Linha de Passe é um álbum do cantor, compositor e violonista brasileiro João Bosco, lançado em 1979 pela RCA, com produção de Rildo Hora.BOSCO, João. Linha de Passe. RCA, 1979. 1 LP. Ficha técnica e contracapa. O repertório reúne onze canções compostas por Bosco em parceria com Aldir Blanc, Paulo Emílio ou ambos. Entre elas está O Bêbado e a Equilibrista, posteriormente gravada por Elis Regina no álbum Essa Mulher, também de 1979, e associada naquele ano à campanha pela anistia política.ARQUIVO NACIONAL. “A história de ‘O Bêbado e a Equilibrista’, na voz de Elis Regina”. Memórias Reveladas, 3 nov. 2022.
O disco esteve associado a um espetáculo homônimo apresentado por Bosco em 1979 e recebeu cobertura da imprensa brasileira da época. Ricardo Bueno dedicou ao trabalho uma matéria no periódico Movimento, enquanto José Ramos Tinhorão publicou uma crítica ao álbum no Jornal do Brasil.BUENO, Ricardo. “Linha de Passe: o caminho certo do gol”. Movimento, n.º 205, 4–10 jun. 1979.TINHORÃO, José Ramos. Aldir Blanc faz embaixadas com a poesia em Linha de Passe. Jornal do Brasil, 6 jan. 1979. Posteriormente, o álbum e algumas de suas canções foram abordados em pesquisas acadêmicas sobre a produção de João Bosco e Aldir Blanc e sobre o contexto político-cultural brasileiro do final da década de 1970.LUNARDELLI, Daniel Henrique França. Os cavaleiros e os moinhos: mediações culturais entre o nacional-popular e o tropicalismo na produção musical de João Bosco e Aldir Blanc (1972–1980). Dissertação (Mestrado em História) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2022, p. 103–105 e 148.MAIA, Paulo Roberto de Azevedo. Abertura: televisão e a luta pela democracia no Brasil (1979–1980). Tese (Doutorado em História) — Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2014, p. 147.
Contexto e lançamento
Linha de Passe foi lançado durante o período de abertura política da ditadura militar brasileira, em 1979. Em maio daquele ano, João Bosco participou do programa televisivo Abertura, da Rede Tupi, em uma entrevista conduzida pelo jornalista Sérgio Cabral. Durante a conversa, o cantor discutiu o disco e o espetáculo Linha de Passe e apresentou a ideia expressa pelo título como relacionada ao trabalho coletivo entre as pessoas envolvidas no projeto.
O historiador Paulo Roberto de Azevedo Maia, ao analisar a participação de Bosco no programa, considera que o diálogo empregou referências ao futebol e ao próprio título do álbum de forma alegórica para abordar a ditadura e o processo de abertura política. Segundo Maia, a presença de Bosco no Abertura exemplificou a aproximação promovida pelo programa entre a música popular e o debate sobre a redemocratização.
O álbum também deu nome a um espetáculo de João Bosco. Em junho de 1979, o periódico Movimento informou que o show havia estreado recentemente no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro. A apresentação retomava composições da trajetória de Bosco e Blanc e incorporava o repertório do novo LP.
Composição e repertório
As onze faixas de Linha de Passe foram escritas por João Bosco em parceria com Aldir Blanc e Paulo Emílio. Paulo Emílio participou da composição de seis delas: “Linha de Passe”, “Sudoeste”, “Patrulhando (Mara)”, “Cobra Criada”, “Natureza Viva” e “Patrulhando (Masmorra)”.
“Patrulhando (Mara)” e “Patrulhando (Masmorra)” compartilham a mesma base musical, mas apresentam letras diferentes. O historiador Daniel Henrique França Lunardelli relaciona as duas composições ao debate sobre as chamadas “patrulhas ideológicas”, expressão que ganhou espaço nas discussões culturais brasileiras do final da década de 1970. Segundo o autor, as canções funcionavam como uma resposta satírica às disputas acerca do posicionamento político dos artistas e às críticas dirigidas a músicos associados ao tropicalismo.
Outra composição do álbum, “O Bêbado e a Equilibrista”, foi escrita por Bosco e Blanc. Em junho de 1979, antes da aprovação da Lei da Anistia em agosto daquele ano, a reportagem do Movimento já relacionava a canção à mobilização em favor da anistia e destacava sua utilização no encerramento do espetáculo Linha de Passe. No mesmo ano, Elis Regina gravou a música para o álbum Essa Mulher. A interpretação da cantora passou a acompanhar publicamente a campanha pelo retorno dos exilados políticos e ficou associada ao movimento pela anistia.
Gravação e produção
A produção de Linha de Passe ficou a cargo de Rildo Hora. Darcy de Paulo participou dos arranjos das onze faixas, dividindo o trabalho em algumas delas com outros músicos: Nelsinho colaborou no arranjo de “Linha de Passe”; Waltel Branco, nos de “Conto de Fada” e “Ai, Aydée”; e Dori Caymmi, no de “Patrulhando (Masmorra)”.
As sessões reuniram instrumentistas de diferentes áreas da música popular brasileira. Raphael Rabello tocou violão de sete cordas na faixa-título, enquanto Dino 7 Cordas participou de “Parati”, “O Bêbado e a Equilibrista” e “Boca de Sapo”. João Donato tocou piano elétrico em “Conto de Fada”, “Sudoeste” e “Cobra Criada”, e Toninho Horta participou como guitarrista em “Conto de Fada” e “Patrulhando (Masmorra)”.
Também participaram das gravações músicos como Luizão Maia, Wilson das Neves, Victor Assis Brasil, Zeca da Cuíca e Chiquinho do Acordeon, além de instrumentistas de percussão, sopros e cordas. A capa do LP foi criada pelo artista gráfico Mello Menezes, que também havia realizado a capa do álbum anterior de Bosco, Tiro de Misericórdia.“Aldir Blanc 70 anos — Bom de se Ouvir, Bom de se Aldir em cartaz no CCBB Rio. Jornal do Brasil, 15 jun. 2016.
Recepção
José Ramos Tinhorão publicou uma crítica ao álbum no Jornal do Brasil em janeiro de 1979, intitulada “Aldir Blanc faz embaixadas com a poesia em Linha de Passe”. Ao examinar essa resenha posteriormente, Lunardelli observa que Tinhorão concentrou sua avaliação positiva nas letras de Aldir Blanc e adotou uma posição negativa em relação à contribuição musical de João Bosco. O pesquisador relaciona essa diferença à concepção de música popular defendida pelo crítico ao longo de sua obra.
Em junho do mesmo ano, Ricardo Bueno publicou no Movimento a matéria “Linha de Passe: o caminho certo do gol”, dedicada ao disco, ao espetáculo e a uma entrevista com João Bosco. A avaliação de Bueno foi favorável ao trabalho e destacou tanto sua dimensão musical quanto a presença de temas relacionados ao ambiente político e cultural do período. A reportagem também chamou atenção para a incorporação de Paulo Emílio à parceria de Bosco e Blanc em parte significativa do novo repertório.
O álbum continuou a ser abordado em estudos posteriores sobre a produção de Bosco e Blanc. Na dissertação Os cavaleiros e os moinhos, defendida na Universidade Federal de Santa Catarina em 2022, Lunardelli analisou sua recepção por Tinhorão e a relação de “Patrulhando (Mara)” e “Patrulhando (Masmorra)” com os debates culturais do período. A tese de Paulo Roberto de Azevedo Maia, defendida na Universidade Federal Fluminense em 2014, examinou a divulgação do disco e do espetáculo durante a participação de Bosco no programa Abertura em maio de 1979.
Em 2022, Linha de Passe também foi incluído no livro coletivo 1979: O ano que ressignificou a MPB, organizado por Célio Albuquerque, que reuniu textos dedicados a cem discos lançados naquele ano. O capítulo sobre o álbum foi escrito por Rildo Hora, produtor do trabalho original.ALBUQUERQUE, Célio (org.). 1979: O ano que ressignificou a MPB. Garota FM Books, 2022. 576 p. ISBN 978-65-994524-3-7. Capítulo sobre Linha de Passe, por Rildo Hora.
Lista de faixas
Créditos de composição conforme a ficha técnica do lançamento original.
Nº Título Compositor(es) 1 “Linha de Passe” Aldir Blanc, João Bosco e Paulo Emílio 2 “Conto de Fada” Aldir Blanc e João Bosco 3 “Sudoeste” João Bosco e Paulo Emílio 4 “Parati” Aldir Blanc e João Bosco 5 “Patrulhando (Mara)” Aldir Blanc, João Bosco e Paulo Emílio 6 “O Bêbado e a Equilibrista” Aldir Blanc e João Bosco 7 “Boca de Sapo” Aldir Blanc e João Bosco 8 “Cobra Criada” João Bosco e Paulo Emílio 9 “Ai, Aydée” Aldir Blanc e João Bosco 10 “Natureza Viva” João Bosco e Paulo Emílio 11 “Patrulhando (Masmorra)” Aldir Blanc, João Bosco e Paulo Emílio
Créditos
Créditos selecionados conforme a ficha técnica do álbum.
João Bosco — voz e violão Rildo Hora — produção Darcy de Paulo — arranjos Waltel Branco — arranjos Dori Caymmi — arranjos Nelsinho — arranjo Raphael Rabello — violão de sete cordas Dino 7 Cordas — violão de sete cordas João Donato — piano elétrico Toninho Horta — guitarra Luizão Maia — baixo elétrico Wilson das Neves — bateria Victor Assis Brasil — saxofone alto Zeca da Cuíca — cuíca Chiquinho do Acordeon — acordeão Don Chacal — percussão Mello Menezes — capa
Categoria:Álbuns de 1979 Categoria:João Bosco (músico)