Abu Omar Xiabadim Amade ibne Maomé ibne Abde Rabi ibne Habibe Alcurtubi Alandalusi (; Córdova, 10 de Ramadã de 246 A.H. – 18 de Jamada Alula de 328 A.H.; –), mais conhecido como Ibne Abede Rabi (), foi um poeta, escritor e estudioso andalusino, considerado um dos principais representantes do adabe em Alandalus. Descendente de um liberto (maula) do emir omíada , formou-se em Córdova, onde estudou jurisprudência e hádice e desenvolveu sua atividade literária. Esteve ligado à corte dos omíadas de Córdova e atuou como panegirista da dinastia desde o reinado de até o de .
Ibne Abede Rabi deixou extensa produção poética, da qual apenas uma parcela sobreviveu. Cultivou poesia laudatória, amorosa, elegíaca, satírica, religiosa e moral, e seu divã, hoje perdido, teria compreendido mais de vinte partes. Na velhice, contrapôs aos poemas de entretenimento de sua juventude composições ascéticas denominadas mumaḥḥiṣāt, escritas nos mesmos metros e rimas e destinadas simbolicamente a apagar os pecados associados às primeiras. É também relacionado aos primeiros desenvolvimentos da muaxá em Alandalus e compôs uma urjūza histórica incorporada à sua principal obra. Sua poesia conservou reputação entre autores posteriores, e Ibne Saíde Almagribi incluiu-o entre os principais poetas e homens de letras andalusinos.
Sua fama posterior repousa sobretudo no Al-Iqd, posteriormente conhecido como Al-Iqd al-Farid, extensa compilação de adabe organizada em 25 livros e concebida como uma espécie de enciclopédia da cultura literária árabe. A obra reúne materiais sobre governo, guerra, religião, moral, provérbios, genealogia, história, Dias Árabes, poesia, música, mulheres, alimentação e outros assuntos, recorrendo extensamente ao patrimônio literário produzido no Oriente islâmico por autores como Aljaiz e Ibne Cutaiba. Essa dependência de fontes orientais provocou críticas já na Idade Média, mas não impediu que o Al-Iqd alcançasse ampla circulação e exercesse influência duradoura sobre a literatura árabe, sendo utilizado por autores posteriores como Ibne Caldune, Alcalcaxandi e Albaguedadi.
Vida
Abu Omar Xiabadim Amade ibne Maomé ibne Abde Rabi ibne Habibe Alcurtubi Alandalusi nasceu em Córdova em 10 do Ramadã de 246 A.H. (28 ou 29 de novembro de 860). Descendia de Salime, um liberto (maula) do emir omíada , circunstância que vinculava sua família aos omíadas de Córdova. Provavelmente iniciou sua formação com o irmão mais velho, Abu Becre Iáia, destacado jurista e tradicionalista de Alandalus. Embora fosse então comum que estudiosos andalusinos viajassem para centros orientais como Cairo, Baguedade, Damasco, Jerusalém e Alepo em busca de conhecimento, Ibne Abede Rabi permaneceu em Alandalus e estudou com eruditos locais, entre eles Baqui ibne Maclade, e . Completou sua formação em jurisprudência e hádice e passou também a ensinar, ao mesmo tempo que se dedicava à literatura, à poesia e à música. Ibne Abede Rabi alcançou posição destacada nos círculos cortesãos de Córdova e compôs numerosos poemas para governantes e membros da elite. Foi um dos panegiristas da dinastia omíada desde o reinado de até aproximadamente a metade do reinado de , e sua atividade junto aos governantes e à aristocracia cordovesa lhe proporcionou uma vida de prosperidade. Embora Brockelmann considere medíocre sua poesia laudatória, atribui maior originalidade aos versos amorosos compostos durante sua juventude. Ibne Abede Rabi cultivou ainda elegias, sátiras e poemas de temática pastoral, religiosa e moral, e algumas de suas composições se tornaram proverbiais. Sua produção poética foi extensa e chegou a ser reunida num divã, hoje perdido; Abedalá ibne Azobair Alhumaidi afirmou ter visto mais de vinte partes da coletânea, algumas delas escritas pela própria mão do poeta.
Na velhice, Ibne Abede Rabi arrependeu-se dos poemas de entretenimento que compusera quando jovem e escreveu, nos mesmos metros e rimas, poemas ascéticos, religiosos e de exortação denominados mumaḥḥiṣāt ("os que apagam os pecados"). É também associado aos primeiros desenvolvimentos da muaxá em Alandalus: uma tradição apresenta como o primeiro poeta andalusino a cultivar essa forma e Ibne Abede Rabi como seu continuador, embora as muaxás atribuídas a este último não tenham sobrevivido. Compôs ainda uma longa urjūza histórica em rajaz, com 445 versos, dedicada às campanhas realizadas por Abederramão III entre 300 e 322 A.H. (912–934), posteriormente incorporada ao Al-Iqd. A composição foi considerada por alguns estudiosos modernos um dos primeiros exemplos de poesia épica na literatura árabe. Ibne Abede Rabi gozou de reputação considerável como poeta entre autores posteriores. Ibne Saíde Almagribi incluiu-o entre os principais poetas e homens de letras de Alandalus, e algumas das composições que sobreviveram são consideradas entre os melhores exemplos da poesia andalusina. A tradição literária registra ainda a admiração de poetas posteriores, entre eles Almotanabi, cuja poesia bélica e algumas cássidas revelariam influência de Ibne Abede Rabi. Nos últimos anos de vida, sofreu uma paralisia. Morreu em Córdova em 18 de Jamada Alula de 328 A.H. (1 ou 3 de março de 940).
A dependência do patrimônio literário oriental foi percebida já entre os leitores medievais. Segundo uma anedota célebre, quando o vizir buída recebeu um exemplar do Al-Iqd, que lhe fora muito elogiado, teria manifestado decepção e declarado: "esta é nossa mercadoria devolvida a nós", em alusão à origem oriental de grande parte do material reunido por Ibne Abede Rabi. Brockelmann observa ainda que Ibne Hasme, ao defender as realizações intelectuais de Alandalus, não menciona Ibne Abede Rabi; em contrapartida, incluiu-o entre os mestres do gênero do adabe. Apesar dessas críticas, o Al-Iqd alcançou ampla circulação e exerceu influência sobre autores posteriores. A TDV identifica sua utilização em obras como o al-Mustaṭraf fī kull fann mustaẓraf, de , a Muqaddimah, de Ibne Caldune, o Ṣubḥ al-aʿshā, de Alcalcaxandi, e o Khizānat al-adab, de Albaguedadi. A difusão da obra deu origem também a versões abreviadas. Entre elas figuram o Mukhtaṣar al-ʿIqd, preparado por , e outra condensação realizada por . O texto integral conheceu numerosas edições impressas a partir do , entre elas a de Bulaque de 1293 A.H. (1876), seguida por várias edições cairota entre 1885–1886 e 1927. Maomé Xafique preparou índices e concordâncias publicados em Calcutá entre 1935 e 1937, enquanto uma edição publicada entre 1940 e 1953 foi a primeira do texto a incorporar um índice próprio. Partes do Al-Iqd foram traduzidas para línguas europeias. Jean-Joseph Marcel Fournel traduziu passagens relativas aos antigos árabes em Lettres sur l'histoire des Arabes avant l'Islamisme, publicada em Paris entre 1836 e 1838, enquanto a seção dedicada à música foi traduzida para o inglês por Henry George Farmer sob o título Music: The Priceless Jewel, publicada em 1942 na série Collection of Oriental Writers on Music.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Córdova (Espanha) Categoria:Escritores do Alandalus Categoria:Árabes do século IX Categoria:Árabes do século X Categoria:Pessoas do Califado de Córdova