300px|thumb|direita|Os nascidos no Rio de Janeiro são chamados cariocas, nome que originalmente se refere a um riacho e a uma antiga aldeia na baía de Guanabara. Segundo Edelweiss, o nome referia-se inicialmente a uma habitação carijó, que com o tempo se transformou em aldeia, passando depois ao riacho.

Este artigo trata da etimologia do gentílico dado aos nascidos na cidade do Rio de Janeiro, Brasil.

O número de etimologias propostas é grande, sendo algumas morfologicamente defensáveis e outras não. Carioca é um riacho no Rio de Janeiro e o nome de uma antiga aldeia na cidade, mencionada em pelo menos duas fonte primárias do século XVI, Jean de Léry e José de Anchieta. Segundo Frederico Edelweiss, a explicação do nome na obra de Léry refuta as etimologias propostas pela maioria dos etimólogos, enquanto sua ocorrência em Anchieta põe fim a qualquer ambiguidade. Tanto Edelweiss quanto Eduardo de Almeida Navarro concordam quanto ao significado da palavra em tupi antigo Carioca: "casa de carijó", em referência aos índios falantes de guarani espalhados desde o litoral do Brasil até o Paraguai. Com o tempo, o nome da aldeia também passou a designar os nascidos na cidade do Rio de Janeiro.

A interpretação do nome como "casa do homem branco" foi proposta primeiramente por Varnhagen e, segundo Edelweiss, sua inadmissibilidade revela que ele "entende pouco ou nada" de tupi.

Contexto

Carioca é um riacho no Rio de Janeiro e o nome de uma antiga aldeia indígena na baía de Guanabara, a mais próxima da aldeia de São Sebastião, fundada por Estácio de Sá. O primeiro registro do nome Carioca em português ocorre na década de 1560, por Luís da Grã, como topônimo: "os que vyerão da Carioca". Ainda durante o período colonial do Brasil, o nome passou a designar os nascidos no Rio de Janeiro; Eduardo de Almeida Navarro apresenta uma citação de 1789: "os Cariocas e Americanos eram fracos, vis, patifes e pusillanimes", contida em uma carta de denúncia contra Tiradentes. A designação não é pejorativa atualmente. Segundo Serafim Leite, a designação Carioca já era corrente em 1563, tendo o nome sido aplicado a um "riacho", "fonte" e "água" (água da "carioca"). Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o topônimo, inicialmente Carioca, tornou-se depois "largo da Carioca", local onde havia uma fonte de água para abastecimento público e de embarcações, e de onde passou a designar os habitantes da cidade do Rio de Janeiro, apelidados de cariocas "a partir de 1723".

Etimologia Carioca significa "casa de carijó". Deriva do tupi antigo, sendo composta pelas palavras e , atualmente grafada como Kariîooka ou Karioka. Frederico Edelweiss defende que o nome se referia originalmente à habitação de um carijó ou de índios carijós, que com o tempo se transformou em aldeia; o riacho teria depois tomado seu nome a partir da aldeia.

Os carijós eram índios falantes de guarani que, segundo José de Anchieta, estavam espalhados "por toda parte". Segundo Fernão Cardim, havia "uma infinidade deles", que se estendiam "ao longo do litoral" de São Vicente "e para o interior até o Paraguai". Em uma cena do Auto de São Lourenço, de Anchieta, ocorrem duas palavras em guarani, ao que o outro personagem reage perguntando em espanhol: "".

Ocorrências em fontes primárias Em Jean de Léry

Jean de Léry preservou, no capítulo 20 de sua obra, os nomes das principais aldeias da baía de Guanabara, provenientes de dois períodos distintos, porém próximos entre si. Segundo informações do capítulo anterior, o colóquio em tupi transcrito no capítulo 20 foi composto com o auxílio de um intérprete francês, bem instruído, pois conhecia grego, e que havia vivido sete a oito anos entre os tupinambás, tendo bom conhecimento de sua língua. O intérprete era natural de Rouen (Léry, de Lamargelle), segundo sua própria declaração aos hipotéticos tupinambás no diálogo. Os topônimos mais antigos são atribuídos ao intérprete: oito aldeias do lado esquerdo, cinco do lado direito e seis mais para o interior. Após o colóquio, Léry, por razões pouco explicadas, elaborou uma nova lista atualizada das aldeias de Guanabara, a fim de reforçar a credibilidade de sua "aventura", enumerando 22 aldeias: 14 do lado esquerdo, das quais apenas duas aparecem na lista anterior; três do lado direito, das quais duas aparecem no relato anterior; e três na ilha do Governador, de um total de cinco, nenhuma das quais aparece na lista mais antiga.

O nome da aldeia indígena de Carioca aparece três vezes na obra de Léry: duas vezes isoladamente e uma vez combinado com a preposição locativa "be": "", "" e "". Segundo Frederico Edelweiss, nas duas primeiras ocorrências houve transposição de letras, com um h aparecendo no lugar de k. Edelweiss argumenta que isso resultou de um erro de cópia e de uma revisão descuidada, agravados por lapsos de memória de Léry. Para ele, após o intervalo de 20 anos entre o retorno de Léry e a impressão de sua obra, não é impossível que ele tenha tido dificuldade em decifrar sua própria letra. Após uma das ocorrências, a obra apresenta uma explicação:

A combinação de "" e "" resultaria em "" ou "", mas não em "". Segundo Edelweiss, as divergências gráficas e o conflito entre elas resultaram de uma combinação entre a falta de compreensão do que havia sido registrado e o descuido na revisão, o que pode ser explicado pelo fanatismo religioso de Léry.

Em José de Anchieta

Há ainda outra lista de aldeias da Baía de Guanabara, embora parcial, pois enumera apenas as que desapareceram após a vitória dos portugueses e de seus aliados tupis, o que fez com que vários tupinambás migrassem para o interior e para o norte. Encontrada no Auto de São Lourenço, de José de Anchieta, na estrofe compreendida entre os versos 147 e 151, são enumeradas nove aldeias; entre elas, o verso 150 menciona Carioca em uma grafia mais precisa que, segundo Frederico Edelweiss, "põe fim, de uma vez por todas, a qualquer equívoco" e que, segundo Eduardo de Almeida Navarro et al., torna a etimologia "clara": "".

Maria de Lourdes de Paula Martins relaciona "" com Carioca, afirmando tratar-se de um nome que designava o trecho, no Rio de Janeiro, entre a praia de Botafogo e o Catete, derivado de um riacho que ali existia. Ela o traduz literalmente como "a aldeia" ou "as aldeias dos carijós".

Outras interpretações O número de etimologias propostas para Carioca é grande. Para Frederico Edelweiss, a explicação encontrada em Jean de Léry refuta irrefutavelmente "a maioria de nossos etimólogos". Segundo ele, as interpretações da etimologia como "casa da correnteza da mata", "casa do acari" e "casa de carijó" são morfologicamente defensáveis, ao passo que as interpretações "casa do invasor" e "casa do homem branco" não encontram respaldo linguístico, apesar da qualificação daqueles que inicialmente as propuseram. Ele, no entanto, enfatiza que a verdadeira etimologia da palavra é "casa de carijó".

"Casa do homem branco" A interpretação de Carioca como "casa do homem branco" foi proposta pela primeira vez por Varnhagen. Foi posteriormente adotada por numerosos seguidores seus, como Antenor Nascentes.

Eduardo de Almeida Navarro et al. consideram essa etimologia incorreta. Segundo Frederico Edelweiss, ela é inadmissível, e quem interpreta o nome dessa forma "entende pouco ou nada" de tupi. "Branco" em tupi antigo é ; somente na língua geral surgiu a forma , a partir de cerca de 1700, que veio a se tornar em nheengatu. Como Carioca é um nome do século XVI, "homem branco" só poderia ter sido , que, ao se combinar com , daria necessariamente origem a , termo fortuitamente atestado no Auto de São Lourenço, obra do século XVI de José de Anchieta.

Ver também Etimologia de Curitiba

Notas

Referências

Bibliografia

Categoria:Gentílicos de origem tupi Categoria:História da cidade do Rio de Janeiro