a nova religião e reivindicado a profecia ainda durante a vida de Maomé, tornando-se o último pretendente à profecia surgido antes da morte do fundador do islão. As fontes tradicionais atribuem essa iniciativa à ambição política, ao fortalecimento de sua influência entre os beduínos, ao ressentimento por Maomé pertencer aos coraixitas, à rivalidade tribal e ao desejo de livrar seus seguidores do pagamento do zacate. A The Encyclopaedia of Islam, entretanto, considera duvidosa a narrativa de sua conversão e posterior apostasia. Segundo Landau-Tasseron, esses relatos reproduzem em grande medida tradições semelhantes transmitidas sobre Muçailima e podem ter sido elaborados posteriormente para justificar as campanhas conduzidas por Abu Becre durante as Guerras da Apostasia. Em sua interpretação, Tulaia provavelmente iniciou seu movimento de oposição ainda durante a vida de Maomé não tanto por pretensões estritamente religiosas, mas por entender que defendia a independência e a honra de seus seguidores beduínos diante da crescente autoridade exercida por Medina.

Reivindicação da profecia e Guerras da Apostasia

Como outros líderes tribais que surgiram nos últimos meses da vida de Maomé, Tulaia reivindicou a profecia enquanto o profeta ainda estava vivo. A tradição islâmica relata que Dirar ibne Alazuar foi enviado para enfrentá-lo, mas a morte de Maomé interrompeu a campanha antes que o conflito fosse decidido. Tulaia estabeleceu sua base entre os açaditas, no Négede, passando a exercer simultaneamente a autoridade religiosa de adivinho e a liderança política de sua tribo. Sua pregação rapidamente atraiu numerosos seguidores entre os açaditas, além de contingentes das tribos taiítas, gatafanitas e outros grupos beduínos da Arábia Central. Embora as fontes muçulmanas o apresentem como um falso profeta e imitador de Maomé, a The Encyclopaedia of Islam observa que Tulaia já desempenhava anteriormente as funções de adivinho e chefe tribal, sendo sua autoridade religiosa anterior ao islão. A mesma obra ressalta que seus seguidores provavelmente não aderiram ao movimento por acreditarem em sua missão profética, mas principalmente porque pretendiam preservar a autonomia tribal e evitar o pagamento do zacate ao Estado estabelecido em Medina. Sob essa perspectiva, o movimento liderado por Tulaia representou tanto uma reação política quanto religiosa ao fortalecimento do poder central islâmico.

Após derrotar os rebeldes dos fazaraítas na , Abu Becre determinou que Calide ibne Alualide marchasse contra Tulaia. Ao mesmo tempo, encarregou Adi ibne Hatime de convencer sua própria tribo a abandonar a revolta. A missão foi bem-sucedida: os taiítas e os romperam com Tulaia, renovaram sua fidelidade ao califa e enviaram cerca de mil cavaleiros para reforçar o exército de Calide. Essa deserção reduziu consideravelmente a força da coalizão tribal organizada por Tulaia antes do confronto decisivo. Enquanto avançava em direção a , Calide enviou e em missão de reconhecimento. Durante a expedição, ambos encontraram , irmão de Tulaia, e o mataram. Informado do ocorrido, Tulaia enviou outro irmão, , para interceptar os exploradores. No combate que se seguiu, Ucaxa e Sabite foram mortos, episódio que antecedeu a batalha principal. O , no Négede. Segundo a tradição, Calide dispunha de aproximadamente seis mil combatentes, enquanto Tulaia contava, entre outros aliados, com cerca de setecentos guerreiros comandados por Uiaina ibne Hisne. Diversas tribos árabes, como os amiritas, permaneceram inicialmente neutras, aguardando o desfecho da batalha para decidir qual lado apoiariam.

Conversão ao islão e últimos anos

Durante os combates, Calide dirigiu pessoalmente o centro de seu exército, enquanto Tulaia permaneceu afastado do campo de batalha, envolto em seu manto, afirmando aguardar novas revelações divinas. À medida que as perdas aumentavam entre seus seguidores, Uiaina aproximou-se repetidas vezes para perguntar se alguma revelação havia sido recebida. Insatisfeito com as respostas, concluiu que Tulaia era um impostor e anunciou publicamente sua descrença. A retirada dos fazaraítas provocou o colapso das linhas rebeldes, levando à derrota da coalizão. Após a derrota em Buzaca, Tulaia refugiou-se na Síria, onde recebeu proteção dos gassanitas, provavelmente junto à , a família reinante que então governava a confederação tribal gassânida. Algumas tradições afirmam que permaneceu entre os calbitas até a morte de Abu Becre, enquanto outras apenas registram seu exílio temporário. A derrota de Buzaca marcou o colapso da resistência organizada pelos açaditas e seus aliados. Pouco depois, os amiritas, soleimitas, hauazinitas, açaditas e gatafanitas renovaram sua fidelidade a Medina, comprometendo-se a professar o islão, realizar as orações e pagar o zacate. Segundo a tradição, Calide ibne Alualide exigiu ainda que mulheres e crianças também prestassem juramento de fidelidade e puniu aqueles considerados responsáveis por atos de violência durante a rebelião. A tradição também afirma que Tulaia retornou espontaneamente ao islão durante o califado de Omar . Dirigiu-se a Medina, onde renovou sua fidelidade ao califa. Os relatos preservam um diálogo entre ambos, no qual Omar o censurou por sua antiga reivindicação da profecia e pela morte de muçulmanos durante as Guerras da Apostasia. Apesar disso, aceitou seu arrependimento e determinou que fosse incorporado aos exércitos muçulmanos, proibindo, entretanto, que lhe fosse confiado qualquer comando independente.

A The Encyclopaedia of Islam considera historicamente plausível essa reconciliação. Segundo Landau-Tasseron, o arrependimento público de Tulaia foi plenamente aceito pelas autoridades islâmicas, seus atos anteriores foram perdoados e ele passou a integrar as campanhas militares contra o Império Sassânida, distinguindo-se pela bravura em combate. Nas campanhas do Iraque, Tulaia colocou sua experiência militar a serviço dos muçulmanos. Omar enviou-o inicialmente para servir sob o comando de Sade ibne Abi Uacas, apresentando-o como um dos mais notáveis guerreiros do exército, embora reiterasse a proibição de lhe confiar funções de governo. Segundo a tradição, participou da Batalha de Cadésia, comandou unidades de infantaria na Batalha de Jalula e destacou-se posteriormente na Batalha de Niavende, contribuindo para a derrota definitiva dos sassânidas. Tanto Tulaia quanto os açaditas empenharam-se nas campanhas de conquista, procurando apagar o estigma deixado por sua participação nas Guerras da Apostasia. As circunstâncias de sua morte permanecem incertas. A tradição mais difundida, seguida pela The Encyclopaedia of Islam, afirma que Tulaia morreu como mártir em Niavende, em 642, combatendo ao lado de Anumane ibne Mucarrine e Anre ibne Madicaribe. Algumas fontes acrescentam que os três foram sepultados numa aldeia próxima de Ispaã. Outras tradições, entretanto, sustentam que Tulaia sobreviveu à batalha, participou das campanhas no Azerbaijão e morreu posteriormente entre os açaditas.

Bibliografia

Categoria:Açaditas Categoria:Convertidos ao islamismo Categoria:Árabes do século VII Categoria:Pessoas proclamadas messias Categoria:Generais do Califado Ortodoxo Categoria:Pessoas envolvidas nas Guerras da Apostasia