Inefable é uma obra de teatro do dramaturgo e encenador colombiano Diego Fernando Montoya, desenvolvida na Colômbia em 2020 no âmbito de uma bolsa de criação teatral do Ministério da Cultura colombiano. Concebida na sua produção colombiana como um drama escenofónico, a obra foi produzida pela Pasionaria Laboratorio de Danza Teatro, com Gabriel Uribe, Doris Sarria e Jacqueline Cárdenas no elenco e música original de Juan Jacobo Restrepo.
Em 2025, a obra deu origem a uma nova produção entre Portugal e a Colômbia, apresentada em território português sob o título Inefável. A versão resultou de uma coprodução entre a companhia colombiana Pasionaria Laboratorio Escénico e a produtora audiovisual portuguesa The Makkina, mantendo Diego Fernando Montoya na dramaturgia e direção e Juan Jacobo Restrepo na criação musical e sonora. O elenco da produção portuguesa foi constituído por Adérito Lopes, Carla Madeira e Diana Sousa Lara.
Sinopse
Inefable desenvolve-se em torno de uma família composta por pai, mãe e filho. No início da ação, os três encontram-se reunidos na sala da sua casa. A aparente normalidade desse espaço doméstico é perturbada pela existência de um desconhecido que os observa do exterior. A presença desse olhar introduz desde o início uma situação de vigilância, embora a identidade do observador, as suas intenções e a natureza concreta da ameaça permaneçam indefinidas.
O pai procura reconstruir acontecimentos anteriores através da memória. Tenta recordar aquilo que viveu, aquilo que sentiu e as conversas mantidas com a mulher e com o filho. O passado não surge, contudo, como uma sucessão inteiramente segura de acontecimentos. A tentativa de o reorganizar faz da memória uma das matérias centrais da narrativa.
A ameaça exterior começa a manifestar-se através de acontecimentos aparentemente quotidianos. O telefone toca e chega uma carta. Outros elementos, como a televisão, os sonhos e uma máquina sonora, assumem igualmente uma função de anúncio ou presságio. Em vez de fornecerem uma explicação para aquilo que está a acontecer, estes sinais reforçam a perceção de uma força exterior que vigia e oprime a família.
O pai é o primeiro elemento da família a desaparecer. Antes de partir, despede-se da mulher e do filho, convencido de que poderá não regressar. O seu desaparecimento não conduz, contudo, a uma investigação convencional destinada apenas a descobrir o seu paradeiro. A narrativa concentra-se progressivamente nas consequências produzidas pela ausência sobre aqueles que permanecem.
Mãe e filho ficam confrontados com uma perda que não conseguem explicar ou encerrar. O desaparecido continua presente através das recordações e das sucessivas tentativas de compreender o que lhe aconteceu. A ausência física passa, deste modo, a coexistir com uma presença construída pela memória.
Depois do desaparecimento do pai, mãe e filho abandonam o lugar onde viviam e partem para o exílio. A segurança associada ao espaço doméstico é substituída por um território desconhecido. Durante a deslocação procuram vestígios do desaparecido e encontram sinais que parecem relacionar-se com ele, embora cada pista produza novas interrogações em vez de permitir uma reconstrução definitiva dos acontecimentos.
A deslocação conduz mãe e filho a uma floresta envolvida em nevoeiro. A mudança de espaço acompanha uma progressiva perda de referências, fazendo com que orientação, perceção e temporalidade se tornem cada vez mais instáveis.
É nesse percurso que ocorre uma nova rutura. O filho desaparece durante algum tempo e, quando regressa, traz consigo informações relativas ao futuro. A partir desse momento, passado, presente e futuro deixam de funcionar como dimensões claramente separadas.
A antecipação do futuro altera também a relação das personagens com o medo. Já não procuram apenas compreender um acontecimento passado; passam igualmente a viver perante a possibilidade de conhecer antecipadamente aquilo que poderá acontecer.
Quando a narrativa regressa ao espaço doméstico, a composição da família encontra-se novamente alterada. A ausência transfere-se para outro dos seus membros e as posições anteriormente ocupadas pelas personagens modificam-se. Aquilo que parecia constituir uma situação irrepetível começa a reaparecer através de outras combinações familiares.
O desaparecimento deixa, assim, de pertencer exclusivamente a uma personagem. Pai, mãe e filho podem ocupar sucessivamente as posições daquele que desaparece, daquele que permanece e daquele que testemunha a ausência. A própria apresentação original da obra caracteriza a família através de três destinos possíveis: morrer, desaparecer ou sobreviver para testemunhar.
A repetição constitui um dos mecanismos fundamentais da obra. Situações, sinais e relações regressam sem serem necessariamente reproduzidos de forma idêntica. A estrutura fragmentária faz coexistir acontecimentos, memórias, presságios e diferentes temporalidades.
Também os meios de contacto com o exterior assumem uma função ambígua. Telefonemas, cartas, imagens e outros sinais parecem oferecer informação, mas não eliminam a incerteza. Aquilo que deveria permitir comunicar pode simultaneamente funcionar como manifestação da vigilância exercida sobre a família.
A família encontra-se progressivamente numa situação em que qualquer sinal pode ser interpretado como pista, ameaça ou recordação. A separação entre o espaço privado e o mundo exterior torna-se cada vez menos segura.
A obra privilegia os efeitos produzidos pela possibilidade permanente do desaparecimento: medo, deslocação, perda, alteração das relações familiares e insegurança da memória. Entre o real e o simbólico, as personagens oscilam entre as posições de vítima, desaparecido e testemunha.
À medida que os desaparecimentos se sucedem, torna-se igualmente instável a distinção entre existir no presente e subsistir através da memória daqueles que permaneceram. A tensão entre desaparecimento e necessidade de memória constitui um dos princípios assumidos pela dramaturgia.
O desaparecimento adquire, deste modo, uma dimensão que ultrapassa a ausência física. À impossibilidade de determinar o destino de uma pessoa acrescenta-se a necessidade de preservar a sua memória. A obra contrapõe, nesse processo, desaparecimento e memória, verdade e incerteza, desejo de compreender e negação dos acontecimentos.
A dramaturgia não restitui uma ordem inteiramente estável nem oferece uma explicação única para os acontecimentos. A família permanece situada entre aquilo que vive, aquilo que recorda e aquilo que teme que possa vir a acontecer, numa narrativa construída entre o real e o simbólico.
Temas e estrutura dramatúrgica
Medo e desaparecimento
O medo e o desaparecimento constituem os principais eixos da obra. Desde a produção colombiana, a investigação dramatúrgica abordou diferentes manifestações do medo, entre elas o medo de deixar de existir, da mutilação, do desconhecido e das forças do poder.
O desaparecimento é abordado enquanto instrumento de terror e como experiência que se prolonga sobre aqueles que permanecem. A ausência de uma resposta definitiva impede o encerramento da perda, enquanto a memória do desaparecido permanece entre aqueles que ficaram.
A alteração das posições de pai, mãe e filho amplia esse mecanismo. A família encontra-se perante um poder que a vigia e oprime, sendo a possibilidade de morrer, desaparecer ou permanecer como testemunha incorporada na própria estrutura dramática.
Memória
A memória participa na construção narrativa desde o início da obra. O pai procura recuperar aquilo que viveu e as conversas mantidas com a família, fazendo com que o passado seja apresentado através de um processo de reconstrução.
Após os desaparecimentos, recordar adquire uma função adicional. A memória transforma-se numa das formas de conservar a presença daquele que deixou de estar fisicamente junto dos outros.
A relação entre desaparecimento e necessidade de memória é explicitamente assumida na conceção dramatúrgica da obra, juntamente com outras oposições como verdade e incerteza ou desejo de compreender e negação dos factos.
Tempo, sonho e repetição
A obra afasta-se de uma organização estritamente linear. A sua dramaturgia é fragmentária e aproxima-se de uma lógica onírica, permitindo a coexistência de diferentes temporalidades e uma oscilação entre o real e o simbólico.
O episódio em que o filho regressa trazendo informações sobre o futuro torna particularmente visível essa perturbação temporal. A informação proveniente do futuro passa a coexistir com a reconstrução de acontecimentos passados e com a repetição de situações.
Os sonhos possuem igualmente uma função dramatúrgica. Na conceção original da obra, integram, juntamente com telefone, carta, televisão e máquina sonora, o conjunto de elementos que anunciam ou antecipam o destino das personagens.
Família, poder e violência
Apesar da dimensão simbólica da proposta, o núcleo dramático permanece centrado em três pessoas ligadas por relações familiares. É através delas que a obra aborda as consequências da ameaça, da vigilância, do exílio e do desaparecimento.
A formulação colombiana da obra relaciona diretamente o medo com uma sociedade marcada pelo assassinato, pelo desaparecimento, pela ameaça e pela vigilância, enquadrando Inefable numa tradição do teatro colombiano de reflexão sobre a realidade social e política.
A obra afasta-se, contudo, de uma reconstrução documental ou testemunhal de um conflito específico. A proposta original define-se antes como um dispositivo poético que procura estabelecer uma relação com a realidade através de símbolos e códigos cénicos.
Na produção portuguesa de 2025, esta dimensão foi igualmente associada à reflexão sobre a instabilidade política contemporânea e sobre formas de poder e autoritarismo.
Teatro, escenofonia, cinema e som
A produção colombiana de 2020 foi concebida através de três campos expressivos. O primeiro correspondia ao teatro de câmara, destinado a um número reduzido de espectadores. O segundo consistia numa escenofonia, uma versão sonora autónoma da obra, construída especificamente a partir das possibilidades dramáticas do som. O terceiro utilizava recursos disponibilizados na Internet para prolongar a relação entre o público e o universo sensorial, estético e poético da criação.
A dimensão sonora esteve presente desde a criação colombiana. A música original foi composta por Juan Jacobo Restrepo, compositor e percussionista colombiano que desde 2019 desenvolvia trabalho para artes cénicas e que recebeu, em 2020, a Beca de Creación Teatral do Ministério da Cultura colombiano associada ao drama escenofónico Inefable.
Na produção luso-colombiana de 2025, o dispositivo interdisciplinar foi reformulado através da articulação entre teatro experimental, performance, cinema e criação sonora.
A componente audiovisual integrou a própria conceção do espetáculo. Ines Von Bonhorst e Yuri Pirondi foram responsáveis pela realização e produção audiovisual, enquanto Juan Jacobo Restrepo manteve a responsabilidade pela composição musical e desenho de som.
Produção colombiana de 2020
Inefable foi desenvolvida na Colômbia em 2020. O projeto esteve associado a uma Beca de Creación Teatral do Ministério da Cultura da Colômbia, sendo identificado pelo programa Ibermúsicas como um drama escenofónico de Diego Fernando Montoya.
A produção foi realizada pela Pasionaria Laboratorio de Danza Teatro, posteriormente designada Pasionaria Laboratorio Escénico. Diego Fernando Montoya assumiu a dramaturgia, direção, espaço e conceito visual e sonoro.
O elenco da produção colombiana foi constituído por Gabriel Uribe, Doris Sarria e Jacqueline Cárdenas. A música original foi composta por Juan Jacobo Restrepo. Leonardo Abonía realizou a assistência de direção e adereços, Robinson Achinte a assessoria técnica e Diana Vivianne Ramírez a administração e produção.