O BAC Jet Provost é uma aeronave de treinamento a jato desenvolvida e produzida inicialmente pela Hunting Percival, sendo logo depois, produzida pela British Aircraft Corporation (BAC). A aeronave foi desenvolvida baseada no treinador a pistão Percival Provost, sendo operados pela Força Aérea Real (RAF) de 1955 até 1993. Além das múltiplas encomendas da RAF, o Jet Provost foi exportado para diversas forças aéreas em todo o mundo. O projeto também foi aprimorado em uma variante de ataque, denominada BAC Strikemaster.
Desenvolvimento
Origens No início de 1951, Hunting Percival começou a trabalhar nos estudos de projeto que acabariam por levar ao Jet Provost. Na época, a empresa estava em processo de estabelecer a produção em massa do Percival Provost, movido a motor a pistão, mas já previa que a demanda por uma aeronave de treinamento a jato estaria no horizonte. A equipe de projeto tinha como objetivo produzir uma aeronave capaz de igualar as características de manuseio dos caças a jato operacionais da época, ao mesmo tempo que possuía velocidades de aproximação e de estol moderadas e permanecia simples de pilotar, em vez de visar obter o máximo desempenho.
Durante a fase inicial do projeto, houve uma série de contatos cada vez mais frequentes com o Comando de Treinamento de Voo da RAF, o que ajudou a avaliar as considerações necessárias para o sucesso em aspectos do projeto da aeronave proposta, como processos de instrução e requisitos de manutenção. Durante o desenvolvimento, a Hunting Percival reutilizou intencionalmente o máximo possível de componentes e subsistemas existentes do Percival Provost, incluindo as empenagem, as asas e o trem de pouso, para acelerar o desenvolvimento até a fase de protótipo. O projeto inicial foi desenvolvido como uma iniciativa privada, independente de qualquer exigência de serviço; em março de 1953, o governo britânico disponibilizou patrocínio para apoiar o desenvolvimento, em decorrência do interesse do Ministério do Abastecimento. Naquele mesmo mês, foi recebida uma encomenda de uma quantidade de Jet Provosts para testes de serviço.
Protótipos e avaliação esquerda|miniaturadaimagem|O protótipo do Jet Provost durante o Show Aéreo de Farnborough de 1954 Em 26 de junho de 1954, o primeiro protótipo, matricula XD674, realizou seu voo inaugural a partir da fábrica no Aeroporto de Luton, pilotado por Dick Wheldon. Uma série de sete voos foram realizados em rápida sucessão ao longo dos três dias seguintes. No início de novembro de 1954, o protótipo acumulava um total de 123 horas de voo durante o programa de testes de voo da própria Hunting Percival, após o qual foi submetido a avaliações oficiais na RAF Boscombe Down. Embora os testes tenham comprovado que o desempenho geral do Jet Provost era satisfatório, foram feitos aprimoramentos, como o encurtamento das pernas do trem de pouso para uma decolagem mais suave quando acionado em pistas semi-preparadas.
Em 19 de fevereiro de 1955, o primeiro dos dez protótipos, designado Jet Provost T1, realizou seu primeiro voo. Em maio de 1955, três das aeronaves de pré-produção foram designadas para a primeira fase de testes de serviço com a Escola Central de Voo (CFS) da RAF, a fim de determinar o valor do Jet Provost na função de treinamento inicial e desenvolver um programa de treinamento. Durante a segunda fase dos testes do CFS, utilizando as mesmas três aeronaves, alunos reais foram apresentados ao modelo para fins de avaliação prática, que foi realizada na RAF Hullavington até a conclusão bem-sucedida dos testes em 2 de julho de 1956. De acordo com o feedback dos examinadores do CFS, o Jet Provost melhorou consideravelmente o desempenho dos alunos durante seu período de testes.
Desenvolvimento de suas variantes miniaturadaimagem|BAC Jet Provost T.4 da RAF, 1984 Como resultado dos resultados e respostas obtidos nos testes realizados com a aeronave de pré-produção, a Hunting Percival desenvolveu e incorporou diversas melhorias ao projeto. Entre as mudanças realizadas, destacam-se o suavizamento geral das linhas da fuselagem, a substituição dos sistemas pneumáticos por sistemas hidráulicos e a adição de uma aleta dorsal; o novo modelo foi designado como Jet Provost T2. Em 1º de setembro de 1955, o primeiro Jet Provost T2 realizou seu voo inaugural. Esta variante foi utilizada apenas para trabalhos de desenvolvimento; além de ser utilizada em Hullavington, três Jet Provost T2 foram enviados para o exterior para testes de inverno na Escandinávia e uma série de viagens de vendas pela Europa, Canadá, Estados Unidos e América Latina.
Em junho de 1957, foi feita uma encomenda para a produção das primeiras 40 unidades do Jet Provost T3, que apresentava um motor turbojato Armstrong Siddeley Viper, de maior potencia, assentos ejetáveis, uma fuselagem redesenhada e uma versão encurtada e reforçada do trem de pouso. Percival construiu um único exemplar, que foi usado exclusivamente para testes estruturais durante as fases de desenvolvimento, fornecendo aos projetistas informações valiosas sobre o que poderia ser alcançado com o projeto básico. Em 22 de junho de 1958, o primeiro Jet Provost T.3 realizou seu voo inaugural. No total, foram entregues 201 unidades do T3 entre 1958 e 1962.
O T4 surgiu em 1960, equipado com uma variante mais potente do motor Viper e realizou seu primeiro voo em 15 de julho, seguido pelo T5 pressurizado em 1967. O T51 era uma versão armada para exportação, vendida ao Ceilão (atual Sri Lanka), Kuwait e Sudão. O T52 foi outra versão de exportação vendida para o Iraque, Iêmen do Sul, Sudão e Venezuela, com o mesmo armamento do T51. O T55 foi a versão final armada para exportação, vendida ao Sudão. Uma variante da aeronave, mais fortemente armada, foi desenvolvida como BAC Strikemaster.
Design esquerda|miniaturadaimagem|Um Jet Provost T.5A voando em formação com um Percival Provost O BAC Jet Provost é uma aeronave de treinamento a jato dedicada; de acordo com a publicação de aviação Flight International, ele tem a distinção de ser o primeiro treinador inicial a jato a ser padronizado por qualquer força aérea. Conforme projetado, o Jet Provost foi concebido para substituir, e não para complementar, o uso de aeronaves de treinamento com motor a pistão. O Jet Provost incorpora inúmeras funcionalidades para auxiliar os alunos durante o treinamento. O design aerodinâmico evita deliberadamente a velocidade, concentrando-se, em vez disso, em características de manuseio favoráveis e facilidade de recuperação em situações de estol e parafuso. Foi dada ênfase à flexibilidade, permitindo a utilização do modelo em multiplas operações de treinamento.
A cabine de pilotagem do Jet Provost, assim como grande parte dos equipamentos operacionais, é essencialmente idêntica à do Percival Provost, seu antecessor. A aeronave possui assentos lado a lado, ambos equipados com controles de voo e instrumentação duplicados, o que é ideal para a dupla aluno-instrutor. Os controles de voo duplos empregam superfícies de controle de voo convencionais controladas manualmente por meio de um sistema de cabos e hastes de ligação. Um dos principais recursos da época, entre os acessórios da cabine de comando, era o Painel de Alerta Centralizado, que avisava os pilotos em caso de detecção de diversas condições desfavoráveis ou perigosas, como formação de gelo, incêndio e falta de oxigênio. As capacidades de voo em grandes altitudes do Jet Provost exigiram a adição de um sistema de oxigênio na cabine de comando, que não era pressurizada nas primeiras aeronaves de produção. miniaturadaimagem|Uma célula de treinamento do Jet Provost na RAF Cosford, 2004 O Jet Provost possui uma estrutura descomplicada, com a célula baseada na do Percival Provost, embora reforçada em áreas-chave como a longarina principal da asa e apresentando um trem de pouso substancialmente diferente. Possui uma fuselagem de revestimento estrutural totalmente metálica construída em duas seções. A seção dianteira, que se estende da parte traseira do compartimento do motor até o nariz, compreende uma estrutura dupla para absorver as cargas da asa e do motor, enquanto a seção traseira da fuselagem utiliza uma estrutura semimonocoque convencional. As principais cargas transversais da fuselagem são suportadas por uma combinação de quatro longerons e uma viga longitudinal única na linha central superior. Os ailerons, profundores e leme são todos fixados à fuselagem por meio de duas dobradiças embutidas cada. A parte frontal contém uma estrutura metálica articulada que abriga o rádio, as baterias e outros equipamentos eletrônicos, e é facilmente acessível para manutenção pela equipe de solo. Todos os tanques de combustível estão alojados dentro das asas. Sempre que possível, todos os componentes utilizados foram projetados para maximizar a intercambialidade e estar em conformidade com as normas internacionais; um total de 49 painéis de serviço na parte externa da aeronave proporciona acesso para manutenção e reparos.
O Jet Provost está equipado com um único motor turbojato Armstrong Siddeley Viper 101, montado atrás da cabine de pilotagem em um espaçoso compartimento do motor revestido de aço inoxidável, sobre uma estrutura secundária de tubos de aço. O ar é fornecido ao motor por um par de tomadas de ar dinâmico, localizadas em ambos os lados da fuselagem dianteira da aeronave, conectadas por dutos com curvatura acentuada para convergir logo à frente do próprio motor. Na configuração fornecida, cada motor é entregue como uma unidade compacta, composta pelo próprio motor, acessórios e tanque de óleo. Os sistemas hidráulico e elétrico eram acionados por meio de uma caixa de acessórios montada na fuselagem, conectada ao motor Viper por uma transmissão telescópica. A ignição do motor é feita por meio de um sistema de partida elétrica, e os controles do motor foram descritos como sendo de natureza convencional.
Histórico operacional
Reino Unido esquerda|miniaturadaimagem|Um Jet Provost T.3 da RAF em 1967 O Jet Provost provou ser um treinador capaz, sendo usado na função de treinador inicial, com os pilotos progrediam para o de Havilland Vampire e, posteriormente, para o Folland Gnat.
Após testes de aceitação bem-sucedidos do T1 no final de 1955 na Escola de Treinamento de Voo nº 2 da RAF Hullavington, a Força Aérea Real (RAF) aceitou formalmente o modelo em 1957. A primeira versão de produção foi a T3, equipada com o motor Viper 102, e entrou em serviço no Esquadrão de Treinamento de Voo nº 2 (No. 2 FTS), localizado na RAF Syerston, em junho de 1959, quando as entregas começaram a partir da fábrica da Hunting Aircraft no aeroporto de Luton. O T3 também foi operado pela Escola Central de Voo na RAF Little Rissington; pelo Colégio da Força Aérea Real na RAF Cranwell, Lincolnshire; pela Escola de Treinamento de Voo nº 1 na RAF Linton-on-Ouse, Yorkshire; pela 3ª Escola de Treinamento de Voo na RAF Leeming, Yorkshire; pela 6ª Escola de Treinamento de Voo na RAF Acklington, Northumberland; e pela 7ª Escola de Treinamento de Voo na RAF Church Fenton, Yorkshire. A variante biposto lado a lado também foi usada na RAF Brawdy, no País de Gales, para treinar Controladores Aéreos Táticos (FAC).
A versão posterior do T4 foi equipada com o motor Viper 11, mais potente, com 2.500 lbf (11.12 kN) de empuxo seco, e realizou seu primeiro voo em 15 de julho de 1960. Rapidamente entrou em serviço nas unidades listadas acima.