Asma binte Abi Becre (; Meca, – Meca, ) foi uma das primeiras mulheres a se converter ao Islã, filha do primeiro califa Abu Becre e meia-irmã de Aixa, esposa de Maomé. Casou-se com Azobair ibne Alauame, um dos primeiros companheiros do profeta, e foi mãe, entre outros, de Abedalá ibne Azobair e Urua ibne Azobair. É tradicionalmente contada como a décima oitava pessoa a abraçar o Islã.
Asma desempenhou papel destacado nos preparativos da Hégira de Maomé e Abu Becre de Meca para Medina, preparando-lhes provisões e auxiliando-os durante a fuga. Segundo a tradição, dividiu seu cinturão para amarrar os recipientes que transportavam alimentos e água, episódio que lhe valeu o epíteto Date Anitacaine (), “a dos dois cinturões”. Posteriormente migrou para Medina, onde deu à luz Abedalá, considerado o primeiro filho nascido entre os emigrantes após a Hégira.
Conhecida por sua generosidade e longevidade, Asma viveu até o período em que seu filho Abedalá disputou o califado com os omíadas e, já próxima dos cem anos, aconselhou-o a continuar resistindo às forças de Alhajaje ibne Iúçufe em Meca. Morreu pouco depois da morte do filho, em 692. Foi também uma importante transmissora de hádices, preservando tradições sobre a vida de Maomé e os primeiros tempos da comunidade muçulmana, posteriormente incorporadas às principais coleções canônicas.
Vida
Asma nasceu em Meca em 595, 27 anos antes da Hégira. Era filha de Abu Becre e , que teria se convertido posteriormente ao Islã, e irmã paterna de Aixa, cerca de dez anos mais nova. Converteu-se por intermédio do pai e é tradicionalmente incluída entre os primeiros muçulmanos, ocupando a décima oitava posição entre os que abraçaram a nova religião. Casou-se com Azobair ibne Alauame, com quem teve cinco filhos — Abedalá, Urua, , e — e três filhas, Cadija Alcobra, Ume Haçane e Aixa. Azobair participou da migração para a Abissínia, mas não há registro de que Asma o tenha acompanhado. Asma ganhou destaque sobretudo por sua participação nos preparativos da Hégira de Maomé. Quando o profeta comunicou a Abu Becre que partiria naquela noite para Medina e que o escolhera como companheiro de viagem, Asma e Aixa prepararam provisões e água para ambos. Como não encontraram cordas para fechar os recipientes, Asma retirou o cinturão (nitāq) que trazia à cintura e o dividiu em duas partes, utilizando uma para amarrar a bolsa de provisões e outra para o odre de água. Segundo a tradição, Maomé, satisfeito com sua iniciativa, declarou que Deus lhe concederia em troca dois cinturões no paraíso, razão pela qual ela ficou conhecida pelo epíteto Date Anitacaine, “a dos dois cinturões”. Outra versão situa o episódio no terceiro dia em que Maomé e Abu Becre permaneceram escondidos na Caverna de Taur, afirmando que Asma, que lhes levava alimentos durante a noite, dividiu seu cinturão quando percebeu que havia esquecido a corda necessária para prender as provisões.
Segundo o próprio relato de Asma, depois que Maomé e Abu Becre deixaram Meca, um grupo de coraixitas, entre os quais Abu Jal, dirigiu-se à casa da família e perguntou-lhe onde estava seu pai. Ao responder que não sabia, Asma foi golpeada no rosto por Abu Jal com tamanha força que seus brincos caíram. Algum tempo depois de Maomé e Abu Becre chegarem a Medina, foram enviados homens a Meca para conduzir até a cidade os familiares que haviam permanecido para trás. Asma, então grávida, realizou a viagem e, ao chegar a Cuba, deu à luz Abedalá, considerado o primeiro filho nascido entre os emigrantes em Medina. Seu nascimento foi celebrado pelos muçulmanos por contrariar o rumor então difundido de que os judeus teriam lançado um feitiço sobre os emigrantes que os impediria de ter descendentes. Algumas fontes afirmam que Asma acompanhou Azobair na Batalha de Jarmuque, em 636. Mulheres estiveram presentes no exército muçulmano durante o confronto e teriam participado diretamente dos combates. O casamento de Asma, contudo, terminou posteriormente em divórcio. Segundo as tradições, ela se queixava a Abu Becre da severidade com que Azobair a tratava, embora o pai a aconselhasse a ser paciente. Asma tinha cerca de cinquenta anos e já era mãe de oito filhos quando o casal se separou. Com base na idade de Urua e na morte de Azobair em 656, o divórcio é situado aproximadamente em 648–649. Asma não voltou a se casar e passou o restante da vida junto de seu filho Abedalá.
Durante o califado de Omar , quando foram estabelecidas pensões do tesouro para as mulheres que haviam participado das primeiras migrações, Asma recebeu uma pensão anual de mil dirrãs. Embora não participasse diretamente da política, sua condição de filha de Abu Becre, esposa de Azobair e, posteriormente, mãe de Abedalá ibne Azobair manteve-a próxima dos acontecimentos políticos de seu tempo. Essa posição adquiriu particular importância durante os últimos dias do califado de Abedalá, quando este, cercado em Meca pelas forças de Alhajaje ibne Iúçufe, consultou a mãe sobre a possibilidade de se render. Asma, então com cerca de cem anos, aconselhou-o a continuar lutando caso acreditasse na justiça de sua causa e a não se deixar capturar pelos omíadas. Depois da morte de Abedalá, Alhajaje procurou Asma e perguntou-lhe se necessitava de algo em nome do califa. Ela recusou e, segundo a tradição, recordou-lhe um hádice no qual Maomé teria anunciado que da tribo dos taquifitas surgiriam um mentiroso e um destruidor, identificando o primeiro com Almoquetar Atacafi e o segundo com o próprio Alhajaje. Asma morreu em Meca poucos dias depois de Abedalá, morto em 14 de Jumada Alula de 73 A.H. (1 de outubro de 692). É considerada a última das mulheres emigrantes a morrer. Embora na velhice tivesse perdido parcialmente a visão, as tradições ressaltam que conservou suas faculdades mentais e seus dentes até o fim da vida.
Personalidade e tradição
Nos primeiros anos depois da Hégira, Asma e sua família viveram em condições econômicas difíceis. Além de um cavalo, possuíam apenas um palmeiral concedido por Maomé a cerca de cinco quilômetros de sua residência. Asma cuidava pessoalmente do cavalo, da casa e do palmeiral e transportava tâmaras sobre as costas. Em certa ocasião, Maomé encontrou-a carregando tâmaras e ofereceu-lhe lugar em sua montaria, mas ela recusou. Posteriormente, Abu Becre providenciou-lhe um criado, acontecimento que Asma comparou à obtenção de sua liberdade. Quando sua mãe Cutaila, que não havia então abraçado o Islã, foi visitá-la anos depois, Asma hesitou em recebê-la por causa de sua religião e consultou Maomé sobre como deveria proceder. A tradição associa o episódio ao versículo 8 da sura al-Mumtaḥana, que permite tratar com bondade e justiça aqueles que não combatem os muçulmanos por causa da religião nem os expulsam de suas terras. Asma era também conhecida por sua habilidade na interpretação de sonhos, conhecimento que teria aprendido com Abu Becre, e sobretudo por sua generosidade. Abedalá afirmava não conhecer pessoas mais generosas que sua mãe e sua tia Aixa, distinguindo-as pelo fato de Aixa acumular recursos antes de distribuí-los, enquanto Asma não conservava até o dia seguinte aquilo que recebia.
Asma desempenhou ainda papel importante na transmissão das tradições relativas a Maomé. Sua conversão precoce, proximidade com a família do profeta e longevidade permitiram-lhe transmitir numerosas notícias sobre os primeiros tempos do Islã. Entre os que narraram hádices por sua autoridade estavam seus filhos Abedalá e Urua, vários de seus netos e bisnetos, além de Abedalá ibne Abas, , , e Ibne Abi Mulaica. Suas tradições foram incorporadas às principais coleções de hádices, inclusive aos Seis Livros. As contagens de suas tradições variam conforme as compilações e os estudiosos. O Musnade de Amade ibne Hambal contém 83 relatos atribuídos a Asma, alguns repetidos, enquanto o al-Muʿjam al-Kabīr de Atabarani reúne 157. Adaabi contabilizou 58 tradições, das quais treze aparecem simultaneamente nas coleções de Albucari e Muslim ibne Alhajaje, cinco exclusivamente na primeira e quatro exclusivamente na segunda. Entre os autores dos Seis Livros, Albucari foi quem mais amplamente registrou notícias e tradições provenientes de Asma, mencionando-as em 53 passagens de sua obra. Os relatos transmitidos por ela tratam principalmente da Hégira e de outros acontecimentos da primeira comunidade muçulmana, bem como de generosidade, vestuário, alimentação, normas relativas às mulheres e práticas religiosas.
Bibliografia
Categoria:Taimitas Categoria:Mulheres do século VI Categoria:Mulheres do século VII Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Pessoas do Califado Ortodoxo Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Naturais de Meca