O Incidente da Calúnia (), também conhecido como Caso da Calúnia, foi um episódio ocorrido em 6 A.H. (627–628), durante o retorno da Expedição de Almuraici, quando Aixa, esposa de Maomé, foi alvo de acusações de adultério após regressar ao acampamento acompanhada de Safuane ibne Almuatal. Segundo a tradição islâmica, os rumores foram iniciados por Abedalá ibne Ubai e difundidos por um pequeno grupo de habitantes de Medina, provocando uma grave crise no interior da comunidade muçulmana. O episódio prolongou-se por cerca de um mês, período durante o qual Maomé consultou familiares e companheiros sem chegar a uma conclusão definitiva. A tradição islâmica afirma que a controvérsia foi resolvida pela revelação dos versículos 11 a 22 da sura Anur, nos quais o Alcorão declara a inocência de Aixa, condena os responsáveis pela difusão da acusação e estabelece princípios relativos à falsa imputação de adultério. Após a revelação, alguns dos envolvidos foram punidos com a pena prevista para a calúnia, enquanto a absolvição de Aixa passou a ocupar lugar central na tradição religiosa islâmica. O Incidente da Calúnia tornou-se um dos episódios mais amplamente discutidos da vida de Maomé. Além de figurar nas coleções de hádices, nas biografias do profeta e nos comentários ao Alcorão, exerceu influência duradoura sobre a jurisprudência islâmica relativa ao crime de falsa acusação de adultério e permaneceu objeto de debate entre diferentes correntes do pensamento islâmico.

Contexto

O Incidente da Calúnia ocorreu durante o regresso da Expedição de Almuraici, em 6 A.H. (627–628). Na ocasião, Maomé havia levado consigo sua esposa Aixa, que o acompanhava durante a expedição. Segundo a tradição preservada por Aixa e transmitida pelas principais coleções de hádices, quando a caravana retomava a marcha após uma parada noturna, ela afastou-se momentaneamente do acampamento para atender às necessidades fisiológicas. Ao regressar, percebeu que havia perdido um colar de ágata do Iêmen (Zafar) e retornou para procurá-lo, supondo que a caravana notaria sua ausência e aguardaria seu retorno. Entretanto, o tempo despendido na busca fez com que o exército partisse antes que pudesse reencontrá-lo. Ao regressar ao local onde o acampamento estivera instalado, Aixa encontrou-o deserto. Convencida de que sua ausência seria percebida, permaneceu no local aguardando que alguém voltasse à sua procura, acabando por adormecer. Algum tempo depois foi encontrada por Safuane ibne Almuatal, integrante da retaguarda do exército encarregado de verificar se nada havia sido deixado para trás. Safuane reconheceu Aixa, fez seu camelo ajoelhar para que ela montasse e conduziu o animal até alcançar a caravana, caminhando ele próprio a pé durante todo o percurso. Como avançavam mais lentamente que o restante do exército, somente alcançaram os demais quando estes já haviam interrompido a marcha durante o calor da manhã.

O incidente

O atraso de Aixa e seu retorno acompanhada por Safuane ibne Almuatal não despertaram suspeitas imediatas entre os integrantes da caravana. Segundo Mustafa Fayda, o episódio inicialmente sequer chamou a atenção dos muçulmanos. A situação mudou apenas quando Abedalá ibne Ubai, antigo chefe dos cazerajitas que, antes da chegada de Maomé a Medina, esperava assumir a liderança política da cidade, passou a difundir rumores acerca da honra de Aixa. Considerado pelas fontes islâmicas o chefe dos hipócritas (munāfiqūn), Abedalá procurou, por meio dessas insinuações, desacreditar Maomé e seu sogro Abu Becre, além de semear discórdia entre ambos. As insinuações rapidamente se espalharam e acabaram sendo repetidas também por alguns muçulmanos, entre os quais as fontes mencionam Haçane ibne Tábite, e . Enquanto isso, Aixa permaneceu alheia ao ocorrido. Logo após o regresso da expedição, adoeceu e permaneceu acamada durante cerca de um mês. Nesse período apenas percebeu que Maomé, embora continuasse a visitá-la, já não lhe demonstrava a mesma atenção habitual quando ela adoecia. Somente durante a convalescença tomou conhecimento dos rumores ao ouvir mencionar que seu filho havia participado da divulgação da calúnia. Profundamente abalada, voltou a adoecer e, com a autorização de Maomé, retirou-se para a casa de seus pais.

A situação deixou Maomé profundamente perturbado. Incerto quanto à decisão a tomar, resolveu consultar algumas das pessoas mais próximas. Pediu a opinião de Zainabe binte Jaxe, conhecida por rivalizar com Aixa entre suas esposas, de Uçama ibne Zaíde e de Ali ibne Abi Talibe, havendo tradições que acrescentam também Otomão ibne Afane e Omar ibne Alcatabe entre os consultados. Zainabe e Uçama afirmaram não conhecer qualquer motivo para suspeitar da conduta de Aixa. Ali, por sua vez, observou que Maomé não estava limitado a uma única esposa, mas aconselhou-o a interrogar , serva de Aixa, para esclarecer os fatos. Ao ser interrogada, Barira declarou nada conhecer que pudesse comprometer a honra de sua senhora, acrescentando apenas que Aixa era uma jovem inexperiente que, por vezes, adormecia enquanto preparava a massa do pão, permitindo que um cordeiro a comesse. Posteriormente, Maomé abordou publicamente a questão na Mesquita do Profeta, pedindo aos muçulmanos que o ajudassem a pôr fim aos boatos. A discussão, contudo, degenerou numa acalorada disputa entre Sade ibne Muade e Sade ibne Ubada, fazendo ressurgir antigas rivalidades entre aucitas e cazerajitas. Diante da crescente tensão, Maomé encerrou a reunião e dirigiu-se à casa de Abu Becre. Segundo o relato de Aixa, foi então que ele lhe expôs diretamente os rumores pela primeira vez, afirmando que, caso fosse inocente, Deus a declararia inocente, mas que, se houvesse cometido algum pecado, deveria arrepender-se e pedir perdão, pois Deus aceita o arrependimento dos que se voltam para Ele. Convencida de que qualquer defesa seria recebida com desconfiança, Aixa respondeu que lhe restava apenas a paciência de Jacó, invocando o versículo 18 da sura Iúçufe, e aguardou o julgamento divino.

Revelação e consequências

Enquanto Aixa aguardava em silêncio o desfecho da situação, Maomé recebeu a revelação que, segundo a tradição islâmica, solucionou definitivamente a controvérsia. A partir do versículo 11 da sura Anur, o Alcorão qualificou as acusações como uma grave calúnia (ifk), advertindo que seus principais responsáveis seriam submetidos a severo castigo e afirmando que os responsáveis por divulgar os rumores constituíam apenas um pequeno grupo entre a comunidade. Os versículos censuram igualmente os muçulmanos que deram crédito às acusações sem qualquer prova, afirmando que, ao ouvirem tais rumores, homens e mulheres crentes deveriam ter presumido a inocência dos envolvidos e declarado tratar-se de uma evidente calúnia. A revelação também exortava os fiéis a jamais reincidirem em semelhante comportamento, ao mesmo tempo que recomendava indulgência e espírito de perdão à família do profeta, profundamente atingida pelo episódio. Segundo a tradição preservada pela TDV, Aixa considerou que o episódio, embora lhe tivesse causado intenso sofrimento, acabara por representar uma honra singular, pois sua inocência fora proclamada por meio de uma revelação corânica. Até o fim da vida, afirmava que a descida de dez versículos em sua defesa constituía a maior distinção que havia recebido. Após a revelação, Maomé reuniu os muçulmanos na Mesquita do Profeta e recitou os versículos que declaravam a inocência de Aixa. Em seguida, aplicou a pena prevista no versículo 4 da sura Anur contra três dos responsáveis pela propagação da acusação: Haçane ibne Tábite, Hamna binte Jaxe e Mista ibne Utata. Cada um recebeu oitenta açoites pela falsa imputação de adultério e, em consequência da condenação, deixou de ser considerado testemunha idônea.

As fontes preservam ainda diversos episódios posteriores relacionados aos envolvidos. Haçane ibne Tábite, poeta de Maomé, procurou reconciliar-se com Aixa por meio de uma composição em que exaltava sua castidade, obtendo seu perdão. Posteriormente, porém, envolveu-se em novo conflito com Safuane ibne Almuatal, a quem voltou a provocar em versos satíricos. Safuane reagiu ferindo-o gravemente com um golpe de espada, deixando-o cego de um olho e com as mãos mutiladas. Preso por ordem de Maomé para responder em caso de morte do poeta, acabou libertado após receber o perdão de Haçane. Em reconhecimento à reconciliação, Maomé presenteou Haçane com a escrava Sirim, enviada anteriormente pelo governador do Egito Almucauquis, juntamente com a propriedade de . Hamna binte Jaxe declarou que participara da difusão dos rumores por desejar reduzir o prestígio de Aixa junto a Maomé e favorecer sua irmã, Zainabe binte Jaxe. Mista ibne Utata, veterano da Batalha de Badre e beneficiário do auxílio financeiro de Abu Becre, perdeu esse apoio quando o sogro de Maomé soube de sua participação na calúnia. Entretanto, após a revelação do versículo 22 da sura Anur, Abu Becre revogou seu juramento e voltou a sustentá-lo. Quanto a Abedalá ibne Ubai, apontado pelas fontes como o principal instigador da campanha difamatória, os relatos divergem. Alguns afirmam que escapou da punição por falta de testemunhas que comprovassem sua responsabilidade direta; outros sustentam que recebeu a pena legal de açoites, havendo inclusive uma tradição segundo a qual o castigo lhe teria sido aplicado em dobro.

Recepção e legado

Segundo Mustafa Fayda, a absolvição de Aixa por meio da revelação corânica tornou impossível, no âmbito da tradição islâmica, qualquer acusação legítima contra sua honra. Os versículos da sura Anur passaram a ser entendidos como a confirmação definitiva de sua inocência, conferindo ao episódio importância permanente na exegese do Alcorão e na literatura jurídica islâmica relativa ao crime de falsa imputação de adultério. Apesar disso, o episódio continuou a ser objeto de controvérsia em alguns meios xiitas motivados por disputas políticas posteriores envolvendo Aixa. Segundo a TDV, determinados grupos xiitas radicais procuraram reinterpretar o episódio para desacreditá-la, posição rejeitada pela maioria dos autores xiitas moderados. Alguns exegetas xiitas chegaram a sustentar que a pessoa caluniada não teria sido Aixa, mas Maria, a Copta, outra esposa de Maomé. Nessa versão, Aixa teria acusado Maria de manter relações com , sendo essa a circunstância que teria motivado a revelação dos versículos da sura Anur. Mustafa Fayda observa, contudo, que essa tradição não se apoia em fontes consideradas confiáveis, interpretando-a como reflexo da animosidade política desenvolvida contra Aixa em determinados círculos xiitas. O autor assinala ainda que o Incidente da Calúnia recebeu amplo tratamento na literatura islâmica. Além de ocupar lugar de destaque nos comentários à sura Anur, o episódio é narrado extensamente nas coleções de hádices, nas obras de história e de sira dedicadas à vida de Maomé, bem como em numerosos tratados monográficos escritos especificamente sobre o tema desde os primeiros séculos do islã.

Bibliografia

Categoria:Aixa