Alergia a peixe é uma hipersensibilidade imunológica às proteínas encontradas em peixes. Os sintomas podem surgir de forma rápida ou gradual. Neste último caso, eles podem levar horas ou dias para aparecer. A manifestação de início rápido pode incluir anafilaxia, uma condição potencialmente fatal que requer tratamento com epinefrina. Outras manifestações podem incluir dermatite atópica ou inflamação do esôfago. O peixe é um dos oito alérgenos alimentares comuns responsáveis por 90% das reações alérgicas a alimentos: leite de vaca, ovos, trigo, crustáceos, amendoims, nozes e outras castanhas, peixes e soja.

Ao contrário das reações alérgicas ao leite e aos ovos que surgem na primeira infância e que frequentemente diminuem à medida que as crianças crescem, a alergia a peixes tende a surgir pela primeira vez em crianças em idade escolar e persistir na idade adulta. Os principais fatores preditivos da persistência na idade adulta são a anafilaxia, níveis elevados de imunoglobulina E (IgE) específica para peixes no soro sanguíneo e uma resposta intensa ao teste cutâneo de puntura. Não está claro se a introdução precoce de peixes na alimentação de bebês entre 4 e 6 meses de idade reduz o risco de desenvolvimento posterior de alergia a peixes. O surgimento da alergia a peixes na idade adulta é comum entre trabalhadores da indústria de pesca e processamento de peixes. Sinais e sintomas 350px|right|Sinais e sintomas da anafilaxia As alergias alimentares, em geral, costumam apresentar início dos sintomas entre minutos e horas no caso de uma resposta mediada por IgE, que pode incluir anafilaxia. Os sintomas podem incluir erupção cutânea, urticária, coceira na boca, nos lábios, na língua, na garganta, nos olhos, na pele ou em outras áreas, inchaço dos lábios, da língua, das pálpebras ou de todo o rosto, dificuldade para engolir, coriza ou congestão nasal, voz rouca, sibilância, falta de ar, diarreia, dor abdominal, tontura, desmaio, náusea ou vômito. As respostas não mediadas por IgE ocorrem horas ou dias após o consumo do alimento alergênico e não são tão graves quanto os sintomas mediados por IgE. Os sintomas das alergias variam de pessoa para pessoa e de um episódio para outro.

Potencialmente fatal, o início anafilático de uma reação alérgica caracteriza-se por dificuldade respiratória, indicada por sibilância, dificuldade para respirar e cianose, além de comprometimento circulatório, que pode incluir pulso fraco, pele pálida e desmaio. Isso pode ocorrer quando anticorpos IgE são liberados e áreas do corpo que não estão em contato direto com o alérgeno alimentar apresentam sintomas graves. Sem tratamento, a resposta geral pode levar à vasodilatação, resultando em uma situação de baixa pressão arterial denominada choque anafilático.

Causas Consumo de peixe A causa geralmente é o consumo de peixe ou de alimentos que contenham peixe. Depois que ocorre uma reação alérgica, ela normalmente permanece como uma sensibilidade ao longo de toda a vida. Em termos gerais, o sistema imunológico reage excessivamente às proteínas encontradas nos peixes, principalmente à parvalbumina, mas, às vezes, a outras proteínas, como o colágeno de peixe. A reação alérgica a frutos do mar e crustáceos, como lagosta e camarão, ocorre em resposta a uma proteína diferente, a tropomiosina, portanto não há reatividade cruzada entre a alergia a peixes e a alergia a frutos do mar.

Contato cruzado O contato cruzado, também denominado contaminação cruzada, ocorre quando os alimentos são processados em fábricas ou mercados de alimentos, ou quando são preparados para o cozimento em restaurantes e cozinhas domésticas. As proteínas alergênicas são transferidas de um alimento para outro. Parasita de peixes thumb|Nematódeo Anisakis desenrolado (aproximadamente dois centímetros) em salmão cru O parasita transmitido por alimentos Anisakis é um gênero de nematódeos conhecido por estar presente em peixes marinhos que atuam como hospedeiros intermediários, em peixes anádromos que migram dos oceanos para os rios para se reproduzir e em lulas. Os Anisakis são diretamente infecciosos para os seres humanos quando peixes ou lulas infectados são consumidos crus ou submetidos a processamento leve, causando uma condição denominada anisaquíase. Os sintomas incluem dor abdominal intensa, náusea e vômito. Além disso, pode ocorrer uma reação alérgica às proteínas de Anisakis, mesmo que o alimento em questão tenha sido congelado, o que mata os nematódeos, ou cozido antes do consumo, pois algumas das proteínas dos nematódeos são resistentes ao calor. As reações alérgicas podem incluir urticária, asma e reações anafiláticas verdadeiras.

Exposição ocupacional Uma revisão do setor realizada em 1990 estimou que 28,5 milhões de pessoas em todo o mundo estavam envolvidas em alguma atividade da indústria de frutos do mar: pesca, aquicultura, processamento e preparação industrial de alimentos. Os homens predominam na pesca, enquanto as mulheres predominam nas instalações de processamento. A exposição às proteínas alergênicas dos peixes inclui a inalação de aerossóis úmidos durante o manuseio de peixes frescos, a inalação de aerossóis secos durante o processamento de farinha de peixe e o contato dérmico através de fissuras e cortes na pele. A prevalência de asma em adultos induzida por frutos do mar é da ordem de 10%, sendo maior para crustáceos e menor para peixes. A prevalência de reações alérgicas cutâneas, frequentemente caracterizadas por erupção cutânea com coceira (urticária), varia de 3% a 11%. Os efeitos dos peixes sobre a saúde devem-se principalmente à proteína parvalbumina, que provoca uma resposta do sistema imunológico mediada por IgE. Exercício como fator contribuinte O exercício pode contribuir para uma reação alérgica alimentar. Existe uma condição denominada anafilaxia induzida por exercício dependente de alimento. Em pessoas com essa condição, o exercício isoladamente não é suficiente, assim como o consumo de um alimento ao qual apresentam alergia leve também não é suficiente, mas, quando o alimento em questão é consumido algumas horas antes de exercícios de alta intensidade, o resultado pode ser uma anafilaxia. Os peixes são mencionados especificamente como um alimento causador. Uma teoria é que o exercício estimule a liberação de mediadores, como a histamina, pelos mastócitos ativados por IgE. Duas das revisões postulam que o exercício não é essencial para o desenvolvimento dos sintomas, mas sim um dos vários fatores de potencialização, citando evidências de que o alimento causador, combinado com álcool ou aspirina, pode resultar em uma reação anafilática respiratória. Mecanismos Resposta alérgica As condições causadas por alergias alimentares são classificadas em três grupos de acordo com o mecanismo da resposta alérgica:

Mediada por IgE (clássica) – o tipo mais comum, manifestando alterações agudas que ocorrem pouco depois da ingestão e que podem evoluir para anafilaxia

Não mediada por IgE – caracterizada por uma resposta imunológica que não envolve a imunoglobulina E; pode ocorrer horas ou dias após a ingestão, dificultando o diagnóstico

Mediada por IgE e não mediada por IgE – uma combinação dos dois tipos anteriores

As reações alérgicas são respostas hiperativas do sistema imunológico a substâncias geralmente inofensivas, como as proteínas alimentares. Não está inteiramente claro por que algumas proteínas desencadeiam reações alérgicas enquanto outras não. Uma teoria sustenta que as proteínas que resistem à digestão no estômago, alcançando assim o intestino delgado relativamente intactas, têm maior probabilidade de serem alergênicas, mas estudos demonstraram que a digestão pode eliminar, diminuir, não afetar ou até aumentar a alergenicidade dos alérgenos alimentares. O calor do cozimento degrada estruturalmente as moléculas de proteínas, podendo torná-las menos alergênicas.

A fisiopatologia das respostas alérgicas pode ser dividida em dois períodos. O primeiro é uma resposta aguda que ocorre imediatamente após a exposição a um alérgeno. Essa fase pode desaparecer ou evoluir para uma "reação de fase tardia", que pode prolongar substancialmente os sintomas de uma resposta e resultar em maior dano tecidual. Nos estágios iniciais da reação alérgica aguda, linfócitos previamente sensibilizados a uma proteína específica ou a uma fração proteica reagem produzindo rapidamente um tipo específico de anticorpo conhecido como IgE secretada (sIgE), que circula no sangue e se liga a receptores específicos para IgE na superfície de outros tipos de células imunológicas, chamadas mastócitos e basófilos. Ambos estão envolvidos na resposta inflamatória aguda. Os mastócitos e basófilos ativados passam por um processo chamado desgranulação, durante o qual liberam histamina e outros mediadores químicos inflamatórios, chamados citocinas, interleucinas, leucotrienos e prostaglandinas, no tecido circundante, causando vários efeitos sistêmicos, como vasodilatação, secreção de mucosas, estimulação dos nervos e contração da musculatura lisa. Isso resulta em coriza, coceira, falta de ar e, potencialmente, anafilaxia. Dependendo do indivíduo, do alérgeno e da via de introdução, os sintomas podem afetar todo o organismo (anafilaxia clássica) ou ficar localizados em sistemas específicos; a asma fica localizada no sistema respiratório, enquanto a urticária e o eczema ficam localizados na pele. Além da reação à ingestão oral, reações cutâneas e asmáticas podem ser desencadeadas pela inalação ou pelo contato quando há abrasões ou cortes na pele.

thumb|Reação alérgica de urticária no braço

Após o desaparecimento dos mediadores químicos da resposta aguda, podem ocorrer respostas de fase tardia devido à migração de outros leucócitos, como neutrófilos, linfócitos, eosinófilos e macrófagos, para os locais da reação inicial. Isso geralmente ocorre de 2 a 24 horas após a reação original. As citocinas provenientes dos mastócitos também podem desempenhar um papel na persistência dos efeitos a longo prazo. As respostas de fase tardia observadas na asma são ligeiramente diferentes das observadas em outras respostas alérgicas, embora ainda sejam causadas pela liberação de mediadores provenientes dos eosinófilos.

Além das respostas mediadas por IgE, a alergia a peixes pode se manifestar como dermatite atópica, especialmente em bebês e crianças pequenas. Alguns apresentarão ambas as manifestações, de modo que uma criança pode reagir a um teste de provocação alimentar oral com sintomas alérgicos e, um ou dois dias depois, apresentar uma exacerbação da dermatite atópica e/ou sintomas gastrointestinais, incluindo esofagite eosinofílica alérgica. Proteínas alergênicas dos peixes

A proteína parvalbumina foi identificada como o principal alérgeno responsável pela alergia a peixes, mas não pela alergia a frutos do mar, que é causada principalmente pela tropomiosina. A parvalbumina é resistente ao calor e à digestão enzimática, de modo que o cozimento e as enzimas digestivas não reduzem sua potência alergênica.

A maioria dos peixes ósseos apresenta a β-parvalbumina como principal alérgeno, enquanto os peixes cartilaginosos, como tubarãos e raias, apresentam a α-parvalbumina como principal alérgeno; a alergenicidade aos peixes ósseos apresenta baixa reatividade cruzada com os peixes cartilaginosos e também com a carne de galinha.

Os peixes ósseos apresentam, dependendo da espécie, entre 7 e 22 genes combinados para as três linhagens de parvalbumina — alfa, oncomodulina (às vezes denominada beta-1) e beta-2. Embora, na maioria dos peixes ósseos, as parvalbuminas β-2 sejam os principais alérgenos, em algumas espécies de peixes ósseos as α-parvalbuminas são as mais expressas nos músculos e foram identificadas como alérgenos. A nomenclatura dos alérgenos baseia-se parcialmente na ordem em que os alérgenos foram detectados em cada espécie e, portanto, números de alérgenos idênticos em diferentes espécies de peixes nem sempre se referem ao mesmo gene (ver tabela).