Toromaimas (nas fontes espanholas, também toromaymas, taramainas ou taramaynas) é o etnónimo aplicado em fontes coloniais e na historiografia a uma população indígena associada ao vale de Caracas, ao vale do rio Guaire e a sectores do litoral central da actual Venezuela durante o século XVI. Em 1578, o governador Juan de Pimentel escreveu que Santiago de León de Caracas encontrava-se numa comarca chamada toromaymas porque assim eram designados os seus habitantes, colocando também Nuestra Señora de Caraballeda, na costa, dentro da mesma comarca..
A investigação linguística contemporânea enquadra a língua caraca, atribuída por Pimentel ao conjunto da província, na família caribe, considerando igualmente caribe a formação do nome Toromayma.. Isso não permite, porém, reconstituir uma «língua toromaima» autónoma nem demonstrar que o etnónimo correspondesse a uma entidade política centralizada, a uma população biologicamente homogénea ou a fronteiras fixas..
A historiografia associa Paramaconi aos taramainas ou toromaimas e atribui ao seu grupo participação nos ataques de 1561 contra o assentamento castelhano de San Francisco, bem como na resistência que continuou depois do estabelecimento de Santiago de León.. Uma informação de méritos de Garci González de Silva contém testemunhos coevos em que Paramaconi aparece como principal ainda resistente às autoridades de Caracas.Arquivo Geral das Índias (AGI), PATRONATO,80,N.2,R.4, fól. 20, declaração de Antonio Hernández na informação de méritos de Garci González de Silva.
No século XVII, o etnónimo continuava a aparecer em documentação de encomienda. Em 1614, uma mercê no vale de Antímano foi concedida ao menor Domingo de Vera Ibargoyen; segundo Manuel Donís Ríos, a encomienda incluía toromaimas, guaiqueris e mariches. Na respectiva posse, Don Alonso aparece como principal dos mariches e Don Cristóbal como principal dos toromaimas..
Nome e variantes
A forma mais próxima da principal fonte quinhentista é toromaymas. Pimentel empregou tanto o plural toromaymas como o topónimo singular Toromayma.
José de Oviedo y Baños, cuja história foi publicada em 1723, utilizou formas como taramainas ou taramaynas.. Nectario María preferiu toromaimas na sua reconstrução da conquista de Caracas.. Izaskun Landa, por sua vez, usa taramainas ao tratar das parcialidades indígenas que resistiram ao povoamento castelhano do vale.
Etimologia
Pimentel registou uma explicação local para o nome, segundo a qual os habitantes da comarca teriam vindo em tempos anteriores de outra região chamada também Toromayma; relacionou o nome com um pássaro denominado toro, cujo canto lhe parecia dizer mayma. Horacio Biord Castillo retomou esta etimologia, interpretando Toromayma aproximadamente como «lugar do canto dos pássaros», observando que muitos etnónimos registados na relação podiam derivar de lugares, cursos de água, plantas, animais ou outras características locais.. Andrzej Antczak, Horacio Biord Castillo, Pedro Rivas e María Magdalena Antczak salientam que o elemento final -aima ou -ima é de origem caribe, considerando linguisticamente plausível a formação do nome dentro desse conjunto..
Distinção dos tarmas
Pimentel enumerou separadamente toromaymas e taramas entre as populações da província.. A documentação seiscentista conserva igualmente tarma ou tarama em contextos próprios, particularmente no litoral e nas montanhas ocidentais da actual região de La Guaira.
Antczak e os seus coautores observam, contudo, que a semelhança entre toromayma e tarama/tarma levou Pedro Rivas a propor uma possível relação entre os nomes. Se essa relação existisse, poderia ser compatível com uma deslocação regional em direcção ao vale de Caracas ou à costa oriental de La Guaira; os próprios autores apresentam a hipótese de maneira condicional e não como identificação demonstrada. A distinção é especialmente importante no caso de Paramaconi e Parnamacay ou Parmanacay. Landa identifica o primeiro como chefe dos taramainas e o segundo como chefe dos tarmas. Nectario María também trata a campanha contra Paramaconi separadamente da resistência dos tarmas, na qual aparecem Parmanacay e Prepocunate..
Território
Vale de Caracas e litoral
A fonte territorial mais directa é a relação de Pimentel. Ao descrever Santiago de León, o governador afirmou que a cidade se encontrava numa comarca chamada Toromaymas, designação derivada, segundo ele, dos habitantes locais. Acrescentou que o assento indígena da cidade se chamava Catuchaquao, nome de um pequeno curso de água próximo. Na mesma descrição, Pimentel colocou Nuestra Señora de Caraballeda, junto ao mar, na «dita comarca dos toromaymas». Indicou ainda que o lugar era chamado Amanaure pelos indígenas, por referência a um dirigente local com esse nome..
Nectario María resumiu a distribuição afirmando que os toromaimas eram os habitantes do vale do Guaire, onde se estabeleceu Caracas. Na sua narrativa da entrada de Francisco Fajardo, chamou ao vale de San Francisco «vale dos toromaimas» e colocou o grupo entre as populações com as quais Fajardo procurou estabelecer relações antes da consolidação do assentamento castelhano..
A investigação contemporânea situa igualmente os Toromayma de Pimentel no vale de Caracas e na costa a norte, mas adverte que a localização dos nomes coloniais não equivale a fronteiras étnicas precisas,. uma vez que as populações da região foram afectadas por deslocações decorrentes da conquista, das encomiendas e da redução em povos coloniais..
Antímano e o sector ocidental
A documentação do século XVII associa explicitamente toromaimas ao vale de Antímano. Donís Ríos refere que, em 1614, Domingo de Vera Ibargoyen possuía ali uma encomienda de indígenas toromaymas, citando como fonte a secção Encomiendas do Archivo General de la Nación venezuelano.. Dávila publicou posteriormente a mesma classificação no resumo do expediente..
Landa propõe, na sua reconstrução territorial do final do século XVI e início da colonização, que grande parte das terras que identifica com os taramainas tenha sido absorvida pelos terrenos comunais de Caracas a oeste da actual ribeira de Chacaíto, enquanto outras áreas foram concedidas a colonos e os espaços indígenas se reduziram a sectores das encostas montanhosas..
Manuel Alberto Donís Ríos também relaciona os toromaimas com o sudoeste do vale de Caracas e com Antímano, assinalando que a povoação colonial recebeu igualmente indígenas classificados de outras maneiras..
Língua
Pimentel escreveu que a língua da província era «em geral» a que chamou caraca. Reconheceu diferenças entre as várias «nações» e comparou-as, de maneira aproximativa, às diferenças existentes entre regiões da Península Ibérica, afirmando que os habitantes se entendiam entre si..
Biord Castillo considera que os etnónimos enumerados por Pimentel podiam corresponder a aldeias ou componentes locais que os castelhanos trataram como «nações» distintas, embora a evidência linguística indique uma forte unidade regional.. No seu modelo, as populações falariam a mesma língua, com possíveis variantes dialectais; o autor chama-lhe caraca ou teque para fins analíticos, sem afirmar que língua e identidade étnica fossem conceitos equivalentes..
A síntese interdisciplinar de Antczak e coautores compara formas lexicais registadas nas fontes com línguas caribes históricas e actuais e considera bem sustentada a filiação do caraca na família caribe.. Os autores observam que continua discutido se todo o centro-norte venezuelano falava uma única língua caribe costeira com variantes dialectais ou várias variedades intimamente aparentadas.
Antczak e os seus coautores enquadram, assim, os toromaimas entre as populações do conjunto linguístico caraca ou caribe costeiro, sem reconstituírem uma gramática, um léxico ou limites dialectais especificamente toromaimas.
Identidade, povoamento e organização social
Pimentel classificou toromaymas, teques, mariches, taramas, quiriquires, meregotos e outros nomes como «nações». A terminologia colonial não deve ser tomada automaticamente como equivalente aos conceitos actuais de povo, etnia, Estado ou território nacional. Biord Castillo sustenta que muitos desses nomes podiam designar aldeias, regiões ou componentes locais de um conjunto cultural e linguístico mais vasto.
A relação de 1578 não contém uma etnografia autónoma dos toromaimas. A maior parte das informações sobre habitação, agricultura, parentesco, chefia, religião e cultura material refere-se genericamente aos habitantes indígenas da província. Antczak e os seus coautores recomendam cautela ao projectar características gerais da documentação sobre unidades étnicas específicas..
Padrão regional de povoamento
Pimentel afirmou que os habitantes indígenas da província viviam normalmente em pequenos «bairros» de três, quatro, seis ou mais casas, por vezes separados uns dos outros,. indicando distâncias variáveis entre povoações, desde cerca de meia légua até três léguas, ligadas por caminhos frequentemente sinuosos e montanhosos.. Antczak e os seus coautores interpretam esta descrição como um padrão de pequenas aldeias dispersas em colinas, vales, vertentes e ravinas, associadas aos campos de cultivo e articuladas em unidades maiores..
Chefias e alianças
Pimentel declarou não ter encontrado na província «caciques» ou senhores hereditários aos quais os demais pagassem tributo.. No entanto, fontes do período chamam determinados indivíduos de principales, e a própria documentação referente a Paramaconi utiliza essa designação. Biord Castillo interpreta a organização regional como predominantemente descentralizada: aldeias normalmente autónomas podiam coordenar-se em conjunturas militares, concentrando temporariamente a liderança num chefe reconhecido pela capacidade de persuasão, alianças e prestígio..
A informação de méritos de Garci González oferece um testemunho coevo sobre uma situação concreta. Antonio Hernández declarou que o principal Paramaconi estava «de guerra», causava danos, convocava outros principais e indígenas e já fora procurado pela justiça de Caracas sem que esta conseguisse prendê-lo ou levá-lo à paz.
Subsistência e cultura material: contexto regional
As informações detalhadas de Pimentel sobre subsistência e cultura material abrangem a população indígena da província e não isolam os toromaimas. Entre os principais produtos agrícolas, a relação menciona milho, mandioca, batata-doce, abóboras, feijões, amendoim e vários tubérculos, além de frutos e plantas de uso alimentar, técnico ou ritual.. A investigação recente interpreta a horticultura regional como um sistema de campos sujeitos a rotação, complementado por caça, pesca e recolha..
Pimentel documentou ainda intercâmbio entre os habitantes do interior e os do litoral: produtos alimentares eram levados à costa em troca de sal e peixe. Antczak e os seus coautores integram estas trocas numa rede regional mais ampla que articulava vales interiores, litoral e ilhas próximas..
No plano material, Pimentel descreveu regionalmente arcos e flechas, macanas, algodão tecido, redes de dormir, cordas, cestos, recipientes vegetais, pinturas corporais e adornos.. Chefes e guerreiros de maior prestígio podiam utilizar ornamentos, peles e adornos de penas, segundo a interpretação das fontes reunidas pelos investigadores.
Conquista castelhana e resistência Francisco Fajardo e San Francisco Por volta de 1559–1560, Francisco Fajardo avançou da costa para o vale de Caracas, estabelecendo o hato ou assentamento de San Francisco. A Fundación Empresas Polar situa o hato no vale do Guaire, relacionando-o com as tentativas de exploração das minas de ouro da região dos teques. Nectario María afirma que Fajardo fundou, junto do hato, um povoado chamado San Francisco no vale dos toromaimas e que procurou manter paz com estes e com grupos vizinhos.
Ataques de 1561 e Paramaconi