Almondir ibne Sauá (; m. ) foi um chefe árabe dos tamimitas que exerceu autoridade no Barém durante os últimos anos do domínio do Império Sassânida sobre a região e os primeiros anos da expansão do islã. Pertencia à divisão dos e é referido nas fontes como "rei do Barém", "senhor de Hajar" e "rei de Hajar". Integrava um sistema administrativo no qual chefes árabes locais exerciam autoridade sobre as populações tribais sob a soberania sassânida; Almondir era responsável sobretudo pelas tribos árabes do interior, entre elas os tamimitas, abedalcaicitas e becritas, e estava também associado à administração da importante feira de Almuxacar.
Durante os últimos anos da vida de Maomé, Almondir recebeu por intermédio de Alalá Alhadrami uma carta convidando-o a aceitar o islã. A data da missão é incerta, e as divergências das fontes podem estar relacionadas à existência de diversas cartas trocadas entre ambos. Segundo a tradição islâmica, Almondir converteu-se depois de conversar com Alalá, comunicou sua adesão a Maomé e promoveu a nova religião entre a população do Barém, parte da qual permaneceu, contudo, ligada às crenças anteriores. Maomé manteve Almondir na administração regional, na qual passou a ser referido como do Barém, e estabeleceu por seu intermédio disposições relativas aos judeus, cristãos e zoroastristas que permanecessem em suas religiões, entre elas o pagamento da jizia.
Os acordos associados à administração de Almondir tiveram importância posterior na tradição jurídica islâmica, sobretudo por constituírem um dos primeiros precedentes para a definição do estatuto dos zoroastristas sob domínio muçulmano. Sua atuação também contribuiu para a difusão do islã entre as tribos árabes do Barém e para a transição da região da esfera política sassânida para a autoridade da nascente comunidade muçulmana. Almondir morreu pouco depois de Maomé, em 632, antes da eclosão das Guerras da Apostasia no Barém; após sua morte, uma revolta na região foi reprimida por Alalá Alhadrami. Embora uma tradição afirme que Almondir teria visitado Maomé em Medina, essa identificação é rejeitada por estudiosos da sira e provavelmente resulta de sua confusão com , de modo que sua inclusão entre os companheiros de Maomé não é considerada segura.
Vida
Almondir ibne Sauá pertencia aos tamimitas, mais especificamente à divisão tribal dos . Embora algumas fontes tenham interpretado sua nisba Alabedi como indicação de pertencimento aos abedalcaicitas, essa identificação é considerada incorreta, pois a designação estaria relacionada a seu ancestral Abedalá ibne Darim. Outro de seus antepassados, Abedalá ibne Zaíde, aparece associado à designação Ispadi, de origem persa. As fontes muçulmanas oferecem diferentes explicações para o nome: segundo uma tradição, derivaria de , localidade do Barém; segundo outra, estaria relacionado aos , grupo que teria recebido esse nome por venerar cavalos, do persa asb, "cavalo". Uma terceira explicação relaciona a designação a diferentes facções tribais que teriam sido reunidas em um único grupo. Alguns estudiosos ocidentais, por sua vez, propuseram uma relação com o título persa ispabade, hipótese que poderia indicar que os ispaditas constituíam uma força a serviço do ispabade do Barém. Há, de fato, uma tradição segundo a qual eles formavam uma guarnição estacionada na fortaleza de Almuxacar.
Os darimitas mantinham estreitas relações com os sassânidas, sob cuja soberania se encontrava o Barém. Almondir é referido nas fontes como "senhor de Hajar" (sahib Hajar), "rei de Hajar" (malik Hajar), "rei do Barém" e "senhor dos ispaditas", títulos que indicam a posição de autoridade que exercia na região. Segundo a tradição preservada por Albaladuri, havia sido encarregado pelos persas de exercer autoridade sobre as tribos árabes, enquanto Maomé ibne Habibe afirma que os chamados "reis" de Hajar eram nomeados pelos monarcas sassânidas e administravam o mercado local. O sistema administrativo do Barém parece ter combinado a autoridade de um governador persa com a de dirigentes árabes locais escolhidos de acordo com as divisões étnicas e tribais da população. Nesse contexto, Almondir, como chefe dos darimitas, era responsável sobretudo pela supervisão das tribos árabes que habitavam as áreas desérticas, entre elas os tamimitas, os abedalcaicitas e os becritas. Embora subordinado ao governador sassânida e, em última instância, ao governo imperial, desfrutava de considerável autonomia na administração das tribos e da importante feira de Almuxacar. Segundo a TDV, mesmo quando se encontrava formalmente afastado de suas funções na época em que recebeu a primeira mensagem de Maomé, continuava influente na região e atuava como representante de sua população árabe.
Relações com Maomé e conversão ao islã
thumb|esquerda|Fac-símile de uma carta enviada pelo profeta islâmico Maomé a Almondir, governante do Barém, em 628
As fontes da sira concordam que Maomé enviou Alalá ibne Alhadrami a Almondir com uma carta convidando-o a aceitar o islã, embora divirjam quanto à data da missão. Algumas tradições situam-na no ano 6 A.H., enquanto outras a colocam no ano 8 A.H.; Kister considera impossível estabelecer uma data precisa, mas julga plausível que a iniciativa tenha ocorrido depois da Conquista de Meca, quando o fortalecimento da posição política de Maomé lhe permitiu estender sua influência a regiões mais distantes da Arábia, inclusive territórios formalmente pertencentes ao Império Sassânida mas administrados por chefes árabes. A TDV observa que as divergências cronológicas podem decorrer da existência de diversas cartas enviadas a Almondir. Maomé teria escrito inicialmente para convidá-lo ao islã e posteriormente enviado outras mensagens relacionadas à administração do Barém. Muhammad Hamidullah contabilizou oito cartas, embora seja possível que alguns dos textos preservados representem diferentes versões ou fragmentos de uma mesma correspondência. Uma tradição afirma ainda que a carta dirigida por Maomé ao xá sassânida teria sido encaminhada por intermédio de Almondir.
Após receber a mensagem, Almondir teria mantido extensas conversações com Alalá e finalmente aceitado o islã, declarando ter considerado a nova religião adequada tanto aos assuntos deste mundo quanto aos da vida futura. Em resposta a Maomé, informou-o de sua conversão e comunicou que havia apresentado a mensagem islâmica à população de Hajar: parte dos habitantes a aceitara, enquanto outros permaneceram em suas religiões anteriores. Almondir solicitou então instruções sobre como proceder especialmente em relação aos judeus e zoroastristas do Barém. Maomé determinou que aqueles que conservassem suas religiões poderiam fazê-lo mediante o pagamento da jizia. Em outra mensagem atribuída a Maomé e dirigida aos zoroastristas de Hajar, estabelecia-se ainda que os muçulmanos não deveriam contrair matrimônio com mulheres zoroastristas nem consumir carne de animais abatidos por seus seguidores. Alalá também teria recebido uma relação das obrigações tributárias correspondentes à sadaca, incidindo sobre camelos, bovinos, ovinos e produtos agrícolas.
Depois da conversão de Almondir, Maomé manteve-o à frente da administração regional, e as fontes islâmicas passaram a mencioná-lo como do Barém. A autoridade que lhe foi reconhecida, contudo, permanecia subordinada à de Maomé, como indica uma carta na qual este lhe teria assegurado que não seria destituído enquanto governasse corretamente. Maomé também instruiu os convertidos da região a obedecer a seus enviados e auxiliá-los no desempenho de suas funções. Além de Alalá, as tradições mencionam o envio de outros representantes encarregados da arrecadação e da instrução religiosa, entre eles Abu Huraira e Abu Ubaida ibne Aljarrá. Maomé manteve ainda contatos diretos com os muçulmanos do Barém, tendo recebido uma delegação da região em Medina, enquanto seus enviados teriam transmitido avaliações favoráveis da atuação de Almondir. Há relatos segundo os quais o próprio Almondir teria integrado uma delegação que visitou Maomé em Medina, circunstância que permitiria incluí-lo entre os companheiros de Maomé. Essa tradição, porém, foi rejeitada pela maioria dos estudiosos da sira. A TDV atribui sua origem a uma confusão entre Almondir ibne Sauá e outro habitante do Barém, , conhecido como , que efetivamente teria se encontrado com Maomé. Outra tradição relata, em vez disso, que Almondir enviou como seu representante perante Maomé e que este se converteu ao islã durante a missão.
Administração religiosa e legado
Os acordos celebrados no Barém durante o governo de Almondir adquiriram importância particular na tradição jurídica islâmica por constituírem alguns dos registros mais antigos acerca do tratamento dos zoroastristas pelo governo muçulmano. As cartas atribuídas a Maomé permitiam que os zoroastristas conservassem sua religião mediante o pagamento da jizia, solução semelhante à aplicada a judeus e cristãos. Segundo tradições posteriores, essa decisão teria causado controvérsia em Medina porque a cobrança da jizia era associada sobretudo aos Povos do Livro. O precedente estabelecido no Barém tornou-se posteriormente relevante para a definição do estatuto jurídico dos zoroastristas nos territórios conquistados pelos muçulmanos. Algumas tradições afirmam inclusive que Omar desconhecia inicialmente a decisão tomada por Maomé e só tomou conhecimento dela por intermédio de outros companheiros.
Os tratados celebrados por Alalá Alhadrami com os habitantes de Hajar, segundo as instruções atribuídas a Maomé, continuaram a ser considerados válidos e contribuíram para que o Barém e Hajar fossem classificados como territórios submetidos por acordo (sulh). Juristas muçulmanos posteriores discutiram extensamente a fundamentação jurídica do tratamento concedido aos zoroastristas. Alguns procuraram enquadrá-los entre os Povos do Livro ou sustentaram que possuíam uma condição semelhante à destes, enquanto outros rejeitaram a ideia de que originalmente dispusessem de uma escritura revelada. Independentemente dessas divergências, o precedente do Barém contribuiu para a incorporação das comunidades zoroastristas à ordem jurídica do Califado e influenciou os regulamentos posteriormente aplicados a elas em outras regiões.
Almondir morreu pouco depois de Maomé, em 11 A.H. (632), antes da eclosão da revolta que atingiu o Barém durante as Guerras da Apostasia. Após sua morte, grupos da região abandonaram a autoridade do governo muçulmano, e a rebelião foi posteriormente reprimida por Alalá Alhadrami.Uma tradição minoritária afirma que, por ocasião da morte de Maomé, Abane ibne Saíde já exercia o governo do Barém. Apesar das incertezas acerca dos limites exatos de sua autoridade e da cronologia de sua administração, Almondir desempenhou papel importante na transição do Barém da esfera política sassânida para a comunidade política islâmica, contribuindo para a difusão do islã entre as tribos árabes da região e para a manutenção das comunidades judaicas, cristãs e zoroastristas sob a nova administração.
Bibliografia
Categoria:Tamimitas Categoria:Árabes do século VII Categoria:Governadores do Império Sassânida Categoria:Árabes do Império Sassânida