Ilda da Graça dos Santos Aleixo (Lisboa, 6 de março de 1921 Oliveira do Hospital, 3 de agosto de 2021) foi uma modista portuguesa. Formada na alta-costura lisboeta das décadas de 1930 e 1940, foi a responsável pelos vestidos usados pela fadista Amália Rodrigues entre 1967 e 1999, tendo sido também sua amiga próxima e, nos últimos anos, sua modista privativa.

O seu testemunho oral sobre o período em que trabalhou na Casa Bobone, uma das primeiras casas de alta-costura de Lisboa, foi recolhido pela investigadora Alexandra Weber Ramos Reis Gameiro e é usado como fonte em estudos internacionais sobre a difusão da moda de Paris durante a Segunda Guerra Mundial e sobre os refugiados do nazismo que passaram por Portugal.

Biografia

Primeiros anos e Casa Bobone Ilda Aleixo nasceu em Lisboa a 6 de março de 1921 e começou a trabalhar em 1935, com 14 anos, como aprendiza de alta-costura na Casa Bobone, então uma das mais prestigiadas casas de costura da cidade. O registo funerário indica como naturalidade a antiga freguesia do Socorro, em Lisboa. O registo identifica a falecida como modista de Amália Rodrigues. Em entrevistas concedidas já centenária, situou o início do seu interesse pela costura na infância: "Em pequena, tinha a mania de fazer vestidos para as bonecas".

A Casa Bobone era propriedade de Maria Luísa Teixeira e funcionava numa moradia da Rua Serpa Pinto, no Chiado, antes ocupada pelo Salão Bobone, casa fotográfica do século XIX cujo nome a nova proprietária obteve autorização para manter. Segundo o testemunho de Ilda Aleixo, o ateliê empregava entre dez e doze costureiras e estava dividido em secções especializadas, entre as quais a de chapéus, dirigida por Ana Maravilhas. Anexo 6, síntese da conversa com Ilda Aleixo. Atribuiu a sua formação à costureira Sofia Travessa, que sucedeu como mestra da casa à francesa Madame Jorge.

Casou-se em 1942, usando um vestido de noiva da Casa Bobone. O marido trabalhava em Angola, onde Ilda Aleixo passou algum tempo e chegou a organizar uma passagem de modelos no Lobito. Ficou viúva antes do final da década de 1990. Numa entrevista à Lusa, descreveu o casamento como pouco bem-sucedido, acrescentando que cuidou do marido até à morte dele.

Testemunho sobre a guerra e os refugiados Ilda Aleixo é uma das fontes orais do estudo de Gameiro sobre as modistas portuguesas do Estado Novo. Relatou que, durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres estrangeiras que atravessavam Lisboa em direção à América levavam consigo vestidos das grandes casas de costura parisienses e autorizavam os ateliês portugueses a tirar-lhes os moldes, recebendo em troca uma peça da coleção da casa. As costureiras da Casa Bobone passavam noites inteiras a copiar esses modelos, num período em que ainda não se usavam toiles, os moldes em tecido a partir dos quais se executavam outros vestidos, sendo os moldes retirados diretamente das peças originais.

Este testemunho é citado no capítulo sobre Lisboa como centro de moda durante a guerra, assinado por Gameiro e pela historiadora da indumentária Lou Taylor, e é igualmente usado pela historiadora austríaca Katrin Sippel em dois estudos sobre as mulheres refugiadas do nazismo que tiveram Portugal como país de trânsito.

Ateliê de Ana Maravilhas Depois de sair da Casa Bobone, e do período passado em África, Ilda Aleixo entrou no ateliê de Ana Maravilhas, por volta de 1963, como contramestra, passando em seguida a mestra e a primeira costureira da casa. Ana Maravilhas, que tinha iniciado a carreira na secção de chapéus da Casa Bobone, orientava as escolhas da clientela mas não cosia, cabendo a execução das peças a Ilda Aleixo.

Modista de Amália Rodrigues Foi no ateliê de Ana Maravilhas que, em 1967, Ilda Aleixo conheceu Amália Rodrigues, para quem talhou o primeiro conjunto usado pela fadista numa atuação no Olympia, em Paris. Até então, os vestidos de Amália eram feitos por Teresa Mimoso, tendo António José Pinto de Campos criado também algumas peças.

As fontes divergem quanto ao momento em que passou a vesti-la em exclusivo. Pelo seu próprio relato, começou a trabalhar por conta própria pouco depois de 1967 e algumas clientes acompanharam-na, entre elas Amália; o depoimento recolhido por Gameiro situa a saída do ateliê de Ana Maravilhas em 1972, com a criação de um ateliê próprio em casa, em São João do Estoril. Já segundo a investigadora Mariana Gonçalves, da Casa-Museu Amália Rodrigues, o convite para trabalhar apenas para Amália surgiu no final da década de 1980, com o fecho do ateliê. A princípio a fadista deslocava-se a casa da modista, no Estoril, invertendo-se depois essa rotina. Amália Rodrigues chegou a convidá-la a viver na sua casa, em São Bento, Lisboa, e a tornar-se a sua modista privativa, episódio que recordou à Lusa: "Fui e lá fazia a roupa dela".

A própria Fundação Amália Rodrigues situa na década de 1970 o início do período em que Ilda Aleixo, na qualidade de modista pessoal da fadista, passou a confecionar os seus vestidos, na maioria idealizados por Amália Rodrigues, colaboração que se manteve até ao fim da vida da cantora. A imprensa portuguesa referiu igualmente a década de 1970 como o momento em que Ilda Aleixo começou a trabalhar com a fadista, de quem se tornou amiga. Uma crónica sobre uma exposição dedicada a mais de cinquenta anos de moda portuguesa associa o início dessa cocriação ao fecho do ateliê de Ana Maravilhas. Uma reportagem do Observador sobre a história do vestido preto assinala igualmente que, a partir da década de 1970 e até aos últimos dias da fadista, foi com Ilda Aleixo, na qualidade de modista pessoal, que Amália Rodrigues manteve a relação mais próxima, tendo a costureira confecionado muitos dos vestidos idealizados pela cantora.

Método de trabalho e guarda-roupa A divisão de tarefas era clara: Amália idealizava as peças e Ilda Aleixo executava-as. O processo começava pela criação de um modelo em miniatura, seguido de uma segunda sessão de provas, ficando o trabalho concluído à terceira. Com o apoio de duas costureiras, cada traje levava cerca de uma semana a completar. As provas duravam aproximadamente uma hora e podiam realizar-se a qualquer momento, das três da tarde às três da madrugada, conforme a disponibilidade da fadista. Os tecidos, entre eles musselinas, sedas e organzas, eram adquiridos em Portugal, França e Itália.

Segundo o seu próprio balanço, executou mais de duzentos vestidos de palco, os «vestidos de cantar», tendo passado com o tempo a assegurar também o vestuário de sair e o uso quotidiano de Amália. Entre as soluções técnicas que descreveu está o posicionamento da cintura abaixo da linha natural do corpo, para equilibrar o conjunto, e o recurso a sapatos muito altos ocultos pelo comprimento das saias, de modo a compensar a baixa estatura da fadista, que Ilda Aleixo indicava ser de 1,53 metros; a Casa-Museu Amália Rodrigues aponta 1,58 metros. Os modelos foram evoluindo de forma discreta ao longo dos anos, com o desaparecimento progressivo dos folhos e a substituição dos xailes por écharpes, e alargaram na década de 1980.

O acervo da Casa-Museu Amália Rodrigues conserva cerca de setenta vestidos da fadista, dos quais mais de um terço são coloridos, com ornamentos e motivos estilizados, o que contraria a associação exclusiva da cantora ao preto. Segundo a instituição, todas as peças expostas foram idealizadas por Amália Rodrigues e depois concebidas por Ilda Aleixo.

Nas comemorações dos cinquenta anos de carreira de Amália, Ilda Aleixo recordou que a fadista ouviu sugestões de dezoito amigos, tendo prevalecido a sua; a Casa-Museu Amália Rodrigues refere três vestidos usados nessas comemorações, em 1990, um deles inteiramente negro. À data da morte da cantora restavam duas peças nunca estreadas: um vestido branco, feito para a receção de uma condecoração, que Amália recusou usar por achar que a fazia parecer uma noiva, e outro, vermelho e verde, que ficou inacabado. Em entrevista à Lusa, lamentou que o vestido que considerava o mais bonito de quantos fez para a fadista nunca tivesse sido usado em público.

O último vestido que Amália Rodrigues usou em público foi o da homenagem que a Cinemateca de Paris lhe prestou, em maio de 1999. Para a amortalhar, Ilda Aleixo escolheu o vestido estreado na turné ao Japão de 1984, uma peça única com 153 metros de folhos.

A morte de Amália Rodrigues No sábado anterior à morte de Amália, na casa do Brejão, no Alentejo, a fadista ofereceu um jantar em honra de Ilda Aleixo e deu-lhe um dedal de ouro, dizendo que era "pelas dedaladas que me tem dado". Gameiro registou o mesmo episódio como tendo ocorrido na véspera da morte e refere que a modista contabilizava trinta e nove anos de trabalho comum.

Na noite de 5 para 6 de outubro de 1999 era Ilda Aleixo quem dormia no quarto contíguo ao de Amália Rodrigues. Segundo o seu relato, deu-lhe a medicação habitual, encontrou-a na manhã seguinte já sem sentidos na casa de banho contígua aos aposentos da cantora e chamou os médicos, que tentaram reanimá-la durante cerca de uma hora sem resultado. A revista Visão descreveu-a como a amiga que vivia no palacete da Rua de São Bento, número 193, e que lhe costurava os vestidos, referindo que foi ela quem encontrou o corpo da cantora, nas primeiras horas da manhã, na casa de banho.

O jornalista e escritor Fernando Dacosta, que recolheu o seu testemunho, salientou a independência económica, a autonomia e a lucidez de Ilda Aleixo no círculo de amigas da fadista, de quem se tornou colaboradora, companheira e confidente.

Últimos anos e morte A 8 de fevereiro de 2018 passou a residir na Sant'Ana Residência Sénior, em Oliveira do Hospital. Celebrou o centésimo aniversário a 6 de março de 2021, numa festa restrita devido às limitações impostas pela pandemia de COVID-19. Dois dias mais tarde, em entrevista à Rádio Boa Nova a propósito do Dia Internacional da Mulher, defendeu a utilidade da data para reforçar a importância do papel da mulher na sociedade.

Em abril de 2021 sofreu uma queda que lhe provocou uma fratura do colo do fémur. Foi operada em Coimbra e transferida para o Hospital dos Covões, onde o seu estado clínico se agravou, tendo regressado à residência sénior em maio.

Morreu na manhã de 3 de agosto de 2021, aos 100 anos, vítima de insuficiência cardíaca. A morte foi confirmada à agência Lusa por fonte da família. O velório e o funeral realizaram-se a 5 de agosto de 2021 na Capela de Santa Ana, em Oliveira do Hospital, em cerimónias restringidas aos familiares mais próximos devido às restrições impostas pela pandemia de COVID-19, seguindo o corpo para o crematório de Mangualde.

Atribuía a longevidade ao cuidado com a alimentação, afirmando não beber café nem leite, apenas chá. Dizia ter gostado sempre de ler e de aprender, sobretudo romances vindos do Brasil, e guardava na memória o nome do escritor austríaco Stefan Zweig.

Depoimentos e entrevistas Ilda Aleixo participou num programa de entrevistas da RTP apresentado por Teresa Guilherme e Manuel Luís Goucha que teve Amália Rodrigues como convidada, sendo apresentada como a costureira que fazia os vestidos da fadista.

Prestou também declarações no documentário biográfico realizado a partir de entrevistas de Maria João Gama para assinalar o décimo aniversário da morte de Amália, em que falou das provas de fatos que se prolongavam pela noite e que a obrigavam a ficar em casa da cantora, e afirmou que só passou a gostar de fado depois de o ouvir na voz de Amália, cuja autenticidade e carisma destacou.

Nas comemorações do centenário do nascimento de Amália Rodrigues, em 2020, deu uma entrevista à revista Máxima, na qual observou que muita gente não conhecia a fadista e a descreveu como uma pessoa calma e muito inteligente.