Zenaide Carvalho Gonçalves da Silva (Remanso, Bahia, 1941) é uma geóloga brasileira, professora associada jubilada da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT NOVA). A sua investigação incidiu sobretudo na petrologia, mineralogia, estudo de rochas ornamentais, alteração e durabilidade da pedra e património geológico.
Na década de 1980, liderou a equipa responsável pela reorganização da colecção de minerais e rochas da instituição que viria a denominar-se Museu de Ciências da Terra, no Rio de Janeiro. A historiografia do museu relaciona esse trabalho com a reabertura das exposições e com o desenvolvimento da sua vertente de divulgação científica. Desenvolveu ainda investigação sobre a jadeíta da Guatemala, o complexo gabro-anortosítico do Cunene e o lioz português.
Formação e primeiros trabalhos
Zenaide nasceu em 1941, em Remanso, no estado brasileiro da Bahia. Em 1967 recebeu o grau de Master of Arts em Geologia pela Universidade Rice, em Houston, nos Estados Unidos. A sua dissertação, intitulada Studies on jadeites and albitites from Guatemala, tratou de jadeítas e albititos da Guatemala. Em 1970 publicou um novo estudo sobre a origem dos albititos do leste daquele país.
No início da década de 1970 trabalhou igualmente sobre a geologia de Angola. Em 1972, com Carlos Faria Galvão, foi autora da Carta geológica de Angola correspondente às folhas 227–228, de Lobito, na escala 1:100 000, publicada pelos Serviços de Geologia e Minas.
Museu de Ciências da Terra
Em meados de 1980 iniciou-se a reorganização das colecções da instituição do Rio de Janeiro que posteriormente receberia a denominação de Museu de Ciências da Terra. A equipa encarregada da colecção de minerais e rochas foi liderada por Zenaide, procedendo à identificação, classificação e substituição das etiquetas do acervo, seguindo o sistema de classificação de Dana.
Segundo a historiadora Nathalia Winkelmann Roitberg, a exposição resultante conservou os antigos mostruários, mas adquiriu um carácter mais didáctico, incluindo amostras de minerais presentes no quotidiano. Roitberg considera a organização da colecção um dos factores que levaram à adopção formal da denominação Museu de Ciências da Terra em 1992, enquadrando a actuação de Zenaide na contribuição de mulheres para a divulgação das geociências no museu. O museu foi reaberto à visitação pública em 1981.
Um estudo posterior sobre as representações da ciência e dos cientistas no museu voltou a individualizar a intervenção de Zenaide, relacionando a reorganização por ela liderada com o desenvolvimento do sector educativo da instituição.
Carreira académica em Portugal
Em 1982, por despacho de 28 de outubro desse ano, foi contratada como assistente convidada pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), além do quadro da faculdade. Em 22 de outubro de 1984 foi contratada como assistente além do quadro do Departamento de Geologia da FCUL.
Em 1988 realizou provas de doutoramento na Universidade de Lisboa, com a tese Estudo Petroquímico do Complexo Gabro-Anortosítico de Angola. A investigação desenvolvida em torno do complexo gabro-anortosítico angolano seria posteriormente objecto de artigos publicados no Journal of African Earth Sciences e na Mineralogical Magazine.
Em 1993 foi nomeada definitivamente professora auxiliar da FCUL, com efeitos a partir de 22 de outubro daquele ano.
Em 18 de março de 1997 passou para a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa como professora auxiliar de nomeação definitiva. Em 1999 foi constituído o júri das suas provas para obtenção do título de agregado na Secção de Geologia, no grupo de disciplinas de Mineralogia, Petrologia e Geoquímica. Fontes institucionais posteriores identificam-na como professora com agregação.
Por despacho de 28 de novembro de 2000, e após concurso, foi nomeada definitivamente professora associada da FCT NOVA.
Cessou funções por limite de idade em 24 de setembro de 2011, com a categoria de professora associada. Em 23 de maio de 2012, a FCT NOVA realizou a sua lição de jubilação, intitulada A Dança dos Elementos nas Estruturas dos Minerais.
Investigação
Jadeíta da Guatemala
A investigação de mestrado de Zenaide incidiu sobre jadeítas e albititos da Guatemala, tendo sido seguida pelo artigo Origin of albitites from eastern Guatemala, publicado em 1970. Os seus trabalhos continuaram a ser referenciados na investigação posterior sobre as ocorrências de jadeítito da região de Motagua, num estudo publicado em 2011 na revista Geologica Acta.
Complexo do Cunene miniaturadaimagem|Pavimento em lioz da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador, Bahia. A utilização do lioz português no património arquitectónico baiano constituiu uma das vertentes da investigação de Zenaide Silva. A tese de doutoramento de Zenaide centrou-se no complexo gabro-anortosítico do sudoeste de Angola. Em 1990 publicou um estudo sobre a geoquímica do complexo e, em 1992, um trabalho na Mineralogical Magazine sobre a mineralogia e a estratificação críptica do complexo anortosítico do Cunene, no sudoeste de Angola e na Namíbia.
Rochas ornamentais e lioz Outra vertente da sua investigação incidiu sobre a utilização e deterioração de rochas ornamentais. Em colaboração com Joaquim António Reis Simão, estudou, entre outros aspectos, os efeitos da névoa salina sobre pedras utilizadas em construção.
Em 2007 publicou O Lioz Português: de lastro de navio a arte na Bahia, estudo dedicado à presença e utilização do lioz português no património arquitectónico da Bahia. Dolores Pereira e Víctor Cárdenes, ao apresentarem em 2019 um número da revista Geoheritage dedicado às pedras patrimoniais, destacaram no trabalho de Zenaide a ligação estabelecida entre Portugal e o Brasil através da utilização do lioz na arquitectura colonial brasileira.
Em 2019, o lioz foi reconhecido pela União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS) como uma Heritage Stone. A ficha oficial da IUGS apresenta como publicação principal da classificação o artigo de Zenaide Lioz—a Royal Stone in Portugal and a Monumental Stone in Colonial Brazil. Segundo a Universidade de Évora, a classificação do calcário lioz ocorreu sob proposta de Zenaide Silva.
Obras seleccionadas
SILVA, Zenaide C. G. da. Studies on jadeites and albitites from Guatemala. Houston: Rice University, 1967. Dissertação de Master of Arts. SILVA, Zenaide C. G. da. «Origin of albitites from eastern Guatemala». Boletim dos Serviços de Geologia e Minas, vol. 22, 1970, pp. 23–32. GALVÃO, Carlos Faria; SILVA, Zenaide. Carta geológica de Angola, 1:100 000. Folha n.º 227–228, Lobito. Luanda: Serviços de Geologia e Minas, 1972. SILVA, Zenaide C. G. «Geochemistry of the Gabbro-Anorthosite Complex of Southwest Angola». Journal of African Earth Sciences, vol. 10, n.º 4, 1990, pp. 683–692. SILVA, Zenaide C. G. «Mineralogy and cryptic layering of the Kunene anorthosite complex of SW Angola and Namibia». Mineralogical Magazine, vol. 56, n.º 384, 1992, pp. 319–327. SILVA, Zenaide Carvalho. O Lioz Português: de lastro de navio a arte na Bahia. Porto: Edições Afrontamento, 2007. SILVA, Zenaide C. G.; SIMÃO, Joaquim A. R. «The role of salt fog on alteration of dimension stone». Construction and Building Materials, vol. 23, n.º 11, 2009, pp. 3321–3327. SILVA, Zenaide C. G. «Lioz—a Royal Stone in Portugal and a Monumental Stone in Colonial Brazil». Geoheritage, vol. 11, n.º 1, 2019, pp. 165–175.
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