Maomé ibne Issa Atirmidi (; –), mais conhecido como Atirmidi, foi um estudioso muçulmano do hádice originário da região de Termez. Discípulo de Albucari e contemporâneo de Muslim ibne Alhajaje e Abu Daúde Assijistani, tornou-se uma das principais autoridades do hádice de seu período, destacando-se particularmente pelo estudo dos ilal, as falhas ocultas das tradições, e pelo desenvolvimento da terminologia empregada em sua classificação.
Sua principal obra, o al-Jāmiʿ al-ṣaḥīḥ, também conhecido como Jāmiʿ al-Tirmidhī ou Sunan al-Tirmidhī, foi incorporada às Seis Coleções canônicas de hádices. Atirmidi distinguiu-se por combinar a transmissão das tradições com a avaliação de suas cadeias de transmissão, transmissores e implicações jurídicas, além de desempenhar papel importante na definição e sistematização da categoria hasan. Escreveu também obras dedicadas aos ilal e o influente Kitāb al-Shamāʾil, sobre as características e qualidades de Maomé. Morreu em 892, provavelmente na aldeia de Bugue, na região de Termez.
Vida
Maomé ibne Issa Atirmidi nasceu provavelmente em 209 A.H. (824), em Termez, ou na aldeia de Bugue, pertencente à região da cidade, numa família originária de Merve que posteriormente se estabeleceu em Termez. Era também conhecido pela nisba Açulami, em referência aos soleimitas, dos caicitas. Por volta de 235 A.H. (849), iniciou seus estudos de hádice. Estudou inicialmente em Termez e posteriormente viajou em busca de tradições, frequentando estudiosos sobretudo do Coração, Iraque e Hejaz. Entre seus numerosos mestres estavam , , , , , Albucari, Muslim ibne Alhajaje e Abu Daúde Assijistani. Ao que parece, não esteve em Baguedade e, por isso, não estudou diretamente com Amade ibne Hambal; provavelmente também não viajou ao Egito nem à Síria.
Atirmidi foi durante longo período discípulo de Albucari, de quem transmitiu numerosos hádices e com quem aprofundou seus conhecimentos sobre as falhas ocultas das tradições, os transmissores e as cadeias de transmissão. Segundo o próprio Atirmidi, considerava Albucari a maior autoridade de seu tempo nessas matérias no Iraque e no Coração. A relação intelectual entre ambos era próxima: Albucari também reconhecia os conhecimentos de seu discípulo e transmitiu uma ou duas tradições de sua autoridade. Atirmidi beneficiou-se ainda, no estudo das falhas dos hádices, das opiniões de e Abu Zura Arrazi. Embora tenha aprendido numerosas tradições de Albucari, não as transmitiu diretamente dele em sua principal coleção, enquanto registrou uma tradição de Muslim e outra de Abu Daúde; a explicação apresentada para isso é que os quatro tradicionalistas frequentemente recorriam aos mesmos mestres. Muslim, por sua vez, transmitiu uma tradição de Atirmidi.
Atirmidi alcançou grande reputação como tradicionalista e foi reconhecido por seus contemporâneos pela confiabilidade de suas transmissões. Depois de concluir sua principal coleção, apresentou-a aos estudiosos do Coração, Iraque e Hejaz, dos quais teria recebido aprovação. Entre seus numerosos discípulos estavam , , , , e , vários dos quais ficaram conhecidos pela transmissão de sua principal obra. Atirmidi morreu em 13 de Rajabe de 279 A.H. (9 de outubro de 892), na aldeia de Bugue, embora também se tenha afirmado que morreu na própria Termez. As fontes ressaltam sua memória, devoção e ascetismo. Uma tradição afirma que, nos últimos anos de vida, chorou tão intensamente por devoção que perdeu a visão, contrariando a afirmação de que teria sido cego desde o nascimento. A Encyclopaedia of Islam igualmente registra que ficou cego já em idade avançada e menciona a tradição que atribui a cegueira ao choro excessivo.
Atividade como tradicionalista
Atirmidi é considerado uma das principais autoridades do hádice de seu período. Destacou-se particularmente pelo conhecimento dos ilal, falhas ocultas e de difícil identificação capazes de comprometer a autenticidade das tradições, matéria sobre a qual produziu obras próprias e na qual se afirmou como crítico de hádices. Essa especialização refletiu-se em seus critérios de compilação: quando não encontrava um hádice considerado autêntico acerca de determinado assunto, podia registrar tradições fracas, mas indicava os problemas existentes em suas cadeias de transmissão e avaliava a confiabilidade dos respectivos transmissores.
Sua abordagem também combinava a crítica dos hádices com o interesse pelas consequências jurídicas das tradições. Ao selecionar os textos, atribuía importância ao fato de terem sido utilizados como fundamento por juristas e, depois de apresentar hádices de conteúdo jurídico, registrava outras opiniões sobre a matéria e, em determinados casos, indicava sua própria preferência. Atirmidi viveu numa época de consolidação das escolas jurídicas e teve oportunidade de conhecer as principais posições de diferentes correntes, embora, assim como outros autores das Seis Coleções, não tenha aderido formalmente a uma escola jurídica específica.
Atirmidi desempenhou ainda papel importante no desenvolvimento da terminologia de classificação dos hádices, sobretudo no emprego de hasan. Há divergência quanto à extensão dessa inovação. Segundo uma interpretação, embora a palavra já fosse empregada anteriormente em sentido comum, Atirmidi foi o primeiro a utilizá-la como termo técnico. Outros estudiosos sustentam que já existiam usos técnicos anteriores relacionados ao isnade e ao texto, atribuindo a Atirmidi sobretudo a definição do conceito e seu emprego frequente. Outra interpretação associa sua utilização de hasan à consolidação da divisão tripartida dos hádices em categorias de autenticidade. A Encyclopaedia of Islam destaca, por sua vez, o emprego sistemático por Atirmidi da combinação classificatória ṣaḥīḥ–ḥasan–gharīb, que não identifica dessa forma nas compilações anteriores.
Obras
A principal obra de Atirmidi é o al-Jāmiʿ al-ṣaḥīḥ, também conhecido como Jāmiʿ al-Tirmidhī e Sunan al-Tirmidhī, incorporado às Seis Coleções canônicas de hádices. A obra reúne, além das próprias tradições, informações sobre suas cadeias de transmissão, sua autenticidade, seus transmissores e as opiniões jurídicas relacionadas a elas. A Encyclopaedia of Islam afirma que a coleção é geralmente colocada em quarto lugar entre as Seis Coleções, depois das obras de Albucari, Muslim e Abu Daúde, e registra que a edição de Aḥmad Muḥammad Shākir, publicada no Cairo entre 1937 e 1965, contém 3 956 tradições. A mesma fonte destaca como uma de suas características a apresentação de tradições transmitidas por cadeias únicas acompanhadas das avaliações dos tradicionalistas.
Atirmidi dedicou atenção específica aos ilal. Além das discussões incorporadas ao al-Jāmiʿ, escreveu o al-ʿIlal al-kabīr, também conhecido como al-ʿIlal al-mufrad, dedicado às falhas ocultas dos hádices. A Encyclopaedia of Islam assinala igualmente a presença, no final do al-Jāmiʿ, de um capítulo particularmente importante sobre os ilal. Outra de suas obras mais conhecidas é o Kitāb al-Shamāʾil, dedicado às características e qualidades de Maomé. A obra tornou-se uma referência de seu gênero e foi objeto de comentários, resumos e outras reelaborações. Atirmidi escreveu ainda obras relativas aos nomes e cúnia dos transmissores e outros trabalhos ligados à ciência dos hádices. Segundo a Encyclopaedia of Islam, o Kitāb al-Shamāʾil provavelmente tomou como modelo a parte final da biografia de Maomé composta por Ibne Sade.
Bibliografia
Categoria:Soleimitas Categoria:Árabes do século IX Categoria:Naturais de Termez