Abu Nuaime de Ispaã, nome completo Abu Nuaime Amade ibne Abedalá ibne Isaque Alisfaani (; Ispaã, Rajabe de 336 A.H./janeiro–fevereiro de 948 – 20 de Moarrão de 430 A.H./22 de outubro de 1038), foi um estudioso muçulmano de origem persa, conhecido sobretudo como hafiz de hádice, historiador e estudioso do sufismo. Proveniente de uma família ligada aos estudos religiosos e ao ascetismo, tornou-se uma das principais autoridades de seu tempo na transmissão de hádices. Embora tradicionalmente associado ao sufismo, é também caracterizado como historiador dessa tradição, à qual dedicou sua obra mais célebre, Ḥilyat al-awliyāʾ wa-ṭabaqāt al-aṣfiyāʾ.
Iniciou os estudos de hádice ainda na infância e realizou extensas viagens de formação pelo Iraque, Hejaz, Hircânia, Coração e outras regiões do mundo islâmico, reunindo tradições de numerosos mestres. Sua longevidade e o contato precoce com estudiosos de gerações anteriores proporcionaram-lhe cadeias de transmissão particularmente elevadas, atraindo a Ispaã estudiosos interessados em transmitir hádices por sua autoridade. Apesar de sua reputação, seus métodos foram objeto de críticas, sobretudo pela inclusão de tradições fracas ou fabricadas em algumas compilações. Envolveu-se ainda numa prolongada controvérsia com seu conterrâneo Ibne Manda, relacionada às rivalidades entre tradicionalistas hambalitas e xafeítas de Ispaã e a divergências sobre os atributos divinos e a recitação do Alcorão. Sua própria posição doutrinária foi interpretada de maneiras diferentes por autores posteriores, que ora o aproximaram do axarismo, ora das concepções dos primeiros tradicionalistas.
Abu Nuaime deixou extensa produção nos campos do hádice, história, biografia, sufismo e credo. Além do Ḥilyat al-awliyāʾ, coleção biográfica de centenas de ascetas e sufis que exerceu influência sobre a literatura posterior, escreveu Dhikr akhbār Iṣbahān ou Tārīkh Iṣbahān, importante obra sobre a história e os estudiosos de Ispaã, Maʿrifat al-ṣaḥāba, sobre os companheiros de Maomé, e Dalāʾil al-nubuwwa, dedicado às provas da missão profética de Maomé. Compôs ainda numerosas coleções especializadas de hádices e tratados sobre o imamado, os atributos divinos e outras questões doutrinárias. Parte considerável de sua produção foi preservada, enquanto outras obras são conhecidas apenas por referências posteriores ou apresentam problemas de atribuição.
Vida
Abu Nuaime Amade ibne Abedalá ibne Isaque Alisfaani nasceu em Ispaã em Rajabe de 336 A.H. (janeiro–fevereiro de 948), embora algumas fontes situem seu nascimento em 330 A.H. (941–942) ou 334 A.H. (945–946). Pertencia a uma família de origem persa convertida ao islã. Um de seus antepassados, Mirane, teria abraçado a religião por influência de Abedalá ibne Moáuia, neto de Jafar ibne Abi Talibe. Pela linhagem materna de seu pai, descendia de , asceta de Ispaã morto em 184 A.H. (800) e conhecido como Arūs al-zuhhād, cuja escola de ascetismo ainda permanecia ativa na época de Abu Nuaime. Seu pai, , morto em 365 A.H. (976), era um hafiz de hádice que havia viajado pela Síria e pelo Iraque para coletar tradições.
Criado em Ispaã, então um importante centro de estudos islâmicos, Abu Nuaime começou a estudar hádice aos oito anos. Entre seus primeiros mestres estavam e , enquanto seu pai obteve em seu nome licenças de transmissão de diversos estudiosos residentes fora da cidade, entre eles Caitama ibne Solimão, Abu Alabás Alaçame e . Em 356 A.H. (967), iniciou uma viagem de estudos durante a qual passou por , Tustar, Avaz, Baçorá, Uacite, Cufa, Baguedade, Meca e Aila, recebendo tradições dos estudiosos que encontrou nesses centros. Entre os tradicionalistas com quem estudou estavam , , Atabarani e . Pretendia viajar também para a Síria, mas, segundo a TDV, as perturbações provocadas pelos fatímidas impediram-no de realizar esse propósito.
Provavelmente durante uma segunda viagem, Abu Nuaime percorreu ainda as regiões da Hircânia e Coração, estudando hádice com eruditos de Gurgã, Nixapur e outros centros. Ao longo de sua formação reuniu tradições de grande número de mestres, alguns dos quais passaram a ser conhecidos posteriormente apenas por meio de suas transmissões, e dedicou-lhes uma obra intitulada Muʿjam al-shuyūkh. Entre os numerosos estudiosos que, por sua vez, transmitiram tradições dele encontravam-se , , e , este último responsável pela transmissão de quase toda a sua produção. A longevidade de Abu Nuaime fez com que muitas das tradições que preservava apresentassem cadeias de transmissão particularmente elevadas, circunstância que atraiu a Ispaã estudiosos interessados em ouvi-las diretamente dele.
Abu Nuaime morreu em Ispaã em 20 de Moarrão de 430 A.H. (22 de outubro de 1038). As fontes posteriores concordam em destacar sua importância como tradicionalista, historiador e estudioso associado ao sufismo, embora a natureza dessa última vinculação tenha sido interpretada de maneiras diferentes. A TDV considera mais adequado caracterizá-lo como historiador do sufismo conhecido por seu ascetismo e piedade do que propriamente como um sufi, observando que ele não figura nas obras clássicas de tabaqat dedicadas aos sufis. Sua reputação como estudioso de hádice foi igualmente elevada: a amplitude de suas transmissões e a longevidade fizeram dele uma importante autoridade para gerações posteriores, ainda que alguns aspectos de seus métodos de transmissão e da seleção das tradições incluídas em suas obras tenham sido objeto de críticas.
Atividade acadêmica e pensamento
Abu Nuaime alcançou grande reputação como estudioso de hádice, sobretudo pela amplitude de suas transmissões e pela posse de tradições com cadeias de transmissão elevadas, favorecida por sua longevidade e pelo contato, desde a infância, com estudiosos de gerações anteriores. Sua autoridade nesse campo, contudo, não permaneceu inteiramente isenta de críticas. Alcátibe Albaguedadi censurou-o pelo emprego que considerava inadequado de alguns termos técnicos do hádice. Adaabi rejeitou essa acusação e sustentou que Abu Nuaime conhecia bem as ciências do hádice, mas reconheceu como deficiência a inclusão em suas obras de tradições fabricadas sem indicação de sua falsidade. A própria natureza de suas compilações variava nesse aspecto: enquanto em obras como Ḥilyat al-awliyāʾ transmitiu grande quantidade do material que havia recebido, incluindo relatos fracos ou fabricados, em trabalhos como Tathbīt al-imāma e Maʿrifat al-ṣaḥāba procurou realizar uma seleção mais rigorosa das tradições.
Uma das controvérsias mais importantes de sua carreira envolveu seu contemporâneo e conterrâneo Ibne Manda. A disputa ocorreu num ambiente marcado pela rivalidade entre tradicionalistas hambalitas e xafeítas de Ispaã e assumiu simultaneamente dimensões pessoais e doutrinárias. Ibne Manda, identificado com as posições dos primeiros tradicionalistas, dirigiu acusações severas contra Abu Nuaime, que respondeu de modo igualmente crítico. Autores posteriores que estimavam ambos os estudiosos, entre eles Adaabi, reprovaram a linguagem empregada na polêmica. Segundo a TDV, a hostilidade dos estudiosos hambalitas contra Abu Nuaime relacionava-se sobretudo com sua dedicação ao calâm e com a percepção de que apoiava posições axaritas, enquanto autores xafeítas posteriores, como , Alcátibe Albaguedadi, Adaabi e , procuraram responder às acusações feitas contra ele. Açubequi chegou a apresentá-lo como estudioso que conciliava jurisprudência e sufismo e a elogiar de maneira particularmente elevada sua memória, precisão e conhecimento das tradições.
A controvérsia atingiu especialmente a interpretação dos atributos divinos e a questão da recitação do Alcorão. Abu Nuaime criticava os hambalitas por entenderem literalmente expressões corânicas e tradições que envolviam comparação entre Deus e características humanas, enquanto Ibne Manda o acusava de professar uma doutrina incompatível com a tradição religiosa. A disputa dividiu os estudiosos de hádice xafeítas e hambalitas de Ispaã e teve consequências práticas para Abu Nuaime: seus discípulos hambalitas romperam relações com ele e impediram sua entrada na principal mesquita da cidade. afirmou posteriormente que Abu Nuaime chegou a ser expulso de Ispaã e acabou morto por seus adversários, informação incompatível com os relatos que situam sua morte na cidade em 430 A.H. (1038). Uma tradição associada ao conflito relata ainda que, em 420 A.H. (1029), quando as tropas de Maçude I de Gásni realizaram um massacre na mesquita, a ausência de Abu Nuaime do edifício foi interpretada por seus partidários como uma demonstração de sua carama.
A posição doutrinária de Abu Nuaime foi objeto de interpretações divergentes entre autores posteriores. incluiu-o entre os axaritas, e Ibne Aljauzi atribuiu-lhe inclinação ao axarismo. Ibne Taimia, por sua vez, apresentou avaliações distintas em diferentes obras. Ao tratar da controvérsia entre Abu Nuaime e Ibne Manda acerca da recitação do Alcorão, afirmou que o primeiro considerava criada a recitação e que se opusera às posições de Ibne Manda; em outro contexto, porém, classificou Abu Nuaime como partidário de Amade ibne Hambal e registrou sua declaração de que seguia o caminho dos primeiros muçulmanos, fundamentado no Alcorão, na Suna e no consenso da comunidade. Ibne Taimia também interpretou a divergência sobre a recitação como essencialmente terminológica: Ibne Manda teria empregado o termo para designar o próprio Alcorão recitado, que considerava incriado, enquanto Abu Nuaime se referia à voz produzida pelo recitador, que considerava criada. Uma interpretação semelhante foi posteriormente defendida por Ali Maomé ibne Nácer Alfaqui.
A análise de obras preservadas ou de excertos transmitidos por autores posteriores tampouco permite atribuir-lhe de maneira inequívoca um sistema teológico próprio. Seus escritos relacionados ao credo incluem al-Muʿtaqad ou al-Iʿtiqād, al-Ṣifāt, Tathbīt al-imāma, Dalāʾil al-nubuwwa, Ṣifat al-janna, al-Fitan, Dhikr al-Mahdī wa-nuʿūtuh e um tratado de refutação relacionado à controvérsia sobre a recitação e os atributos divinos. A TDV considera que as obras que podem ser examinadas não revelam concepções originais sistemáticas em matéria de calâm. Além disso, a pouca seletividade demonstrada por Abu Nuaime em parte das tradições que reuniu permitiu que representantes de correntes doutrinárias distintas encontrassem em seus escritos material compatível com suas próprias posições, circunstância que contribuiu para as classificações contraditórias que lhe foram atribuídas posteriormente. Também houve autores xiitas que procuraram vinculá-lo ao xiismo, apoiando-se sobretudo nas tradições relativas a Ali preservadas no Ḥilyat al-awliyāʾ e em algumas obras que lhe foram atribuídas. A TDV considera insuficientes esses argumentos. Além de a presença de determinada tradição no Ḥilyat não implicar necessariamente adesão de Abu Nuaime ao seu conteúdo, seu Tathbīt al-imāma contém críticas aos xiitas que atacavam os companheiros. A atribuição a Abu Nuaime de Mā nazala min al-Qurʾān fī Amīr al-muʾminīn ʿAlī ibn Abī Ṭālib, utilizada como outro argumento para associá-lo ao xiismo, aparece apenas em autores xiitas e não é mencionada entre seus escritos pelas demais fontes, razão pela qual sua autoria é considerada duvidosa.
Obras