Os abedexemecitas ou Banu Abede Xemece () foram um importante clã dos coraixitas de Meca, descendente de Abede Xemece ibne Abede Manafe, filho de Abede Manafe ibne Cuçai e irmão de Haxime. Durante a Jailia, constituíram um dos ramos mais numerosos e influentes dos coraixitas e desempenharam papel destacado na vida política, militar e econômica de Meca. A quiada, magistratura associada ao comando militar dos coraixitas e à chefia de suas caravanas, permaneceu entre os descendentes de Abede Xemece por sucessivas gerações, enquanto membros do clã participaram das redes comerciais que ligavam Meca à Síria, ao Iêmem, à Abissínia e a outras regiões. Entre suas principais linhagens estavam os descendentes de Omaia ibne Abede Xemece, dos quais se originaram os omíadas.
As relações dos abedexemecitas com os demais clãs coraixitas foram marcadas por alianças, rivalidades e vínculos matrimoniais. Inicialmente associados aos demais descendentes de Abede Manafe na disputa pelas magistraturas de Meca, posteriormente se afastaram de alguns de seus antigos aliados, entre eles os haxemitas. Com o advento do islã, os integrantes do clã não adotaram uma posição uniforme diante da pregação de Maomé. Alguns, como Abu Hudaifa ibne Oteba, estiveram entre os primeiros convertidos, enquanto outros, entre eles Oteba ibne Rabia, Hinde binte Oteba e Abu Sufiane ibne Harbe, tiveram participação destacada na oposição mecana. Depois das perdas sofridas pelos maquezumitas na Batalha de Badre, os abedexemecitas, sob Abu Sufiane, assumiram a principal posição na resistência coraixita a Maomé, e seu chefe comandou os mecanos nos confrontos posteriores, incluindo a Batalha de Uude e a Batalha da Trincheira. Com a Conquista de Meca, em 630, Abu Sufiane e outros membros de sua família aderiram ao islã e foram incorporados à nova ordem política.
Após a morte de Maomé, integrantes do clã participaram das disputas em torno de sua sucessão e das primeiras conquistas muçulmanas. Calide ibne Saíde e outros abedexemecitas demonstraram inicialmente apoio aos direitos dos haxemitas, enquanto membros do ramo omíada receberam importantes funções militares e administrativas. Iázide ibne Abi Sufiane participou da conquista muçulmana da Síria e exerceu o governo de distritos da região, sendo sucedido por seu irmão Moáuia ibne Abi Sufiane. A projeção política dessa linhagem culminou posteriormente no estabelecimento da dinastia omíada, fazendo dos descendentes de Omaia o ramo historicamente mais proeminente dos abedexemecitas.
História
Origens e genealogia
Os abedexemecitas (Banu Abede Xemece) eram um ramo dos coraixitas de Meca, descendentes de Abede Xemece, filho de Abede Manafe e de , e neto de Cuçai ibne Quilabe. Abede Xemece era irmão gêmeo de Haxime e um dos seis filhos homens atribuídos pelas tradições genealógicas a Abede Manafe. As mesmas tradições atribuem a Abede Xemece doze filhos. Com exceção de Omaia e Naufal, que se estabeleceram na Síria, seus descendentes permaneceram em Meca, onde constituíram um dos mais numerosos e influentes ramos dos coraixitas. Dessa linhagem descenderam diversas figuras de destaque da história islâmica, entre elas os membros da dinastia omíada. A posição dos abedexemecitas entre os coraixitas esteve relacionada à disputa pela distribuição das magistraturas de Meca entre os descendentes de Cuçai. Após a morte deste, os filhos de Abede Manafe — Abede Xemece, Haxime, Almotalibe e Naufal — contestaram as funções exercidas pelos abedadaritas, alegando possuir maior prestígio entre os coraixitas. A disputa dividiu os clãs de Meca em dois grandes blocos e terminou por meio de um acordo que repartiu as magistraturas entre as duas linhagens. A quiada, correspondente ao comando militar dos coraixitas e também à chefia das caravanas organizadas pela cidade, passou posteriormente a Abede Xemece e permaneceu entre seus descendentes, sendo exercida sucessivamente por Omaia, Harbe ibne Omaia e Abu Sufiane ibne Harbe.
Período pré-islâmico
Magistraturas e atividades econômicas
Abede Xemece integrou, juntamente com seus irmãos Haxime, Almotalibe e Naufal, o grupo conhecido como Companheiros do Ilafe (), aos quais a tradição atribui a organização de acordos comerciais com governantes estrangeiros e tribos situadas ao longo das principais rotas utilizadas pelos mercadores coraixitas. Enquanto Haxime teria obtido garantias para o comércio nos territórios do Império Bizantino, Almotalibe dirigiu-se ao Iêmem, Naufal ao Império Sassânida e Abede Xemece à Abissínia. Abede Xemece dedicou-se intensamente ao comércio e passou grande parte da vida fora de Meca, viajando ao Iêmem e à Abissínia para firmar acordos mercantis. As tradições atribuem-lhe o controle do comércio entre Meca e a Abissínia, bem como a abertura dos poços de Tavi, Jafere, Rune e Hume na cidade. Por volta de 600, os omíadas, descendentes de Omaia ibne Abede Xemece, e os maquezumitas ocupavam posição dominante nas redes comerciais dos coraixitas. Os dois grupos estabeleceram alianças econômicas e militares com tribos árabes nômades que controlavam extensas áreas desérticas da Arábia central e setentrional, adquirindo assim certo poder político na região. Os zuraítas, um dos grupos economicamente mais prósperos de Meca, mantinham estreitas relações comerciais com os abedexemecitas. Watt registra ainda que Alabás ibne Abede Almotalibe, embora mais rico que seu irmão Abu Talibe e proprietário, entre outros bens, de um jardim em Taife, não se equiparava aos principais homens dos clãs abedexemecita e maquezumita.
Harbe ibne Omaia tornou-se chefe dos abedexemecitas e uma das figuras mais influentes de Meca durante a Jailia. As tradições afirmam que foi o primeiro habitante da cidade a empregar a escrita árabe, que teria aprendido com Bixer, irmão de , governante de Dumate Aljandal, durante viagens comerciais realizadas à região do Iraque. Harbe comandou os coraixitas na Primeira e na Segunda Guerra Sacrílega, travadas contra os caicitas. Durante a , uma das etapas da Segunda Guerra Sacrílega, teria comandado também os quinanaítas juntamente com os coraixitas. Na última das Guerras Sacrílegas, travada entre coraixitas e quinanaítas de um lado e os hauazinitas do outro, portava na a bandeira coraixita conhecida como alucabe, cuja posse remontava a Cuçai. Uma tradição atribui-lhe ainda o comando dos coraixitas numa guerra anterior contra os becritas, travada em . Segundo outra tradição, depois de Abede Almotalibe a liderança dos coraixitas passou a Harbe e, após a morte deste, foi transferida para Alualide ibne Almuguira, dos maquezumitas.
Alianças e rivalidades
Os abedexemecitas integraram a coalizão formada pelos descendentes de Abede Manafe na disputa pelas magistraturas de Meca. Seus aliados, conhecidos como mutaiabitas, incluíam ainda os açaditas, zuraítas, taimitas e alharititas, em oposição ao grupo liderado pelos abedadaritas e apoiado, entre outros, pelos maquezumitas, samitas, jumaítas e aditas. Watt considera provável que, na época de Abede Almotalibe, este liderasse uma facção constituída pelos clãs anteriormente associados entre os mutaiabitas depois do afastamento dos ramos abedexemecita e naufalita, apontando suas disputas com integrantes desses dois ramos como indício dessa posição política. Segundo um relato preservado por Maomé ibne Habibe, uma disputa motivada por ciúmes entre Omaia ibne Abede Xemece e Uabe ibne Abede Manafe, então chefe dos zuraítas, levou os abedexemecitas a apoiarem Omaia e expulsarem temporariamente os zuraítas de Meca. O clã regressou posteriormente à cidade após a intervenção de , ligado aos zuraítas por parentesco materno.
Harbe ibne Omaia mantinha inicialmente relações estreitas com Abede Almotalibe e, segundo Aliacubi, apoiou-o numa disputa contra os taquifitas. A tradição afirma que a relação entre ambos se rompeu depois que Harbe teria ordenado secretamente o assassinato de um mercador judeu que se encontrava sob a proteção de Abede Almotalibe. Diante da negativa de Harbe quanto à sua responsabilidade, os dois recorreram a uma disputa de méritos e reputação, escolhendo inicialmente como árbitro o Negus da Abissínia, que teria se recusado a julgar a questão. A arbitragem foi então confiada a , avô de Omar, que decidiu contra Harbe. Este teria sido obrigado a entregar cem camelos ao primo paterno da vítima como preço de sangue e a restituir os bens tomados do mercador. Segundo a continuação do relato, Harbe decidiu posteriormente expulsar de Meca os aditas, clã de Nufail, e obteve para a iniciativa o apoio dos abedexemecitas e dos naufalitas. O projeto foi abandonado diante da oposição dos haxemitas, almotalibitas, samitas e zuraítas.
A historicidade das tradições relativas à rivalidade entre Harbe e Abede Almotalibe tem sido interpretada de maneiras diferentes pela historiografia moderna. Segundo os editores da Encyclopaedia of Islam, a narrativa da disputa de méritos entre ambos e da querela subsequente constitui uma projeção retrospectiva do conflito posterior entre as casas de Omaia e Haxime. Mahmood Ibrahim, por sua vez, relaciona a rivalidade ao crescente poder comercial dos omíadas em detrimento de outros clãs coraixitas, incluindo os haxemitas. Algumas décadas antes da Hégira, o Hilfe Alfudul reuniu os haxemitas, almotalibitas, zuraítas, taimitas e açaditas; os abedexemecitas não figuram entre os clãs enumerados como participantes. No , Aljaiz recorreu à participação dos haxemitas no pacto e à ausência dos abedexemecitas como argumento em favor da superioridade dos primeiros sobre os ancestrais dos omíadas.
Advento do islã
Entre os abedexemecitas houve tanto primeiros convertidos quanto opositores da pregação de Maomé. Abu Hudaifa ibne Oteba, filho de Oteba ibne Rabia, figurou entre os primeiros convertidos ao islã, enquanto sua irmã Hinde binte Oteba se destacou entre os adversários da nova religião. Oteba, por sua vez, era um dos mais respeitados líderes de Meca, distinguindo-se pela generosidade, eloquência e habilidade poética. Órfão de pai ainda na infância, fora criado sob a tutela de Harbe ibne Omaia. Durante a última batalha da Primeira Guerra Sacrílega, avançou entre os dois exércitos e conclamou as partes à paz, contribuindo para o encerramento do confronto. Mais tarde, participou da reconstrução da Caaba e, depois do início da missão profética de Maomé, integrou com seu irmão Xaiba a delegação coraixita enviada a Abu Talibe para persuadir o sobrinho a abandonar sua pregação. Em outra ocasião, Oteba apresentou a Maomé diferentes propostas para que desistisse de sua missão, mas, segundo a tradição, ficou profundamente impressionado ao ouvi-lo recitar os primeiros versículos da sura Fussilat (41:1–13). As fontes também relatam que costumava ouvir secretamente a recitação do Alcorão. Quando Maomé foi rejeitado e apedrejado em Taife, refugiou-se num pomar pertencente a Oteba e Xaiba, que ordenaram a seu escravo cristão Adas, oriundo de Nínive, que lhe levasse um prato de uvas. Durante o encontro, Adas reconheceu a missão profética de Maomé e converteu-se ao islã, apesar da desaprovação de seus senhores. Oteba e Xaiba também participaram da reunião realizada na Dar Anadua na qual, segundo a tradição, foi decidido o assassinato de Maomé.