António Vasco Rebelo Valente (Porto, 19 de abril de 1883 – Porto, 24 de outubro de 1950), geralmente conhecido como Vasco Valente, foi um museólogo, historiador e crítico de arte português. Especializou-se no estudo das artes decorativas, particularmente da cerâmica produzida no Porto e em Vila Nova de Gaia durante os séculos XVIII e XIX.
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, ingressou na carreira diplomática, que abandonou em 1910 para se dedicar à investigação histórica e artística. Entre 1932 e 1950 dirigiu o Museu Nacional de Soares dos Reis, tendo desempenhado um papel determinante na instalação da instituição no Palácio dos Carrancas e na valorização das suas coleções de artes decorativas.
Biografia
Origens e formação
António Vasco Rebelo Valente nasceu no Porto, em 19 de abril de 1883, numa família pertencente à elite comercial e cultural da cidade. Era filho de José Maurício Rebelo Valente e de Maria Mavildia de Oliveira Braga.
O pai, José Maurício Rebelo Valente (1854–1911), Conselheiro de Sua Majestade e dono de várias propriedades, demonstrou particular interesse pelas artes e pela fotografia. Colaborou na revista Arte Photographica e participou na Exposição Internacional de Fotografia realizada no Palácio de Cristal, no Porto, em 1886.
Colecionador de pintura e mobiliário, José Maurício adquiriu, na Primeira Exposição-Bazar de Belas-Artes do Centro Artístico Portuense, realizada em 1881, a Flor Agreste, célebre busto em mármore de António Soares dos Reis. Uma notícia da imprensa da época, reproduzida num estudo sobre o Centro Artístico Portuense, identifica José Maurício como comprador da obra. O historial oficial da escultura atribui, porém, a aquisição a Maria Francisca Archer, sua mãe, o que indica que José Maurício terá efetuado a compra para esta. A escultura permaneceu na família durante mais de cinquenta anos, tendo sido posteriormente adquirida pela Câmara Municipal do Porto.>
A coleção de José Maurício Rebelo Valente incluía também mais de uma centena de desenhos do pintor Domingos Sequeira, parte dos quais foi vendida em leilão em 1936. Algumas obras com essa proveniência foram posteriormente incorporadas no Museu Nacional de Soares dos Reis.
O avô de Vasco, Joaquim Maria Rebelo Valente (1829–1859), homem culto e viajado, foi pintor amador.
Por sua vez, o bisavô, José Maria Rebelo Valente (1805–1870), partidário da causa de D. Pedro IV, foi um abastado proprietário e comerciante de vinhos da Praça do Porto. Foi, além disso, vereador e vice-presidente da Câmara Municipal do Porto. Em 1862, adquiriu a Quinta do Noval, no Douro, promovendo a renovação das vinhas e a construção de instalações.
Embora não sejam conhecidas memórias autobiográficas que descrevam a sua infância, o colecionismo paterno poderá ter contribuído para o contacto precoce de Vasco Valente com obras de arte, fotografias, antiguidades e objetos de interesse histórico.
Estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde concluiu a licenciatura. Ingressou depois na carreira diplomática, mas abandonou-a em 1910. A partir de então, dedicou-se à investigação nos domínios da história, da história da arte, da genealogia e da heráldica, desenvolvendo estudos em Portugal e no estrangeiro.
Família
Em 31 de janeiro de 1907, Vasco Valente casou no Porto com Maria Emília Guedes Pereira Cabral (1882–1915), filha de Afonso do Vale Coelho Pereira Cabral e de Inês van Zeller Guedes de Carvalho.
O sogro, Afonso do Vale Coelho Pereira Cabral, foi engenheiro-chefe de Vias e Obras dos Caminhos de Ferro do Minho e Douro e diretor das Obras Públicas nos distritos de Braga, Aveiro e Bragança. Foi proprietário das quintas do Cachão e do Paço de Monsul, no Douro, e autor de um estudo sobre a região vinhateira do Alto Douro, publicado pela Imprensa Nacional em 1895. Pelo lado materno, Maria Emília estava ligada às famílias Guedes de Carvalho e Van Zeller, integradas nos meios comerciais, proprietários e vitivinícolas do Norte.
Maria Emília morreu em 10 de fevereiro de 1915, com 32 anos. Não é conhecido um segundo casamento de Vasco Valente.
Museu Nacional de Soares dos Reis
Em 1932, o antigo Museu de Soares dos Reis foi separado administrativamente da Escola de Belas-Artes do Porto e elevado à categoria de museu nacional. Vasco Valente assumiu a sua direção em 1 de agosto desse ano, mantendo-se no cargo até à morte, em 1950.
Durante os seus dezoito anos de direção, promoveu a inventariação, a conservação e o estudo das coleções. Organizou exposições, preparou catálogos e procurou reforçar as secções dedicadas à cerâmica, ao mobiliário, à ourivesaria, ao vidro e a outros domínios das artes decorativas.
O arquivo histórico do museu conserva inventários e correspondência relacionados com a sua administração. Entre os seus correspondentes encontravam-se João Couto, Acácio Lino, Diogo de Macedo, Luís Reis Santos, Julieta Ferrão, Maria José de Mendonça, António Nogueira Gonçalves e o historiador de arte espanhol Francisco Javier Sánchez Cantón.
Transferência para o Palácio dos Carrancas
Uma das principais realizações da direção de Vasco Valente foi a transferência do museu para o Palácio dos Carrancas. O edifício foi adquirido pelo Estado à Santa Casa da Misericórdia do Porto em 1940, após negociações nas quais o diretor teve uma intervenção relevante.
O palácio foi adaptado segundo critérios museográficos então considerados modernos, com melhores condições de iluminação, conservação e apresentação das obras. Foram criadas galerias próprias para pintura e escultura e espaços destinados à apresentação de ambientes históricos.
A nova instalação foi inaugurada em 1942. No mesmo período, o museu recebeu em depósito importantes conjuntos provenientes do Museu Municipal do Porto. A incorporação dessas coleções contribuiu para transformar uma instituição predominantemente dedicada às belas-artes num museu misto, reunindo pintura, escultura, arqueologia e artes decorativas.
Vasco Valente preparou ainda um guia do museu e acompanhou a elaboração de inventários especializados de pintura, desenho, escultura, mobiliário, gravura, joalharia, miniaturas e moedas.
Investigação artística
Cerâmica portuense
Vasco Valente destacou-se principalmente pelo estudo da cerâmica produzida no Porto e em Vila Nova de Gaia durante os séculos XVIII e XIX. Investigou, entre outras, as fábricas de Massarelos, Miragaia, Cavaquinho e Santo António de Vale da Piedade.
Os seus trabalhos combinaram a observação direta das peças — incluindo formas, materiais, decoração e marcas de fabrico — com a consulta de documentação histórica, arquivos familiares, genealogias de proprietários e antigos livros de receitas industriais.
Vasco Valente aprofundou estudos anteriormente desenvolvidos por autores como Joaquim de Vasconcelos, Rocha Peixoto, José Queirós, Pedro Vitorino, Luís de Oliveira e Moreira Cabral. O Museu Nacional de Soares dos Reis atribui-lhe um importante papel na valorização expositiva da cerâmica portuense e no avanço do conhecimento sobre os acervos provenientes dos antigos Museu Municipal do Porto e Museu Industrial e Comercial do Porto.
A sua obra mais conhecida, Cerâmica Artística Portuense dos Séculos XVIII e XIX, foi publicada por volta de 1949. Com 243 páginas, constitui um levantamento das fábricas, coleções, técnicas, marcas e famílias relacionadas com a produção cerâmica da região.
Apesar de algumas das suas conclusões terem sido revistas pela investigação posterior, a obra continua a ser citada em estudos sobre a história da faiança portuguesa.
Outras atividades e interesses
Além da cerâmica, Vasco Valente estudou o vidro, a porcelana, o mobiliário, a pintura, a iconografia, a genealogia e a heráldica. Publicou também trabalhos sobre artistas, oficinas e famílias ligadas à produção artística portuguesa.
Vasco Valente foi também diretor artístico da Fábrica da Vista Alegre, onde promoveu a criação de um museu de cerâmica. Dedicou à porcelana da fábrica uma parte importante do livro Porcelana Artística Portuguesa, publicado em 1949.
Foi membro da Associação dos Arqueólogos Portugueses e do Instituto de Coimbra. A sua investigação genealógica, parte da qual permaneceu inédita, é referida em estudos posteriores sobre famílias portuguesas.
Atividade editorial
Vasco Valente colaborou em diferentes publicações culturais e históricas, entre as quais O Tripeiro. Os seus artigos nessa revista abordaram temas relacionados com a arte, a arqueologia, o património, a história local, a genealogia e a heráldica.
Participou igualmente na direção da Prisma — Revista Trimestral de Filosofia, Ciência e Arte, fundada no Porto em 1936. Na revista publicou, em vários números, estudos sobre fábricas de cerâmica e as famílias responsáveis pela sua exploração.
A partir de 1942, integrou, com Aarão de Lacerda, a direção fundadora de Museu — também grafada MVSEV —, revista de arte, arqueologia e tradições publicada pelo Círculo Dr. José de Figueiredo.
Morte e legado
Vasco Valente morreu no Porto, em 24 de outubro de 1950, aos 67 anos. Foi sucedido interinamente na direção do Museu Nacional de Soares dos Reis pelo escultor Salvador Barata Feyo.
O seu trabalho contribuiu para aproximar a investigação histórico-artística do estudo material dos objetos e da sua organização museológica. A instalação do Museu Nacional de Soares dos Reis no Palácio dos Carrancas e a integração das artes decorativas no respetivo programa expositivo constituem os aspetos mais duradouros da sua administração.
Em sua homenagem foi instituído o Prémio de Artes Decorativas Dr. Vasco Valente, destinado a distinguir trabalhos académicos sobre as artes decorativas portuguesas.
O seu nome integra também a toponímia da cidade do Porto, através da Rua Dr. Vasco Valente.
Descendência
Do casamento de Vasco Valente com Maria Emília Guedes Pereira Cabral nasceram duas filhas:
Maria do Carmo Rebelo Valente da Silva e Menezes (1908–1956); Maria José Cabral Rebelo Valente (1909–1971).
A filha mais velha, Maria do Carmo, casou com Jaime de Olazábal y Mendóça (1904–1982). Por esse casamento, a descendência de Vasco Valente ficou ligada à família Olazábal e à Quinta do Vale Meão, propriedade vitivinícola do Douro. Entre os seus netos encontrava-se Francisco Javier de Olazábal y Rebelo Valente, conhecido como Vito Olazábal, que se tornou o único proprietário da quinta em 1994.
Obras selecionadas
Jerónimo Rossi, Fidalgo Ceramista (1931); À Margem dos Nobiliários (1931); Uma Dinastia de Ceramistas: elementos para a história das fábricas de loiça de Massarelos, Miragaia, Cavaquinho e Santo António de Vale da Piedade (1936); Catálogo dos Desenhos Originais do Pintor Domingos António de Sequeira (1936); Porcelana Artística Portuguesa (1949); Cerâmica Artística Portuense dos Séculos XVIII e XIX (c. 1949); O Vidro em Portugal (1950); Artigos sobre cerâmica, vidro, iconografia, genealogia e património publicados em O Tripeiro, Prisma e Museu.
Ver também
Museu Nacional de Soares dos Reis Palácio dos Carrancas Cerâmica de Portugal Faiança História do Porto
Bibliografia
GLÓRIA, Ana Celeste Nunes da. «António Vasco Rebelo Valente». In: PEREIRA, Elisabete; NUNES, Graça Soares (coord.). Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa. Lisboa: Instituto de História da Arte da Universidade Nova de Lisboa, 2022. PINTO, Diana Felícia. Análise do Arquivo Histórico do Museu Nacional de Soares dos Reis: percursos narrativos. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. SOEIRO, Teresa. «A cerâmica portuense: evolução empresarial e estruturas edificadas». Portugália, 1995. VALENTE, Vasco. Jerónimo Rossi, fidalgo ceramista. Vila Nova de Gaia: Edições Apolino, 1931. VALENTE, Vasco. À Margem dos Nobiliários. Vila Nova de Gaia: edição do autor, 1931.