Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira (Nazarezinho, 1900 – Currais Novos, 29 de outubro de 1928), foi um cangaceiro paraibano que atuou no sertão nordestino durante a década de 1920. É considerado um dos principais cangaceiros naturais da Paraíba, tendo sua trajetória relacionada principalmente a conflitos de vingança familiar e, posteriormente, à atuação em bandos de cangaceiros no sertão dos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.
Sua trajetória foi registrada posteriormente pelo seu filho, o padre Francisco Pereira da Nóbrega, no livro Vingança, não, publicado em 1960. A obra tornou-se uma das principais fontes para a construção da memória de Chico Pereira, embora pesquisas posteriores tenham recorrido também a jornais publicados durante a vida do cangaceiro para confrontar e ampliar essa narrativa.
Biografia
Chico Pereira nasceu em 1900 na fazenda Jacú, no distrito de Nazareth (hoje município de Nazarezinho, Paraíba) e pertencia a uma família sertaneja econômica e politicamente bem posicionada. Chico Pereira era filho de João Pereira da Silva, um proprietário rural que detinha a patente de Coronel da Guarda Nacional e também atuava como delegado de polícia do distrito de Nazareth.
A trajetória de Chico Pereira está diretamente relacionada ao assassinato de seu pai, João Pereira da Silva, ocorrido em 1922. Segundo a narrativa preservada por Francisco Pereira da Nóbrega e analisada pela historiografia, o episódio de vingança contra os responsáveis pela morte do pai foi determinante para sua entrada no cangaço.
Assasinato do pai e entrada no cangaço Durante a construção do açude de São Gonçalo, ocorreu um conflito entre o pai de Chico Pereira e João Ferreira da Rocha, um líder estabelecido em Sousa. Eles estavam em competição pelo poder na área onde o projeto do açude estava em andamento, o qual prometia transformar a região na mais rica do alto sertão paraibano. O resultado dessa disputa foi o homicídio de João Pereira da Silva. Na tarde do dia 11 de setembro de 1922, quatro homens armados invadiram seu negócio. Um deles conseguiu escapar, Zé Dias, e passou a viver em fuga da lei. O padre Chico Pereira relata que seu avô faleceu pedindo “Vingança, Não”, frase que se tornou o título de seu livro. Chico Pereira resolveu capturar o responsável pela morte de seu pai, mas, por ordem da justiça, o assassino foi libertado. Insatisfeito com essa decisão, dizem que ele decidiu acabar com a vida do criminoso no local da obra do açude de São Gonçalo, em outubro de 1923. Contudo, não existem evidências para corroborar essa afirmação.
Após o assassinato de seu pai, Chico Pereira passou a perseguir os responsáveis pelo crime. O processo de vingança acabou contribuindo para sua aproximação com o cangaço, fenômeno que naquele período possuía forte presença no sertão nordestino.
A pesquisa acadêmica sobre sua trajetória aponta que o ingresso no cangaço deve ser compreendido inicialmente dentro da lógica da vingança, antes de sua transformação em um cangaceiro convencional. O episódio tornou-se posteriormente um dos elementos centrais da memória construída sobre sua vida.
Ataque a Sousa
Em 1924, Chico Pereira participou do ataque à cidade de Sousa, na Paraíba, realizado por um grupo associado a Lampião. O episódio marcou uma mudança importante em sua trajetória, pois, após o ataque, passou a ser alvo de perseguições policiais mais intensas.
Pesquisas baseadas em jornais da época registram a participação de Chico Pereira em ações de banditismo e ataques realizados em diferentes regiões do sertão. Sua atuação alcançou notoriedade suficiente para ser registrada pela imprensa de outros estados brasileiros.
Após o episódio de Sousa, Chico Pereira passou a atuar de maneira mais sistemática no cangaço, formando e comandando um grupo próprio. Seu campo de atuação concentrou-se principalmente nas regiões sertanejas próximas às fronteiras entre Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.
Atuação como cangaceiro
A trajetória de Chico Pereira durante os anos seguintes é registrada por diferentes jornais brasileiros. Uma reportagem publicada pelo Diário da Noite, de São Paulo, em novembro de 1927, descreveu Chico Pereira como um cangaceiro que havia adquirido notoriedade e que era alvo de uma operação policial nas proximidades de Pombal.
A imprensa da época também destacava seu modo de vestir. Segundo uma reportagem publicada em 1927, Chico Pereira utilizava chapéu de abas largas, pistola, cartucheiras e lenço no pescoço, combinando elementos associados à imagem do Velho Oeste norte-americano com peças tradicionais do sertão nordestino.
A descrição jornalística também o apresentava como um cavaleiro habilidoso e como alguém que demonstrava disposição para situações de risco. Essas representações contribuíram para a construção da imagem de Chico Pereira na imprensa contemporânea aos acontecimentos.
Perseguição policial
A atuação de Chico Pereira fez com que forças policiais paraibanas realizassem operações destinadas à sua captura. Em outubro de 1927, ocorreu um cerco policial na fazenda Pau Ferrado, nas proximidades de Pombal.
Segundo relatos preservados sobre o episódio, Chico Pereira conseguiu escapar do cerco realizado pelas forças policiais. A operação tornou-se um dos episódios mais conhecidos de sua trajetória final no cangaço.
A perseguição continuou durante o ano seguinte. Em 1928, as autoridades intensificaram os esforços para capturá-lo, culminando em sua prisão na cidade de Cajazeiras.
Prisão e morte
Após muitos anos de participação no cangaço, apesar de ter processos pendentes na Paraíba, nas cidades de Sousa, Princesa e Pombal, assim que foi detido, o governador do Estado, João Suassuna, providenciou sua transferência para o Rio Grande do Norte. O governo estadual estava sob o controle de um familiar de sua esposa, Juvenal Lamartine. Com apenas 28 anos, ele sofreu um alegado acidente de carro na cidade de Currais Novos. No entanto, acredita-se que se tratou de uma eliminação de provas que foi organizada na sede do governo do Rio Grande do Norte, realizada pelo tenente Joaquim Moura.
Relatos sobre sua captura e morte apresentam diferentes versões quanto às circunstâncias exatas dos acontecimentos. A documentação e a memória posterior sobre o episódio foram objeto de análise em pesquisas dedicadas especificamente à trajetória do cangaceiro.
Chico Pereira morreu em 29 de outubro de 1928, aos 28 anos de idade.
Memória
A memória de Chico Pereira foi fortemente influenciada pelo livro Vingança, não, escrito por seu filho, Francisco Pereira da Nóbrega, e publicado em 1960. A obra apresentou uma narrativa sobre as circunstâncias que levaram o pai do autor ao cangaço e exerceu grande influência sobre as representações posteriores do personagem.
Pesquisas acadêmicas posteriores procuraram confrontar essa memória com documentos contemporâneos, especialmente jornais publicados entre 1924 e 1928. Essa abordagem revelou diferenças entre a imagem de Chico Pereira construída posteriormente e a maneira como ele era retratado pela imprensa de sua época.
A historiografia sobre Chico Pereira, portanto, apresenta diferentes perspectivas sobre sua trajetória. Enquanto a memória familiar enfatiza o caráter de vingança associado ao seu ingresso no cangaço, a documentação jornalística registra posteriormente sua transformação em integrante de um grupo armado envolvido em diferentes episódios de violência e perseguição policial.
Ver também Cangaço Lampião Antônio Silvino Coronelismo História da Paraíba Sousa (Paraíba)
Bibliografia
GUIMARÃES, Bruno Sérgio Bezerra Arnoud. Flagelos do Sertão: Chico Pereira e o cangaço de vingança no Nordeste brasileiro. Trabalho de Conclusão de Curso — Universidade Federal da Paraíba. NÓBREGA, Francisco Pereira da. Vingança, não. 1960.
Categoria:Bando de Lampião Categoria:Nascidos em 1900 Categoria:Mortos em 1928