Exposed (do inglês exposed, «exposto»), também denominado exposed digital, é, no uso brasileiro da Internet, uma prática de redes sociais que consiste na exposição pública, por terceiros, de informações, relatos ou materiais relativos à conduta de uma pessoa ou organização. A publicação é geralmente apresentada como forma de revelar ou denunciar comportamentos considerados abusivos, criminosos ou socialmente reprováveis.
Um exposed pode incluir depoimentos, capturas de ecrã de conversas, mensagens privadas, fotografias, gravações de áudio ou outros materiais apresentados como elementos de sustentação de uma acusação pública. As denúncias podem ser publicadas directamente pelos seus autores ou remetidas a perfis criados para recolher e divulgar relatos, por vezes anonimamente.
O termo adquiriu grande visibilidade no Brasil em 2020, quando a hashtag `#Exposed` e variantes formadas pela junção da palavra com nomes de cidades passaram a ser usadas para divulgar relatos de assédio sexual, violência sexual, relacionamentos abusivos e outras formas de violência. A prática passou também a ser discutida em estudos jurídicos e das ciências humanas em razão da sua relação com os direitos da personalidade, a privacidade, a liberdade de expressão, o linchamento virtual e a cultura do cancelamento.
Características
Marcela Moiteiro define o exposed como a exposição pública, por um terceiro utilizador das redes sociais, de segredos ou factos relativos a outra pessoa. A autora caracteriza-o como um fenómeno que se encontrava em ascensão no início da década de 2020 e relaciona a sua difusão com o aumento da utilização das redes sociais e com a virtualização das relações pessoais durante a pandemia de COVID-19.
Na imprensa brasileira, o termo passou a ser empregado num sentido semelhante. Em 2020, O Globo descreveu-o como a revelação pública, através de plataformas como Twitter e Instagram, de um facto criminoso ou considerado questionável e da pessoa a quem esse facto era atribuído. A reportagem do UOL TAB publicada no mesmo período observou que os conteúdos chamados de exposed abrangiam situações de gravidade muito diferente, desde conflitos interpessoais e acusações de infidelidade até denúncias de abuso sexual e racismo.
A publicação pode assumir a forma de um relato isolado, de uma sequência de publicações ou de um conjunto organizado de documentos e testemunhos. Durante a onda de denúncias de 2020, algumas pessoas publicaram os relatos nas suas próprias contas, enquanto outras recorreram a páginas que recebiam depoimentos e os divulgavam anonimamente. A dissertação de Edilene Rodrigues Afonso, dedicada às denúncias de assédio sexual no ambiente digital, analisou, entre outras materialidades, capturas de ecrã de conversas privadas difundidas no contexto da `#Exposed`.
A designação não implica, por si só, que aquilo que é divulgado tenha sido comprovado judicialmente. O termo descreve a forma de exposição pública empregada nas redes, abrangendo desde relatos pessoais até a divulgação de documentos ou conversas apresentados pelos utilizadores como prova das suas afirmações.
Popularização no Brasil
Embora práticas de denúncia e exposição pública na Internet sejam anteriores ao termo, o uso de exposed como designação de um fenómeno digital ganhou particular visibilidade no Brasil em 2020. No final de maio daquele ano, jovens de diferentes regiões do país começaram a utilizar hashtags compostas pela palavra `exposed` e pelo nome das cidades onde viviam para relatar episódios de violência sexual e de género.
Nas primeiras semanas de junho, existiam relatos provenientes de cidades como São Paulo, Curitiba e Aracaju, entre outras localidades. As publicações envolviam acusações de estupro, assédio sexual, importunação sexual e outras formas de abuso. O Globo registou igualmente a multiplicação de páginas e hashtags regionais. A `#ExposedCariri`, referente à região do Cariri cearense, chegou aos assuntos mais comentados do Twitter, enquanto páginas destinadas a receber relatos anónimos eram criadas em diferentes cidades e bairros.
A circulação das denúncias teve, em alguns casos, repercussão fora das próprias redes sociais. Em Teresina, a Polícia Civil do Piauí abriu uma investigação depois da publicação no Twitter de relatos de estudantes que acusavam professores de assédio. No Ceará, estudantes de diversas cidades utilizaram igualmente as redes para fazer denúncias de abusos atribuídos a professores, recorrendo a variantes locais da expressão, como `#ExposedSobral`.
A associação entre o termo e denúncias de violência contra mulheres foi suficientemente difundida para que a imprensa publicasse orientações sobre formas consideradas mais seguras de relatar abusos nas redes, incluindo questões relacionadas com preservação de provas e procura de apoio institucional. O fenómeno, contudo, não permaneceu limitado a esse tipo de denúncia, passando a ser empregado para designar exposições públicas relativas a conflitos pessoais, comportamentos de personalidades digitais e outras controvérsias da cultura da Internet.
Uso como forma de denúncia miniaturadaimagem|O uso de hashtags para reunir denúncias de assédio e violência sexual tornou-se uma característica de movimentos de denúncia nas redes sociais. Uma das funções atribuídas ao exposed é permitir que pessoas divulguem experiências que anteriormente permaneciam restritas à esfera privada. Durante as denúncias de 2020, diversas páginas funcionaram como intermediárias entre as pessoas que enviavam depoimentos e o público, permitindo que alguns relatos fossem difundidos sem identificar quem os havia enviado.
Edilene Afonso analisou a `#Exposed` no contexto da denúncia de assédio sexual a partir da análise do discurso, tratando as publicações digitais como formas de produção e circulação de sentidos sobre violência, denúncia e relações entre vítimas e acusados. A dimensão colectiva proporcionada pelas hashtags permitia agrupar relatos que, individualmente, poderiam circular apenas entre redes menores de utilizadores.
A cobertura jornalística do período também salientou uma tensão inerente ao fenómeno. Por um lado, as redes podiam proporcionar visibilidade e acolhimento a pessoas que relatavam abusos; por outro, a circulação massiva de acusações podia dar origem a processos de exposição e punição pública que antecediam qualquer apuração institucional. O UOL TAB sintetizou essa oposição ao analisar o exposed simultaneamente como espaço de acolhimento e como possível origem de linchamento virtual.
Transformação em conteúdo digital
Com a expansão da economia dos criadores e dos conteúdos de comentário e reacção, o exposed passou também a funcionar como matéria-prima para publicações produzidas por terceiros. Pedro Vinícius Neres, do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas, observa que a exposição de uma personalidade digital pode tornar-se ela própria um produto de entretenimento para outros produtores de conteúdo.
Neres cita como exemplo a produção de vídeos de formato próximo ao minidocumentário nos quais criadores reúnem declarações, publicações e controvérsias relacionadas com outras personalidades da Internet. O autor utiliza o Caso Raluca para demonstrar esse processo: uma controvérsia inicialmente desenvolvida entre os participantes foi posteriormente retomada por outros canais, alcançando audiências maiores e gerando novas respostas, análises e reacções.
Essa dinâmica distingue o exposed digital das formas de exposição pública que dependiam principalmente dos meios de comunicação tradicionais. Nas redes, tanto a publicação inicial como a sua interpretação, contestação e redistribuição podem ser produzidas por diferentes utilizadores, fazendo com que uma mesma controvérsia circule entre diversas comunidades e plataformas.
Relação com outros fenómenos digitais
Linchamento virtual e cultura do cancelamento
O exposed apresenta pontos de contacto com o linchamento virtual e a cultura do cancelamento, mas os termos designam aspectos diferentes de uma controvérsia digital. O exposed refere-se principalmente ao acto ou conteúdo de exposição; o linchamento virtual diz respeito à reacção colectiva e punitiva que pode seguir-se à divulgação.
Francisco de Assis de França Júnior, Bruno Cavalcante Leitão Santos e Samara Albuquerque analisaram o linchamento virtual e a cultura do cancelamento como manifestações contemporâneas de práticas punitivas informais, nas quais grupos de utilizadores participam da censura e da punição pública de pessoas consideradas responsáveis por comportamentos censuráveis.
A exposição inicial não conduz necessariamente a um linchamento virtual, e uma campanha de linchamento pode desenvolver-se sem ter origem num conteúdo denominado exposed. A associação entre ambos decorre sobretudo da capacidade das redes sociais de ampliar rapidamente uma acusação e concentrar reacções públicas sobre uma pessoa ou organização.
Online shaming miniaturadaimagem|302x302px|Exemplo fictício de uma publicação de doxing numa rede social. O doxing pode envolver exposição pública de informações pessoais, mas não é equivalente ao exposed. Na literatura internacional, um fenómeno relacionado é o online shaming, isto é, a censura ou humilhação pública realizada através de meios digitais. James Fritz analisa o fenómeno como uma forma de desaprovação pública e discute as condições éticas da utilização da vergonha como resposta ao comportamento de terceiros.
O conceito é mais amplo que o uso brasileiro de exposed: uma pessoa pode ser publicamente humilhada na Internet sem que tenha ocorrido uma publicação destinada a revelar informações anteriormente desconhecidas. Inversamente, um exposed pode ser divulgado com o propósito declarado de denúncia sem que o seu autor apresente a humilhação do alvo como finalidade da publicação.
Doxing
Outro conceito relacionado é o doxing, prática que envolve a divulgação de informações privadas ou identificadoras de uma pessoa. Daniel Trottier distingue analiticamente a denúncia pública e o doxing ao estudar formas de vigilantismo na Internet, mostrando que a exposição de um alegado comportamento e a divulgação de dados capazes de identificar ou localizar uma pessoa constituem práticas que podem ocorrer conjuntamente, mas não são equivalentes.
No exposed, o elemento central é a revelação pública de uma conduta ou narrativa acerca de terceiros; a divulgação de endereço, número de telefone ou outros dados pessoais identificadores não é condição necessária para que uma publicação seja denominada exposed.
Aspectos jurídicos no Brasil
A popularização dos exposeds levou a prática a ser analisada no âmbito do direito civil brasileiro, especialmente devido à possibilidade de conflito entre a liberdade de expressão e os direitos da personalidade.
Moiteiro estudou as possíveis repercussões civis da prática, com particular atenção aos efeitos da divulgação de informações sobre a intimidade e outros direitos da personalidade das pessoas expostas. Mendes, por sua vez, investigou especificamente a possibilidade de responsabilização civil dos autores de um exposed, tratando a prática a partir das regras gerais de responsabilidade civil e da colisão entre direitos protegidos pelo ordenamento jurídico.
A existência de uma publicação denominada exposed não determina, por si só, a licitude ou ilicitude da conduta. A avaliação jurídica depende das circunstâncias concretas da divulgação, incluindo o conteúdo tornado público e os direitos das pessoas envolvidas, tema que explica a atenção recebida pelo fenómeno na produção jurídica brasileira.
Estudos académicos