Dumate Aljandal (), também conhecida modernamente como Aljaufe, é uma antiga cidade-oásis situada na província de Jaufe, no norte da Arábia Saudita. Localiza-se na extremidade meridional do Uádi Sirã, numa depressão cercada por colinas calcárias que historicamente favoreceu o armazenamento de água, o desenvolvimento da agricultura e o estabelecimento de populações sedentárias. Sua posição entre o Hejaz, o sul do Levante e a Mesopotâmia transformou-a num dos principais cruzamentos das rotas comerciais transarábicas durante a Antiguidade e o período pré-islâmico.
Conhecida nas fontes assírias como Adumatu (Adummatu), a localidade foi um dos centros da confederação tribal dos quedaritas durante a Idade do Ferro. Foi conquistada no pelo rei assírio Senaqueribe, que a descreveu como a “fortaleza dos árabes”. Posteriormente integrou as redes políticas e comerciais dos nabateus e, após a anexação do Reino Nabateu em 106, passou a fazer parte da província romana da Arábia Petreia. Vestígios arqueológicos testemunham uma ocupação prolongada do oásis desde o Neolítico, incluindo necrópoles, fortificações, residências, estruturas hidráulicas e uma muralha monumental que protegia seus jardins e áreas habitadas.
No início do , Dumate Aljandal era governada por líderes cristãos e habitada por grupos sedentários e tribos como os calbitas, taiítas e . A cidade foi alvo de três expedições muçulmanas durante a vida de Maomé, a última das quais, comandada por Calide ibne Alualide, resultou na submissão de seu governante . Durante a Primeira Fitna, foi associada às negociações entre os representantes de Ali ibne Abi Talibe e Moáuia I após a Batalha de Sifim. Com o deslocamento dos centros políticos e das rotas comerciais para a Síria e o Iraque, perdeu progressivamente sua antiga importância, embora tenha voltado a adquirir valor estratégico nos séculos XIX e XX, antes de ser incorporada aos domínios de Abdalazize ibne Saúde em 1921.
Etimologia
O topônimo Dumate Aljandal é tradicionalmente explicado pela combinação de Duma e al-Jandal. Segundo autores árabes antigos, como Ibne Alcalbi e , a primeira parte derivaria de Duma, também referido como Dume ou Dumane, um dos filhos de Ismael. De acordo com essa tradição, o crescimento da descendência de Ismael teria reduzido as pastagens disponíveis na Tiama, levando Duma a migrar para a região do uádi Sirã, onde construiu uma fortaleza que passou a ser conhecida por seu nome. A associação também aparece na tradição bíblica, na qual Duma figura entre os filhos de Ismael e dá nome a um grupo ismaelita. A interpretação tradicional relaciona o elemento al-Jandal ao substantivo árabe jandal, que significa "pedra", em referência à fortaleza e às muralhas construídas com esse material. Alguns pesquisadores propuseram, contudo, que a cidade tenha recebido o nome de uma tribo denominada Jandal ou Banu Jandal. A arqueologia e as fontes assírias indicam que o topônimo é muito anterior à tradição genealógica árabe: a localidade aparece nos anais neoassírios do como Adumatu (Adummatu), forma da qual provavelmente deriva o nome árabe posterior. Desde pelo menos o , o oásis e sua região passaram a ser amplamente conhecidos como Aljaufe, do árabe al-jawf, termo aplicado a uma grande depressão ou bacia baixa na qual a água se acumula. Embora os geógrafos medievais ainda utilizassem Dumate Aljandal, a designação Aljaufe tornou-se progressivamente predominante para a região administrativa e para o conjunto de assentamentos do oásis. As fontes também registram outras localidades chamadas Duma, uma próxima de Damasco e outra nas proximidades de Hira, coincidência que ocasionou confusões na atribuição de determinados acontecimentos históricos.
Geografia
Dumate Aljandal situa-se na extremidade meridional do Uádi Sirã, corredor natural que se estende de sudeste a noroeste e estabelece uma ligação entre a Arábia central, o sul do Levante e a Mesopotâmia. A cidade encontra-se aproximadamente a meio caminho entre a costa levantina e o baixo Iraque e ocupa uma posição estratégica na rota mais direta entre Medina e Damasco. Nas fontes medievais, a viagem a pé desde Medina era estimada em cerca de quinze dias, enquanto a distância até Damasco podia ser percorrida em pouco mais de sete dias. O oásis ocupa uma ampla depressão em forma de V, com cerca de oito quilômetros de comprimento por seis de largura, situada aproximadamente 600 metros acima do nível do mar e cercada por colinas calcárias baixas. A depressão corresponde à parte inferior do chamado graben de Aluádi, cuja configuração geológica favoreceu historicamente a recarga de aquíferos. Pequenos uádis provenientes do noroeste desembocam na , depressão endorreica e improdutiva, enquanto as fontes de água, os palmeirais e os jardins concentraram a ocupação humana junto às escarpas ocidentais. A disponibilidade de água permitiu o desenvolvimento de agricultura irrigada e de assentamentos permanentes em pleno ambiente desértico. Viajantes dos séculos XIX e XX destacaram a qualidade da água e a existência de poços, canais e outras estruturas hidráulicas. Levantamentos arqueológicos recentes identificaram ainda um complexo sistema de canates, responsável no passado por conduzir água subterrânea às áreas cultivadas e habitadas. Atualmente, o abastecimento depende em grande medida da exploração de aquíferos fósseis profundos e não renováveis, enquanto a urbanização moderna expandiu-se para as elevações desérticas circundantes.
História
Antiguidade
As evidências arqueológicas indicam que a região de Dumate Aljandal é ocupada desde o Neolítico. Levantamentos realizados nas últimas décadas identificaram vestígios de assentamentos humanos datados do , além de numerosas estruturas funerárias, plataformas de pedra, armadilhas de caça conhecidas como desert kites, estruturas de pedra utilizadas como armadilhas coletivas de caça, e sítios de arte rupestre, demonstrando que o oásis constituiu um importante núcleo de ocupação humana muito antes do surgimento dos primeiros Estados da região. Datações por radiocarbono revelam uma presença humana recorrente desde a segunda metade do VI até o , favorecida pela disponibilidade de água e pela posição estratégica do oásis em meio ao deserto. A primeira referência histórica conhecida à localidade aparece nos anais do Império Neoassírio, que a mencionam como Adumatu durante o . Nessa época, a cidade constituía um dos principais centros da confederação tribal dos quedaritas e exercia papel destacado nas rotas caravaneiras entre o sul da Arábia e a Mesopotâmia. Os anais de Senaqueribe relatam que a rainha árabe , aliada de , refugiou-se em Adumatu após a derrota de suas forças. O soberano assírio conquistou a chamada "fortaleza dos árabes", deportou a rainha para Nínive e levou consigo as imagens de diversas divindades veneradas na cidade, posteriormente restituídas por Assaradão. Inscrições descobertas na região confirmam a existência de parte desse antigo culto religioso.
As escavações arqueológicas confirmam a importância de Adumatu durante a Idade do Ferro. Materiais de tradição assíria e pós-assíria foram encontrados tanto no setor histórico quanto na área de , enquanto uma extensa muralha de pedra e tijolos de adobe, atualmente preservada por cerca de 2,6 quilômetros, protegia os jardins e os assentamentos contra incursões de tribos nômades. Além de sua função defensiva, essa fortificação representava uma demonstração do poder político e econômico exercido pelo oásis sobre as rotas comerciais do norte da Arábia. Entre o e o , Dumate Aljandal integrou a esfera de influência dos nabateus, aparecendo nas fontes clássicas como Domata e Dumeta. Escavações revelaram residências de alto padrão, edifícios de armazenamento, necrópoles monumentais, inscrições nabateias e abundante cerâmica importada do Levante, testemunhando a intensa circulação de mercadorias e pessoas. Embora a cultura material apresente forte influência nabateia, os vestígios arqueológicos indicam a convivência entre populações sedentárias locais e grupos nômades, refletida também pela coexistência de inscrições em diferentes sistemas de escrita. Com a anexação do Reino Nabateu pelo Império Romano em 106, Dumate Aljandal passou a integrar a província da Arábia Petreia. Inscrições registram a presença de destacamentos militares romanos encarregados de patrulhar a rota entre o oásis e o uádi Sirã, enquanto materiais arqueológicos demonstram a continuidade da ocupação durante os períodos romano e bizantino. A cidade manteve estreitas ligações comerciais com o Levante, como evidenciam ânforas e outras cerâmicas importadas, ao mesmo tempo em que preservou sua função de entreposto entre a Síria, a Mesopotâmia e o interior da Península Arábica.
Período pré-islâmico
Nos séculos que antecederam o surgimento do islão, Dumate Aljandal permaneceu como um dos principais centros urbanos e comerciais do norte da Península Arábica. Situada no cruzamento das rotas que ligavam o Hejaz, a Síria e a Mesopotâmia, a cidade sediava um dos mais importantes mercados da Arábia, realizado anualmente durante o mês de Rabi Alaual, e exercia influência política sobre diversas tribos vizinhas. Sua prosperidade decorria tanto da posição estratégica nas caravanas transarábicas quanto do desenvolvimento da agricultura irrigada no interior do oásis. A população da região era formada por grupos sedentários e tribais. As fontes árabes mencionam sobretudo os calbitas, que ocupavam grande parte das estepes entre Dumate Aljandal e os e Salma, território que lhes fora atribuído após um acordo interno da tribo. No interior do oásis vivia também uma comunidade de cristãos oriundos de Hira, conhecidos como , que se dedicavam ao comércio e à agricultura. A coexistência entre habitantes sedentários e tribos nômades explica a existência de diferentes chefias políticas na região, distinção importante para compreender os acontecimentos do início da expansão islâmica.
A diversidade religiosa da cidade refletia sua posição como centro de intercâmbio cultural. Antes da difusão do cristianismo, Dumate Aljandal abrigava um importante santuário dedicado ao deus Uade, uma das principais divindades da Arábia setentrional. Fontes clássicas e descobertas arqueológicas indicam ainda a persistência de outros cultos locais durante os períodos romano e bizantino, coexistindo posteriormente com comunidades cristãs. Evidências epigráficas confirmam a presença do cristianismo na região pelo menos desde o , enquanto a descoberta de um sino litúrgico de prata sugere a existência de um local de culto cristão no interior do oásis, possivelmente nas proximidades da atual Mesquita de Omar. No início do , Dumate Aljandal era governada por , soberano cristão aliado do imperador bizantino Heráclio . A cidade constituía um dos principais bastiões dos aliados árabes cristãos da fronteira meridional do Império Bizantino e controlava um importante eixo de circulação entre a Síria e o interior da Arábia. Sua posição estratégica e sua relevância econômica explicam o interesse despertado entre os primeiros muçulmanos, que organizaram três expedições contra a cidade durante a vida de Maomé.
Campanhas de Maomé