Moisés Mathias de Andrade (Resende, 10 de janeiro de 1948 – Rio de Janeiro, 26 de agosto de 2008 ) foi um futebolista (que atuava como zagueiro) e treinador de futebol brasileiro.
Moisés foi o primeiro, a, como futebolista, defender os quatro grandes do Rio de Janeiro. Enquanto jogador, se identificou sobretudo com o Vasco da Gama, integrando o primeiro título vascaíno no Brasileirão, no de 1974; e no Corinthians, participando do fim do jejum de 23 anos no campeonato paulista, além da invasão corintiana nas semifinais do Brasileirão de 1976. Esteve ainda na Portuguesa e em tempos modestos do Paris Saint-Germain, sendo o segundo brasileiro a defender o PSG.
Tinha fama de defensor áspero, alimentada por declarações dele próprio, como a de contar que até tubarões fugiriam dele quando o viam praticando pesca submarina ou de que soubera crescer seu patrimônio mediante agiotagem praticada até com militares e executada através da Caixa Econômica Federal. Embora negasse que possuísse intenção de lesionar adversários, seu estilo rendeu apelidos como "Xerife" e também de "Moisés Paulada". Sua frase mais lembrada a respeito, repetida sob ligeiras variações, defendia que "zagueiro que se preza não ganha o Prêmio Belfort Duarte".
Embora ele próprio não se visse dotado de tanta técnica, foi premiado em 1981 com a Bola de Prata da Placar como melhor zagueiro do Brasileirão, quando estava no Bangu. Como treinador, foi neste mesmo clube que Moisés ficou mais associado, dirigindo frequentes campanhas em que este clube aspirou seriamente ao título no campeonato carioca na década de 1980, na qual também foi vice-campeão do Brasileirão de 1985 com os alvirrubros. Fora do futebol, se notabilizou especialmente como entusiasta do bloco carnavalesco "das Piranhas", travestindo-se junto a outros jogadores nos desfiles.
Trajetória
Moisés foi revelado no Bonsucesso, sendo prospectado em 1968 pelo Flamengo. Realizou inicialmente nove partidas como flamenguista, incluindo a estreia de Garrincha pelos rubro-negros. Seriam ao todo apenas quinze jogos de Moisés pelo clube, mas ele valorizava a experiência: "Flamengo dá currículo. Qualquer menino que um dia bater bola na Gávea terá emprego garantido em qualquer clube do Brasil".
Ele seguiu no Botafogo a carreira. Com os alvinegros, venceu a Taça Brasil de 1968, o primeiro Brasileirão da história botafoguense.<ref> Em um mesmo jogo de 1970, contudo, ele cometeu a infração cuja cobrança de falta foi convertida em gol e também marcou gol contra. Os dois infortúnios se deram contra o Vasco da Gama, na penúltima rodada do estadual daquele ano. O rival venceu o clássico e sagrou-se campeão após doze anos sem títulos cariocas. Moisés viria a defender na sequência o próprio Vasco e, em novo clássico como Botafogo, chegou a fraturar Jairzinho em 1971. A fama de violento viria a acompanhar o zagueiro, que tanto se aproveitava dela para intimidar oponentes como também rechaçava que fosse verdadeiramente mal intencionado; em 2007, comentou: "eu não era violento não, poucas vezes fui expulso na carreira. Como eu não tinha muita técnica, eu me utilizava da regra do jogo. Jogava de forma dura e fazia as minhas faltas, mas nada de violência. Cheguei até a seleção brasileira (...) e naquela época não era igual a hoje, não. Hoje qualquer um chega".
Sua passagem pela seleção brasileira ocorreu como vascaíno em 1973, restrita a uma partida, em amistoso contra a União Soviética, no Lujniki. Curiosamente, o único gol foi justamente de Jairzinho. Apesar de não ter feito outras partidas, Moisés ainda seguiu com a delegação para outros jogos, como um em Glasgow contra a Escócia, e preservou até o fim da vida a camisa que utilizara em Moscou. A respeito da lesão em Jairzinho, jurava que "eu não entrei para machucar, não faria isso nunca". Dez anos depois do lance, explicou como puderam se reconciliar ainda em 1972: "nós, que éramos amigos, voltamos a nos cruzar em campo e notei que ele estava diferente. Aí, fui em sua direção e disse com ar sério: 'olha, Jair, a culpa não foi minha, foi da sua valentia [ao não fugir da dividida]. Como você é valente, malandro!'. Depois disso, a gente voltou às boas".
Moisés reputava a estadia no Vasco como a melhor da carreira justamente por ter defendido o Brasil e pelo título brasileiro de 1974. Permaneceu no clube até 1976, quando foi então negociado com o Corinthians. Naquele ano, integrou o elenco vice-campeão brasileiro, em campanha marcada pela invasão corintiana. Em 2006, rememorava que "Foi realmente incrível o que aconteceu naquele dia. A torcida do Corinthians sempre foi fantástica". Em 1977, foi um dos protagonistas do fim do jejum de décadas que o clube vinha amargando no campeonato paulista, conquistado mesmo diante de uma Ponte Preta vista como melhor tecnicamente na comparação dos dois elencos.
Em 1978, Moisés teve então uma passagem pelo Paris Saint-Germain. A estadia durou aproximadamente seis meses e não era valorizada por ele, que em 2007 contextualizou que a Ligue 1 de então possuiria "nível fraco, fraquíssimo", com "público pequeno" e que os clubes franceses "não pagavam grandes coisas". O zagueiro foi o segundo brasileiro da história do PSG, antecedido apenas por Joel Camargo.
No segundo semestre de 1978, ele regressou ao Flamengo, integrando a campanha campeã carioca daquele ano; embora fotografado com a faixa de campeão, ele participou de uma única partida, nos 9–0 contra a Portuguesa da Ilha. Havia sido contratado para ser o capitão, mas tomou a iniciatava de repassar a braçadeira a Paulo César Carpegiani ao não se ver benquisto pelos novos colegas. Sua volta ao Rio de Janeiro vinha sendo buscada por ele quando ainda defendia o Corinthians, por saudades sentidas da praia e da pesca submarina.
Moisés fez em fevereiro de 1979 sua última partida pelo Flamengo. Em abril daquele ano, estreou pelo Fluminense, tornando-se ali o primeiro futebolista a defender os quatro grandes do Rio de Janeiro. Como tricolor, participou dos dois estaduais daquela temporada: a estreia foi válida pelo chamado torneio carioca especial e a despedida, em julho, foi pelo carioca unificado. Nos meses seguintes de 1979, reforçou a Portuguesa de Desportos.
Ele acertou com o Bangu em 1980, pelo qual foi premiado com a Bola de Prata como melhor zagueiro do Brasileirão de 1981. Parou de jogar em 1983 neste mesmo time; ele vinha deliberadamente fazendo contratos semestrais com cada clube desde que recebera passe livre de Vicente Matheus, mas prolongou-se nos alvirrubros ao "ser enrolado pelo maior malandro que conheceu na vida", em referência humorada a Castor de Andrade. Ainda em 1983, foi oficializado como técnico no Bangu, após anos em que vinha conciliando o trabalho de jogador com o de técnico das divisões de base alvirrubras.
Seu trabalho como técnico no Bangu foi rapidamente reconhecido, recolocando a equipe continuamente na disputa por títulos; pelo estadual de 1983, sua equipe chegou a golear por 6–2 o Flamengo no primeiro turno e a aspirar seriamente ao título do segundo turno, perdido precisamente em jogo-extra com os rubro-negros. Mesmo sem vencer os turnos, a equipe era a de melhor campanha na soma de ambos e, pelo regulamento da época, foi contemplada com presença em triangular com os vencedores para definição do título, chegando a ser dado como o time favorito à conquista. Ela não veio, mas a equipe venceu em 1984 a Copa do Presidente da Coreia do Sul em trajetória que incluiu triunfo sobre o Bayer Leverkusen. Em 1985, o Bangu de Moisés foi vice-campeão tanto do Brasileirão daquele ano como também do estadual, sendo dado como favorito a assumir o cargo do treinador da seleção brasileira após a passagem de Evaristo de Macedo. Naqueles anos, o Bangu chegou a emendar dez partidas seguidas sem perder para o Vasco, entre 1983 e 1986.
O vínculo com o Bangu se encerrou com o desencanto causado pela campanha ruim na Copa Libertadores da América de 1986, com Moisés tomando a iniciativa ao notar que que afeição pessoal que Castor de Andrade desenvolvera pelo técnico tornava o dirigente relutante em demiti-lo. Após deixar o Bangu, venceu títulos estaduais com Santa Cruz e Ceará e teve trabalhos também no Atlético Mineiro, no America e no Belenenses, além de equipes do Oriente Médio.
Frases
Em meio à carreira no futebol, Moisés destacou-se também pelas suas declarações e frases de efeito; apesar de entusiasta do desfile travestido com o bloco "das Piranhas", ao mesmo tempo declarava que "subúrbio, meu irmão, é família. Zona Sul, aqui no Rio, é liberação geral de costumes. Por isso, não saio do subúrbio, não". Na de maior repercussão, opinava que zagueiros efetivamente seguros para suas equipes não deveriam aspirar ao Prêmio Belfort Duarte, outorgado aos disciplinados.
Algumas outras declarações de Moisés também receberam registros especiais na imprensa:
"Nenhum juiz expulsa ninguém nos dez primeiros minutos" ou "Em começo de jogo, juiz algum mostra cartão vermelho. Então, o negócio é arrepiar de cara". "Dentro de campo eu esqueço até que tenho mãe." "Como eu não tinha muita técnica, eu me utilizava da regra do jogo." "Jogador de futebol é um despreparado. Nasce pobre, cresce pobre. Quando ganha a primeira grana, compra um carro, que vai dobrar sua despesa. Depois, compra uma casa para os pais - mais despesa. Quando se safa, é hora de casar - outra casa. Quando se livra das dívidas e começa a pensar no futuro, já passou dos 30. Quer dizer: não sobra nada para ele, a não ser batalhar uma de técnico. Mas, como ele é um despreparado, geralmente dança. É o chamado círculo vicioso". "Presidente, ainda não vi a cor do meu décimo terceiro salário e desconfio que o senhor se esqueceu de depositar o meu fundo de garantia. Enquanto isso, lá fora, tem um montão de repórteres malucos por uma boa notícia. O que o senhor acha?" - ao então presidente vascaíno, que segundo Moisés teria aceitado "na mesma hora" atender aos pedidos do jogador. "Jornalista de São Paulo é diferente de jornalista do Rio. É mais chegado a malhar. Lá, para se dar bem, é preciso ser esperto. Eu sou: fui a São Paulo e venci." "Comigo atacante não tem colher de chá." "Técnico tem que assumir todo, ser amigo, pai, mãe. Agora, se o time for mal, técnico deve ser o primeiro a espirrar, pois não é patrimônio do clube, como os jogadores." "Cabeça de jogador é uma coisa, teoria é completamente diferente. Estratégias e táticas são ilusões teóricas que uns marcianos ficam elaborando." "O zagueiro tem que ser respeitado. O atacante tem que saber que está sendo marcado duro, nunca deslealmente." "Treinador durão só dá certo mesmo se o jogador é burro." "Ele não falou que não podia fazer omelete sem ovos? Ora, isso é um desrespeito com os craques do Vasco; depois, mesmo que fosse verdadeira a alegação, ele devia ao menos dar um paladar a essa omelete." - para devolver provocação do então treinador vascaíno Otto Glória, que insinuara que o sucesso do Bangu treinado por Moisés em 1983 se deveria mais a uma má fase dos principais clubes do que por méritos próprios dos alvirrubros. "Foi brincadeira o que aconteceu, tudo premeditado. Contra o Coritiba, o Marinho recebeu logo depois do meio-campo, entrou cara a cara e fez o gol. O bandeira nem anulou, mas o juiz marcou impedimento do lance só depois do gol. Nunca vi isso. Já no Estadual contra o Fluminense o Vica agarrou o Cláudio Adão na área, um pênalti claro. Mas aí o árbitro José Roberto Wright disse que já tinha encerrado o jogo. Aí fica difícil" - para justificar as perdas nas finais do Brasileirão de 1985 e do torneio carioca do mesmo ano.
Títulos Botafogo Campeonato Brasileiro: 1968 (Taça Brasil) Vasco da Gama Campeonato Brasileiro: 1974 Corinthians Campeonato Paulista: 1977 Flamengo Campeonato Carioca: 1978
Morte