O peronismo federal, também conhecido como peronismo dissidente, é a facção ou corrente do peronismo que pode ser classificada como moderada, centrista ou de centro-direita, sendo atualmente identificada principalmente por sua oposição ao kirchnerismo, a corrente mais à esquerda do peronismo.
O termo “peronismo federal”, em oposição ao “peronismo metropolitano” (predominantemente da Grande Buenos Aires), passou a ser utilizado informalmente desde a década de 1980 para identificar os peronistas mais tradicionais e conservadores das províncias argentinas, cujos governadores aumentaram em número e influência durante o governo do ex-presidente Carlos Menem. Os peronistas federais não constituem uma facção interna do Partido Justicialista (PJ) em nível nacional; em vez disso, controlam os diretórios provinciais do PJ ou formam seus próprios partidos e alianças, inclusive participando de coalizões com a direita antiperonista.
A expressão “peronismo dissidente” é empregada de forma mais precisa para designar a oposição peronista aos governos e à liderança partidária de Néstor e Cristina Kirchner, representantes da ala de centro-esquerda do movimento. O termo ganhou maior difusão a partir do conflito entre o governo argentino e o setor agropecuário em 2008, quando diversos líderes partidários, governadores e parlamentares (sobretudo das províncias agroexportadoras) retiraram seu apoio ao governo nacional.
Visão geral Após a crise que levou à renúncia do presidente Fernando de la Rúa, em 21 de dezembro de 2001, o oposicionista Partido Justicialista (PJ) conquistou a maioria em ambas as casas do Congresso Nacional da Argentina nas eleições legislativas de outubro de 2001. O primeiro presidente interino da Argentina eleito pelo Congresso após a renúncia de De la Rúa, o senador pela província de San Luis, Adolfo Rodríguez Saá, contou com o apoio de um grupo de governadores e parlamentares das províncias do interior do país, de onde surgiu a denominação informal peronismo federal. No entanto, ele renunciou apenas uma semana depois, por não conseguir obter apoio de outras facções do peronismo, do movimento sindical organizado e de outros setores da sociedade argentina. Em 2 de janeiro de 2002, o ex-governador da província de Buenos Aires e segundo colocado nas eleições presidenciais de 1999, Eduardo Duhalde, foi eleito pelo Congresso como presidente interno da Argentina.
Eduardo Duhalde, que contava com o apoio do peronismo da província de Buenos Aires e de parte da liderança sindical, convocou eleições para abril de 2003 e convenceu o dividido PJ a lançar seus candidatos diretamente na eleição geral, sem a realização de eleições primárias partidárias. Após tentar apoiar outros candidatos (Carlos Reutemann, que recusou disputar a presidência, e José Manuel de la Sota, que obteve um desempenho fraco nas pesquisas), Duhalde passou a apoiar o então pouco conhecido governador da província de Santa Cruz, Néstor Kirchner. O peronismo federal, por sua vez, foi representado na eleição por duas correntes. A primeira era liderada pelo ex-presidente Carlos Menem e pelo governador da província de Salta, Juan Carlos Romero, identificados com as políticas implementadas durante a presidência de Menem entre 1989 e 1999. A segunda era liderada por Adolfo Rodríguez Saá e seu irmão, Alberto Rodríguez Saá, em uma aliança com o deputado do partido União Cívica Radical (UCR), Melchor Posse. Ao final do primeiro turno, Carlos Menem e Néstor Kirchner classificaram-se para o segundo turno. Contudo, em 14 de maio de 2003, Menem retirou sua candidatura ao prever uma derrota esmagadora já que as pesquisas indicavam uma vantagem de aproximadamente 70% a 30% para Kirchner. Com isso, Néstor Kirchner foi proclamado presidente eleito da Argentina.
Ideologia O peronismo federal abrange diversos setores do peronismo de centro ou de direita. Tem sido descrito como representante de um peronismo moderado, centrista ou de direita. O peronismo federal carece de uma ideologia coerente e não se distingue claramente da coalizão de centro-direita Juntos pela a Mudança, especialmente no campo econômico. Em termos gerais, é mais socialmente conservador do que o kirchnerismo, embora continue defendendo os princípios peronistas do nacionalismo econômico e da justiça social. Segundo os cientistas políticos Pierre Ostiguy e Aaron Schneider, todos os líderes do peronismo federal situam-se à direita do kirchnerismo. Alguns cientistas políticos classificam o peronismo federal como centro-direita, enquanto o projeto Manifesto Research on Political Representation (MARPOR) o classificou como centrista, praticamente alinhado ao chamado “centro absoluto”.
De acordo com Pierre Ostiguy, o peronismo federal combina um conservadorismo cultural popular com políticas desenvolvimentistas e favoráveis aos negócios, enfatiza o endurecimento da legislação contra o crime e se opõe à hegemonia do kirchnerismo. Já Martín Retamozo e Mauricio Schuttenberg descrevem o peronismo federal como um movimento “amplamente caracterizado pelo compromisso com boas relações com a Igreja Católica e com setores do empresariado local, além de empregar uma retórica fundamentada na justiça social”.
O movimento representa, acima de tudo, os diversos interesses de dirigentes e militantes peronistas das províncias que permanecem em oposição ao kirchnerismo. No plano eleitoral, o objetivo do peronismo federal era impedir que eleitores descontentes com o kirchnerismo migrassem para partidos antiperonistas, apresentando-se como uma candidatura de “terceira via”, capaz de preservar as diversas bases de apoio do movimento peronista. Em comparação com o kirchnerismo, o peronismo federal dá maior ênfase a valores republicanos, é menos populista e concentra-se mais em pautas regionalistas e descentralizadoras. O movimento procura representar o “peronismo anterior ao kirchnerismo”, promovendo características que o peronismo possuía antes de ser “refundado” pelo kirchnerismo, processo que recolocou o movimento na orientação de esquerda que havia assumido sob Juan Perón.
Os peronistas federais procuraram apresentar-se como uma terceira via entre o kirchnerismo e o macrismo antiperonista. Miguel Ángel Pichetto afirmou que o movimento buscava diferenciar-se da Unidade Cidadã, condenando essa coalizão kirchnerista por estabelecer “alianças com o trotskismo” e por acreditar que “quebrando tudo haveria possibilidade de voltar ao poder”, acrescentando que os peronistas federais “não são esse tipo de esquerda”. O peronismo federal foi apresentado como um peronismo democrático, republicano e federal, assumindo uma postura antipopulista e retratando o kirchnerismo como uma força autoritária, centralizadora e populista. Um dos principais pontos de divergência entre os próprios peronistas federais dizia respeito à possibilidade de compartilhar uma identidade comum com o peronismo kirchnerista. Alguns líderes, como Sergio Massa e seu partido Frente Renovadora, defendiam a construção de uma ampla frente peronista e acabaram se reconciliando com os kirchneristas. Outros, como Miguel Ángel Pichetto, consideravam o antikirchnerismo mais importante e optaram por formar alianças com forças antiperonistas, justificando essa estratégia como “uma demonstração de racionalidade”.
Referências
Categoria:Peronismo Categoria:Partido Justicialista Categoria:Ideologias de centro-direita Categoria:Conservadorismo liberal