A Campanha de Caibar ou Gázua de Caibar (), também conhecida como Batalha de Caibar, foi uma campanha militar conduzida por Maomé em 7 A.H. (628), contra os habitantes judeus do oásis fortificado de Caibar, no norte do Hejaz. Travada poucos meses após o Tratado de Hudaibia, constituiu uma das principais expedições militares do período medinense e encerrou a autonomia do mais importante centro judaico da Arábia ocidental.

As fontes islâmicas relacionam a campanha às atividades dos nadiritas, expulsos anteriormente de Medina e estabelecidos em Caibar, que teriam participado da formação da coalizão árabe responsável pela Batalha da Trincheira e continuado a buscar aliados contra os muçulmanos. Historiadores modernos também atribuem importância a fatores estratégicos e econômicos, destacando a localização de Caibar sobre importantes rotas caravaneiras, sua riqueza agrícola e comercial e a necessidade de consolidar a posição do nascente Estado islâmico após Hudaibia.

A campanha desenvolveu-se por meio do cerco sucessivo às fortalezas que compunham o sistema defensivo do oásis e terminou com a capitulação de seus habitantes após cerca de um mês e meio de operações. Pelo acordo celebrado, os judeus permaneceram em Caibar como cultivadores de suas terras, entregando metade da produção agrícola aos conquistadores. A vitória fortaleceu decisivamente a posição política e econômica de Medina e exerceu profunda influência sobre a posterior elaboração da jurisprudência islâmica relativa aos despojos de guerra, às terras conquistadas e às relações entre o Estado islâmico e as populações submetidas.

Antecedentes

A conquista de Caibar ocorreu poucos meses após o Tratado de Hudaibia, celebrado em 628 entre Maomé e os coraixitas de Meca. O acordo assegurou aos muçulmanos uma trégua temporária na frente meridional, permitindo-lhes dirigir sua atenção para o norte do Hejaz sem o risco imediato de um ataque coraixita. Diversos historiadores modernos consideram que essa alteração do equilíbrio estratégico constituiu um dos principais fatores que tornaram possível a expedição contra Caibar. As fontes islâmicas relacionam a campanha sobretudo ao papel desempenhado pelos judeus de Caibar após a expulsão dos nadiritas de Medina. Refugiados no oásis, seus chefes passaram a exercer considerável influência política entre as tribos da região e procuraram organizar uma ampla coalizão contra os muçulmanos. Segundo essa tradição, buscaram o apoio dos coraixitas de Meca, dos gatafanitas, dos fazaraítas, dos soleimitas e de outras tribos árabes, contribuindo decisivamente para a formação da aliança que cercou Medina durante a Batalha da Trincheira. Mesmo após o fracasso dessa ofensiva, continuaram incentivando tribos vizinhas a combater Maomé. A Dumate Aljandal, importante ponto de passagem das caravanas provenientes da Síria e do Iraque, comunicava-se com Medina por meio da rota que passava por Caibar, circunstância que reforçava a importância estratégica do oásis. Segundo a tradição preservada na TDV, os judeus de Caibar constituíam uma ameaça permanente às caravanas e ao próprio Estado islâmico em formação.

William Montgomery Watt considerou essa explicação a mais convincente. Em sua interpretação, a presença dos líderes nadiritas em Caibar e sua capacidade de mobilizar aliados tornavam o oásis um centro permanente de conspiração contra Medina. Assim, a campanha representaria uma ação preventiva destinada a eliminar um adversário politicamente organizado, cuja influência excedia a dos próprios coraixitas em razão da coesão de sua comunidade, de seus recursos econômicos e de sua capacidade de articulação regional. Outros estudiosos atribuíram maior peso aos fatores econômicos. Leone Caetani sustentou que, assegurada a neutralidade dos coraixitas por meio do Tratado de Hudaibia, Maomé pôde voltar-se contra um dos centros mais ricos da Arábia ocidental, obtendo recursos suficientes para recompensar os participantes da expedição, muitos dos quais esperavam conquistar Meca e ficaram desapontados com o acordo de paz. Laura Veccia Vaglieri observa que essa interpretação não exclui as motivações políticas. A autora destaca que Caibar concentrava importantes reservas de armas, provisões, tecidos, mercadorias e riqueza acumulada por sua intensa atividade agrícola e comercial, recursos de grande utilidade para a consolidação do Estado islâmico e para o financiamento de campanhas futuras. Muhammad Husayn Haykal propôs ainda que Maomé pretendia assegurar as fronteiras setentrionais da Península Arábica, receando que os judeus dos oásis do norte cooperassem futuramente com o Império Bizantino e o Império Sassânida. Vaglieri considera essa interpretação anacrônica, observando que, em 628, Maomé ainda não ocupava posição suficientemente relevante para despertar preocupações estratégicas dos soberanos daqueles impérios. Para a autora, a documentação disponível sustenta de maneira mais consistente a combinação entre fatores políticos — representados pela atividade dos refugiados nadiritas e pela hostilidade das tribos aliadas — e fatores econômicos relacionados à riqueza de Caibar e à necessidade de recursos para o fortalecimento do nascente Estado islâmico.

Preparativos e marcha

As fontes islâmicas situam a partida da expedição em Moarrão de 7 A.H. (maio-junho de 628), poucos meses após a conclusão do Tratado de Hudaibia. Segundo Ibne Hixame, Maomé deixou Medina à frente de cerca de combatentes e cem cavalos, embora outras tradições mencionem efetivos de homens e duzentos cavalos ou de combatentes e cem cavalos. Laura Veccia Vaglieri considera preferível a cronologia preservada por Ibne Hixame, observando que tanto a data da partida quanto os efetivos variam conforme a tradição utilizada pelas fontes medievais. Segundo a tradição preservada na TDV, o exército passou por e permaneceu durante três dias em antes de alcançar os arredores de Caibar. A marcha foi conduzida com rapidez e discrição. Segundo a tradição islâmica, os habitantes de Caibar somente tomaram conhecimento da aproximação do exército muçulmano quando saíam para trabalhar nos campos. Surpreendidos, abandonaram imediatamente as plantações e recolheram-se às fortalezas do oásis, confiantes de que suas posições fortificadas lhes permitiriam resistir ao cerco. Cada família ou grupo estabeleceu-se na fortaleza sob seu controle e passou a organizar a própria defesa. Embora a possibilidade de um ataque fosse conhecida antecipadamente, a defesa de Caibar apresentava limitações estruturais. A EI² observa que o oásis não possuía uma autoridade política única capaz de coordenar todas as fortalezas nem de impor uma estratégia comum de defesa. As diversas comunidades e famílias aristocráticas administravam suas próprias posições fortificadas, circunstância que dificultava a organização de uma resistência unificada. Segundo Laura Veccia Vaglieri, as fontes também sugerem a existência de rivalidades internas entre alguns dos grupos estabelecidos no oásis, fator que contribuiu para enfraquecer a coordenação defensiva.

A principal medida adotada pelos habitantes de Caibar consistiu em buscar auxílio das tribos árabes vizinhas. Os gatafanitas aceitaram inicialmente apoiar a defesa em troca da promessa de receberem a produção anual de tâmaras de Caibar, deslocando vários milhares de combatentes em direção ao oásis. Contudo, retiraram-se pouco antes do confronto decisivo. As fontes islâmicas apresentam diferentes explicações para essa retirada. Segundo a versão mais difundida, acreditaram que seus acampamentos, onde haviam permanecido suas famílias e rebanhos, estavam sendo atacados e regressaram para defendê-los. Outra tradição atribui sua decisão a uma voz misteriosa que os advertiu de um perigo iminente. A EI² observa ainda que os gatafanitas aceitaram o islã logo após a campanha e posteriormente receberam uma concessão de terras em Caibar, circunstância que levou alguns historiadores modernos a considerar possível a existência de algum entendimento entre ambas as partes para explicar sua retirada. Privados do auxílio esperado, os habitantes de Caibar concentraram-se nas fortalezas distribuídas pelos setores de Netate, Xique e Catiba. Sob a proteção da noite, transferiram mulheres, crianças, provisões e objetos de valor entre as diferentes fortalezas conforme a evolução do cerco. Em algumas ocasiões, os próprios combatentes deslocaram-se de um setor para outro para reforçar os pontos mais ameaçados. Enquanto isso, Maomé, dispondo apenas de meios rudimentares para atacar fortificações, viu-se obrigado a cercar sucessivamente cada uma das fortalezas e aguardar que a escassez de água e alimentos obrigasse seus defensores à capitulação. Esse método de operações marcou toda a campanha que se seguiu.

Cerco e conquista

300px|esquerda|miniatura|Ruínas da fortaleza de Camus esquerda|300px|miniatura|Ali mata Marabe em combate singular segundo pintura de 1910

Os cronistas árabes preservam descrições relativamente detalhadas da campanha, mas a reconstrução de sua sequência exata permanece problemática. Laura Veccia Vaglieri observa que a topografia antiga do oásis é hoje de difícil identificação, pois muitos dos nomes tradicionais desapareceram ou passaram a designar outros lugares. As informações fornecidas pelos geógrafos medievais, pelas observações arqueológicas e pelas descrições de viajantes modernos tampouco permitem localizar com segurança as fortalezas mencionadas pelas fontes islâmicas. Em consequência, a ordem precisa dos acontecimentos e a identificação de alguns locais permanecem objeto de incerteza historiográfica. Segundo as fontes islâmicas, Caibar encontrava-se organizada em três grandes setores fortificados — Netate, Xique e Catiba —, cada um composto por diversas fortalezas independentes. Esses recintos serviam simultaneamente como residência, armazém, estábulo e centro administrativo das propriedades agrícolas vizinhas, constituindo verdadeiras fazendas fortificadas erguidas sobre colinas ou afloramentos de basalto. Após o início das hostilidades, os habitantes abandonaram os campos e refugiaram-se nessas fortificações, transferindo sucessivamente mulheres, crianças, provisões e objetos de valor de uma posição para outra à medida que o cerco avançava. Também os combatentes deslocavam-se entre os diferentes setores para reforçar os pontos mais ameaçados.

As fontes islâmicas atribuem aos defensores entre dez e vinte mil combatentes, embora esses números sejam geralmente considerados exagerados pela historiografia moderna. Entre os principais chefes judeus mencionados figuram , seu irmão , , e , ligados às principais fortalezas do oásis. Apesar da superioridade defensiva proporcionada pelas fortificações, a inexistência de um comando político unificado limitou a coordenação entre os diferentes setores da resistência. As operações militares caracterizaram-se principalmente pelo cerco sucessivo das fortalezas. Segundo Laura Veccia Vaglieri, os muçulmanos não dispunham de meios eficazes para romper rapidamente as fortificações, sendo obrigados a investir uma posição de cada vez e aguardar que seus defensores esgotassem os suprimentos de água e alimentos. Durante esse período ocorreram escaramuças, combates singulares entre campeões, surtidas dos sitiados, trocas de flechas e tentativas limitadas de assalto. As fontes também mencionam a existência de informantes entre os habitantes do oásis, alguns dos quais forneceram aos muçulmanos informações úteis sobre as defesas e sobre o emprego de determinados equipamentos militares, permitindo-lhes utilizar máquinas de guerra capturadas durante a campanha. Em determinado momento do cerco, Maomé ordenou ainda o corte de cerca de quatrocentas tamareiras ao redor de uma das fortalezas para aumentar a pressão sobre os defensores.