José Hipólito dos Santos foi um militante antifascista português, dirigente político e especialista em cooperativismo.
Família, juventude e formação Nasceu no Porto em 1932.José Hipólito Santos (2011) Felizmente houve a LUAR. Para a história da luta armada contra a ditadura. Âncora Editora.
A mãe era operária fabril e tinha três filhos de um anterior casamento, que abandonou por violência doméstica do marido. Com o pai de José teria outros três filhos e passaria a ser "costureira de calças". Nascida em 1900, chegou a concluir o exame da quarta classe.Irene Hipólito dos Santos (org.) (2025) A vida faz-se de acasos e valores: José Hipólito dos Santos. Letra Livre.
O pai era um discreto republicano, com admiração por Afonso Costa e pelo Zé do Telhado. Guarda-fiscal de profissão, as suas nomeações vão fazer deslocar a família.
A morada inicial foi uma "ilha" no Porto, com sanitário no pátio. O casamento civil dos pais ocorreu em 1940, com direito a almoço celebratório.
O percurso escolar de Hipólito dos Santos vai incluir Águeda, Porto, Vilar Formoso, Viana do Castelo, Guarda, no Porto e em Lisboa. Apesar do esforço financeiro familiar, a leitura d'O Primeiro de Janeiro contribuiu para a aprendizagem do jovem Hipólito dos Santos sobre história, geografia e política.
Em 1958, conclui a licenciatura em Ciências Económicas e Financeiras em Económicas (ISEG).
Em 1967, bolseiro do governo Francês, inscreve-se num doutoramento em França na École Pratique d’Hautes Études - Sorbonne.
Ativismo cívico e político
Fase nacional Nos anos 1950, o serviço militar leva-o a fixar-se em Lisboa. Ali, frequenta a casa de António Sérgio, destacado oposicionista e dinamizador do movimento cooperativista. No seguimento, colaborou com o MUD-Juvenil e nas Comissões Promotoras do Voto. Envolveu-se ainda na Fraternidade Operária/Ateneu Cooperativo, onde se relaciona com Emídio Santana, Germinal de Sousa ou Moisés da Silva Ramos, chegando a Presidente do Ateneu.
Em 1957, colabora na campanha de Humberto Delgado. Participa em vários meios oposicionistas, chegando a 1961 como um dos redatores mais ativos da Seara Nova.José Hipólito dos Santos (2009) Maneiras Cooperativas de Pensar e Agir. Contributo para a história do cooperativismo. Edições Universitárias Lusófonas.
A oposição, sentindo-se defraudada nas eleições presidenciais portuguesas de 1958, tenta vários golpes militares com a participação de Hipólito dos Santos. Participa na revolta da Sé (1959), como adjunto do Capitão Vilhena. Na revolta de Beja (1961), apoiada por Humberto Delgado, liderado por João Varela Gomes (ala militar) e Manuel Serra (ala civil), Hipólito dos Santos é decisivo ao servir de intermediário para através do seu irmão Alexandre, à data tenente no quartel de Beja, contactar e garantir o recrutamento para a causa do capitão mais antigo do quartel, Francisco Vasconcelos Pestana. No seguimento do falhanço do golpe é detido em 11 de janeiro de 1962. Preso político, ao fim de 18 meses saiu com caução, a junho de 1963, e exilou-se na França em agosto e depois na Argélia.
Fase internacional Na Argélia, foi dirigente do Movimento de Ação Revolucionária (MAR). Não acreditando na regeneração do regime, o MAR de índole socialista articulou opositores ao Estado Novo no exílio e apoio a desertores da guerra colonial.Miguel Cardina (2010) A Esquerda Radical. Biblioteca Mínima. O MAR foi um dos integrantes da Frente Patriótica de Libertação Nacional, frente de combate unitário de vários movimentos antifascistas, publicando os boletins "Acção Revolucionária" e "Unidade". No MAR destacavam-se núcleos em Londres e Argel, este último onde Hipólito dos Santos militava.José Pacheco Pereira (2013) As armas de papel. Publicações periódicas clandestinas e do exílio (1963-1974). Círculo de Leitores.
De 1967 a 1970 adere à Liga de Unidade e Ação Revolucionária (LUAR), a convite de Emídio Guerreiro. A LUAR vai-se inserir no terceira onda de luta armada contra o Estado Novo no final dos anos 1960, em conjunto com a Ação Revolucionária Armada (ARA) ou as Brigadas Revolucionárias (BR). Hipólito dos Santos participa na operação da Covilhã (Operação Matias). Os seus pseudónimos incluíram "Azevedo", "Mário" ou "José Mário", sendo responsável pelas relações internacionais.
Participa no Maio de 1968, tendo sido membro do Comité de Ação da Sorbonne.
Em setembro de 1968, troca correspondência com Manuel Sertório, sobre a participação deste último com Manuel Alegre na publicação "A Arma da Crítica", sobre o diálogo para a insurreição anti-fascista e a revolução socialista. Manuel Sertório pede-lhe ajuda para a reimpressão do 1º número já esgotado.
Foi ainda redator dos Cadernos de Circunstância nos finais dos anos 1960 e princípio dos anos 1970. Funcionando de "portas abertas", eram pessoas à esquerda do Partido Comunista Português (PCP), "à procura de uma via". Esta revista distingue-se de outras oposicionistas da época, pelo pendor mais intelectual, com maior grau analítico, com fundamentação interdisciplinar e estatística. O núcleo editorial incluía Manuel Villaverde Cabral, José Rodrigues dos Santos, Jorge Valadas, António José Lobo, Alfredo Margarido, Fernando Medeiros, Alberto Melo, Aquiles de Oliveira, José Gil, João Freire, José Maria Carvalho Ferreira, para além de Hipólito dos Santos.
Refugiado político em Paris, em 1969 recorre a Adolfo Kaminsky para obter documentos falsos. Hipólito dos Santos tornou-se seu aprendiz, produzindo documentos para desertores da guerra colonial e antifascistas da resistência.
Pós-25 abril de 1974 No pós-25 de abril de 1974, esteve ligado à esquerda revolucionária.
Foi Presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses de 1975 a 1979, aquando de importantes lutas pelos moradores pelo direito à habitação.
Foi dirigente do PRP a partir de 1975. Integrou a direção política, com a responsabilidade da Região Norte/Porto (maio de 1975) e, mais tarde, a Região de Lisboa (janeiro de 1976). Em 1977, tornou-se responsável pela estrutura “Poder Popular”, a nível nacional. Saiu em 1978 por divergências políticas.
Depois de um interregno, voltou a participar civicamente: ATTAC - Plataforma Portuguesa (1999); Congresso Mundial de Cidadâos (Lille, 2001). Fórum Social de Portugal (2003) e Europeu, em Paris, em 2004; Associação “Movimento Cívico Não Apaguem a Memória”.
Esfera profissional De 1949 a 1959 é funcionário das Companhias Reunidas de Água e Electricidade (CRGE), com admissão por concurso.
Recém licenciado, é recrutado pela CUF por concurso em 1959, o que o leva a viagens de trabalho a França.
De 1963 a 1965, trabalhou na COGEHORE – Cooperative de Gestion des Hotels et Restaurants, na Argélia.
De 1965 a 1967, foi diretor financeiro de uma cadeia de hotéis em Marrocos.
Foi professor universitário em Paris (Paris, XIII e Universidade de Vincennes - Paris VIII, anos 1970) e Lisboa (ISEG e ISPA, vários períodos).
Foi perito das Nações Unidas para o setor cooperativo e fundador da cooperativa SEIES. A partir de 1980, trabalha em projetos em Moçambique, na Mauritânia, na Nicarágua, na Guiné Bissau e em São Tomé e Príncipe através da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Foi membro das redes Alliance pour un Monde Responsable, Pluriel et Solidaire e Democratiser Radicalement la Démocratie (DRD).
Morte e legado Morre em 12 de dezembro de 2017. A sua morte é noticiada na RTP e no jornal MAPA..
O seu kit de falsificação de documentos, entre outros elementos, integra o espólio do Centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra.
Livros “O Desenvolvimento e a Mulher: Um Outro Mundo é Possível” (2003); “Maneiras Cooperativas de Pensar e Agir: Contributo para a História do Cooperativismo” (2009); “Felizmente Houve a LUAR” (2011); “Revolta de Beja” (2012) “Sem Mestres, nem Chefes, O Povo Tomou a rua: Luta dos Moradores no Pós-25 de Abril” (2014).
Referências
Categoria:Nascidos em 1932 Categoria:Mortos em 2017 Categoria:Naturais do Porto Categoria:Antifascistas de Portugal Categoria:Opositores da ditadura portuguesa