O Cerco de Meca de 692 foi o cerco da cidade sagrada islâmica de Meca conduzido pelas forças do Califado Omíada sob o comando de Alhajaje ibne Iúçufe contra Abedalá ibne Azobair, califa rival sediado na cidade. O confronto constituiu a etapa final da Segunda Fitna, guerra civil iniciada após a morte do califa , em 680, e encerrou a disputa entre os omíadas e o califado Zobaírida pelo controle do mundo islâmico. Após derrotar e matar Muçabe ibne Azobair, irmão de ibne Azobair e governador do Iraque, na Batalha de Masquim, em 691, o califa omíada Abedal Maleque enviou Alhajaje ao Hejaz à frente de dois mil soldados sírios. Depois do fracasso das negociações para obter a rendição de ibne Azobair, Alhajaje iniciou o cerco de Meca em 25 de março de 692.

A cidade teve seu abastecimento interrompido e foi bombardeada com catapultas a partir do monte Abu Cubais, inclusive durante os rituais do haje. À medida que a situação dos sitiados se deteriorava, milhares se renderam, entre eles dois filhos de ibne Azobair. Recusando-se a capitular, ibne Azobair continuou a combater com os partidários que lhe restavam e foi morto em outubro ou novembro de 692. Sua morte pôs fim à Segunda Fitna e permitiu a reunificação do califado sob o domínio omíada. A Caaba, danificada durante o bombardeio, foi posteriormente reconstruída por ordem de Abedal Maleque segundo a planta anterior às modificações realizadas por ibne Azobair após o primeiro cerco de Meca, configuração essencial que se conserva até os dias atuais.

Antecedentes

Com a morte do primeiro califa omíada, , em abril de 680, teve início a Segunda Fitna, quando os proeminentes líderes muçulmanos Abedalá ibne Azobair e Huceine ibne Ali, bem como os habitantes de Medina, rebelaram-se contra o novo califa . Embora Huceine e os habitantes de Medina tenham sido derrotados, respectivamente, na Batalha de Carbala, em outubro de 680, e na Batalha de Harra, em agosto de 683, ibne Azobair continuou sua oposição a Iázide a partir do santuário de Meca, cidade sagrada do Islã. As forças de Iázide cercaram Meca em setembro de 683 e bombardearam a cidade com catapultas. A Caaba incendiou-se durante o cerco, e a Pedra Negra sagrada partiu-se em três pedaços. Iázide morreu em novembro daquele ano, e a chegada da notícia obrigou Huceine ibne Numair Açacuni, comandante do exército sitiante, a retirar-se, pois já não sabia em nome de quem combatia. Ofereceu fidelidade a ibne Azobair sob a condição de que este se transferisse para a Síria, sede do Califado Omíada, mas ibne Azobair recusou e Huceine partiu com suas tropas. Iázide foi sucedido por seu filho , cuja autoridade se restringia a partes da Síria.

A retirada de Huceine deixou ibne Azobair no controle do Hejaz, região ocidental da Arábia onde se localizam Meca e Medina. Proclamou-se califa e foi reconhecido na maior parte das províncias. Enviou governadores ao Egito, Cufa, Baçorá e Moçul, enquanto vários distritos sírios ficaram sob o controle de seus aliados. Moáuia II morreu após poucos meses, e a nobreza tribal síria favorável aos omíadas transferiu o poder a Maruane ibne Aláqueme. Este derrotou as tribos sírias favoráveis aos zobaíridas na Batalha de Marje Raite, em agosto de 684, e pouco depois reconquistou o Egito do governador de ibne Azobair. Ibne Azobair perdeu grande parte do Iraque para o pró-álida Almoquetar Atacafi, enquanto os carijitas, que haviam se aliado a ele durante o cerco anterior, romperam com ibne Azobair depois que este reivindicou o califado e passaram a combatê-lo. Embora seu irmão Muçabe ibne Azobair tenha conseguido retomar o Iraque de Almoquetar, insurgentes carijitas conquistaram extensas áreas da Pérsia e da Arábia. Maruane morreu em abril de 685, e seu filho Abedal Maleque tornou-se califa e iniciou a restauração do poder omíada. Depois de sufocar distúrbios internos, Abedal Maleque invadiu o Iraque e matou Muçabe na Batalha de Masquim, em outubro de 691. Como resultado, ibne Azobair perdeu o controle da maior parte de seus territórios e ficou confinado ao Hejaz. Mesmo ali, perdeu Medina para o maula de Abedal Maleque, Tárique ibne Anre, que anteriormente havia derrotado um exército zobaírida de dois mil homens e assumido o controle da cidade.

Cerco

Após derrotar Muçabe ibne Azobair, Abedal Maleque enviou seu general Alhajaje ibne Iúçufe a Meca à frente de dois mil soldados sírios, com instruções para obter por negociação a rendição de ibne Azobair e garantir-lhe um salvo-conduto. Alhajaje recebeu ordens de não derramar sangue na cidade, mas de sitiá-la caso ibne Azobair se recusasse a se render. Seguindo as ordens de Abedal Maleque, Alhajaje dirigiu-se inicialmente à sua cidade natal, Taife, em vez de marchar diretamente sobre Meca. Chegou a Taife em janeiro de 692 e enviou vários destacamentos à planície de Arafate, onde derrotaram os partidários de ibne Azobair em escaramuças. As negociações com ibne Azobair fracassaram, levando Alhajaje a solicitar reforços a Abedal Maleque e autorização para atacar Meca. Abedal Maleque concedeu a autorização e ordenou a Tárique ibne Anre, que controlava Medina, que reforçasse Alhajaje em Meca. Alhajaje iniciou o cerco de Meca em 25 de março de 692, e os reforços comandados por Tárique ibne Anre chegaram um mês depois. O abastecimento da cidade foi interrompido, provocando escassez de alimentos. Meca foi bombardeada com catapultas a partir do vizinho monte Abu Cubais, e o bombardeio prosseguiu durante os rituais do haje. Segundo um relato do historiador do Albaladuri, o bombardeio foi interrompido durante a peregrinação a pedido de Abedalá ibne Omar, influente filho do segundo califa ortodoxo, Omar . Enfurecido pela recusa de ibne Azobair em permitir-lhe realizar o tauafe (deambulação da Caaba), Alhajaje ordenou que as catapultas disparassem contra a própria Caaba. Segundo o historiador Abd al-Ameer Dixon, contudo, apenas a parte da Caaba que havia sido modificada por ibne Azobair foi alvejada.

Uma tempestade súbita provocou entre os soldados de Alhajaje o temor de que se tratasse de manifestação da ira divina, levando-os a interromper o bombardeio. Alhajaje convenceu-os de que a tempestade era um fenômeno natural e de que, se a considerassem um presságio, deveriam interpretá-la como sinal de vitória. O bombardeio foi então retomado. A deterioração das condições na cidade e a promessa de anistia feita por Alhajaje levaram cerca de dez mil pessoas entre os sitiados, incluindo dois filhos de ibne Azobair, a se render. Ibne Azobair procurou sua mãe, Asma binte Abi Becre, e pediu-lhe conselho sobre se deveria se submeter a Alhajaje. Ela o persuadiu a continuar combatendo, mencionando sua idade avançada e o sacrifício daqueles que haviam morrido lutando por ele. Ibne Azobair atacou então as forças de Alhajaje acompanhado de seu filho mais novo e de alguns dos partidários que lhe restavam, entre eles seu antigo governador de Cufa, Abedalá ibne Muti, e morreu em combate. Sua cabeça foi enviada a Abedal Maleque, enquanto seu corpo foi exposto num patíbulo. As fontes divergem quanto à data de sua morte, situando-a em 4 de outubro ou 3 de novembro.

Consequências

A morte de ibne Azobair marcou o fim da guerra civil, e o califado foi reunificado sob o domínio omíada. O ano ficou conhecido como o "Ano da Unidade". Alhajaje foi nomeado governador do Hejaz, do Iêmem e de Iamama. A Caaba, danificada pelo bombardeio — várias de suas paredes haviam sido rachadas pelas pedras das catapultas —, foi reconstruída. O edifício original da época de Maomé havia sido danificado por um incêndio durante o cerco anterior da cidade, em 683. Ibne Azobair o reconstruíra alterando sua planta. Transformou a planta quadrada numa retangular para incorporar o , seguindo uma tradição segundo a qual Maomé desejara fazê-lo, e acrescentou uma segunda porta ao edifício, que originalmente possuía apenas uma. Por ordem de Abedal Maleque, Alhajaje demoliu as partes modificadas da Caaba e reconstruiu-a segundo sua planta anterior. Essa configuração essencial da Caaba permanece até os dias atuais.

Segundo Albaladuri, Abedal Maleque posteriormente se arrependeu das instruções dadas a Alhajaje e desejou ter deixado a Caaba na forma em que fora reconstruída por ibne Azobair. O califa ficara chocado com o incêndio da Caaba durante o cerco de 683. O bombardeio e a posterior demolição do edifício realizados por sua ordem prejudicaram sua reputação e contribuíram para o sentimento antiomíada presente na tradição histórica muçulmana. Os partidários dos omíadas, contudo, celebraram a restauração. Um poeta contemporâneo escreveu: "Restauraste a Casa de Deus tal como era no tempo de Maomé; corrigiste aquilo que os filhos de Azobair haviam corrompido."

Bibliografia

Categoria:Cercos de Meca Categoria:692 Categoria:Cercos envolvendo o Califado Omíada Categoria:Batalhas do século VII