The New Negro: An Interpretation (O Novo Negro: uma interpretação) é uma antologia de ensaios, poesia, ficção e textos sobre arte, literatura, história e cultura afro-americanas, organizada pelo filósofo, professor e intelectual norte-americano Alain Locke e publicada em 1925. Locke vivia em Washington, D.C. e lecionava na Universidade Howard durante a Renascença do Harlem. A primeira edição foi publicada pela Albert and Charles Boni, de Nova Iorque, e contou com decoração e retratos de Winold Reiss e ilustrações de Aaron Douglas.

A publicação surgiu no contexto da Renascença do Harlem, também chamada de Movimento do Novo Negro. A coletânea passou a ocupar um lugar central nos estudos do movimento e foi apresentada por Arnold Rampersad como seu texto definidor.Rampersad, Arnold. Introdução a The New Negro: Voices of the Harlem Renaissance. 1992. Locke reuniu autores que procuravam novas formas de expressão artística e intelectual e que contestavam estereótipos raciais arraigados na sociedade norte-americana.

A Library of Congress inclui Locke entre as figuras associadas à formulação do Movimento do Novo Negro e da Renascença do Harlem. A antologia procurava abrir espaço para novas formas de orgulho racial, expressão individual e discurso literário afro-americano.

Contexto A publicação de The New Negro ocorreu durante as mudanças demográficas provocadas pela Grande Migração Afro-Americana. Afro-americanos deixaram os estados do Sul em direção a cidades do Norte e do Centro-Oeste, e Harlem, em Nova Iorque, tornou-se um dos centros da produção literária e artística negra.

Durante as décadas de 1920 e 1930, escritores, músicos, artistas plásticos, fotógrafos e intelectuais afro-americanos procuraram representar suas próprias experiências por meio da literatura e das artes. Os participantes da Renascença do Harlem possuíam posições políticas e estéticas diferentes, e nem todos se viam como integrantes de um movimento comum.

Locke apresentou essa produção cultural como parte de uma mudança na consciência racial afro-americana. A expressão Novo Negro já circulava antes de 1925, mas recebeu em seus escritos uma formulação ligada à autonomia, à dignidade, à migração, à expressão artística e à redefinição da posição dos negros na sociedade norte-americana.

Estrutura e conteúdo

The Negro Renaissance A primeira parte, intitulada "The Negro Renaissance" (A Renascença Negra), contém o ensaio de abertura "The New Negro", de Locke, além de ensaios, poemas e textos de ficção.

Entre os escritores representados estão Countee Cullen, Langston Hughes, Zora Neale Hurston, Claude McKay, Jean Toomer e Eric Walrond. A coletânea contém ainda trabalhos de James Weldon Johnson, do historiador e bibliófilo Arthur Schomburg e de outros autores ligados à produção intelectual afro-americana da época.

O ensaio "The Negro Digs Up His Past", de Schomburg, trata da recuperação da história africana e afro-americana. A busca por um passado que pudesse ser estudado e reivindicado pelos próprios afro-americanos fazia parte das discussões culturais ligadas ao Movimento do Novo Negro.

The New Negro in a New World A segunda parte, "The New Negro in a New World", reúne análises sociais e políticas de autores como W. E. B. Du Bois, E. Franklin Frazier, Melville J. Herskovits, James Weldon Johnson, Paul U. Kellogg, Elise Johnson McDougald, Kelly Miller, Robert R. Moton e Walter Francis White.Long, Richard A.. "New Negro, The". In: William L. Andrews, Frances Smith Foster e Trudier Harris (eds.). The Concise Oxford Companion to African American Literature. Oxford University Press, 2001. Oxford Reference Online.

A combinação de textos literários, análises sociais, artes visuais e música permitiu que Locke apresentasse diferentes aspectos da experiência afro-americana dentro de uma mesma obra.

O conceito de "Novo Negro"

O "Velho Negro" e o "Novo Negro" Locke contrapôs o "Novo Negro" ao que chamou de "Velho Negro". Em seu ensaio, definiu o segundo como uma "criatura de debate moral e controvérsia histórica", moldada pelo modo como a sociedade branca havia representado os negros e pelas condições impostas pela escravidão e pela segregação.

Para Locke, o "Novo Negro" possuía maior consciência de si e buscava independência, respeito próprio e participação na sociedade. A migração para cidades do Norte ajudava a romper estruturas sociais presentes no Sul e colocava pessoas de diferentes regiões e origens em contato umas com as outras.

A formulação também procurava romper com representações externas que reduziam os afro-americanos a estereótipos. Locke tratou essa mudança como uma forma de reconstrução da identidade e da posição social negra.

Autoexpressão A autoexpressão ocupa grande espaço no ensaio de Locke. Ele relacionava a discriminação social às limitações impostas à maneira como os afro-americanos podiam compreender e apresentar a si mesmos, e via na literatura, na arte e na educação caminhos para romper essas limitações.

Poemas reunidos na antologia exploram esse tema por perspectivas diferentes. Em "Tableau", de Countee Cullen, um jovem negro e um jovem branco caminham de braços dados diante dos julgamentos de quem os observa. Em "Heritage", Cullen aborda a relação de um afro-americano com a África e com uma história marcada pela escravidão. Langston Hughes, em "Youth", dirige-se à juventude negra e associa liberdade e futuro à capacidade de expressão coletiva.

A obra procurava substituir imagens simplificadas dos afro-americanos por representações que comportassem diferenças de classe, região, experiência e expressão cultural.

A coletânea refletia em especial as aspirações de afro-americanos de classe média que reivindicavam direitos civis equivalentes aos de seus contemporâneos brancos. Alguns autores, entre eles Langston Hughes, voltaram-se também para as experiências da classe trabalhadora e de comunidades negras pobres.

Jazz e blues A publicação de The New Negro coincidiu com a Era do Jazz, os Roaring Twenties e a chamada Geração Perdida.

Locke relacionava o florescimento artístico da época a uma nova possibilidade de expressão coletiva e autodeterminação. Poetas e escritores como Langston Hughes, Claude McKay e Georgia Douglas Johnson recorreram ao jazz e ao blues ao escrever sobre experiências negras e ao procurar formas de expressão menos dependentes de estereótipos impostos pela sociedade branca.

O conceito de "Novo Negro" também esteve presente na música de compositores e intérpretes como William Grant Still e Duke Ellington. A suíte de Ellington Black, Brown and Beige relacionava música, história afro-americana e formas de representação coletiva.

O interesse pela cultura negra alcançou ainda compositores brancos. Entre os exemplos frequentemente citados está George Gershwin, cuja ópera Porgy and Bess empregou elementos musicais afro-americanos.

Receção A publicação de The New Negro recebeu apoio de escritores e intelectuais ligados ao Movimento do Novo Negro, mas não houve consenso sobre as escolhas de Locke nem sobre a direção que o movimento deveria seguir.

Eric Walrond, autor da coletânea de contos Tropic Death de 1926, criticou a seleção de líderes negros contemporâneos feita por Locke, considerando-a inadequada para responder às aspirações culturais e políticas das massas negras.

O acadêmico Harold Cruse criticou a noção de "Novo Negro" por considerá-la politicamente ingênua ou excessivamente otimista. O historiador Gilbert Osofsky também questionou interpretações da Renascença do Harlem que, em sua leitura, poderiam transformar experiências negras em imagens idealizadas.

W. E. B. Du Bois defendia uma relação mais direta entre produção cultural e ação política e não compartilhava integralmente a ênfase estética dada por Locke ao Movimento do Novo Negro.Watts, Eric King. Hearing the Hurt: Rhetoric, Aesthetics, and Politics of the New Negro Movement. Tuscaloosa: University of Alabama Press, 2012.

As interpretações do termo e do próprio movimento continuaram a mudar nas décadas seguintes. Ernest Julius Mitchell examinou a história da expressão "Black Renaissance" e as diferentes maneiras pelas quais o movimento foi definido retrospectivamente.Mitchell, Ernest Julius. "Black Renaissance: A Brief History of the Concept". Amerikastudien / American Studies, vol. 55, n.º 4, 2010, pp. 641–665. JSTOR 41158720.

Edição e projeto gráfico A primeira edição foi publicada em 1925 em Nova Iorque pela Albert and Charles Boni. Locke atuou como editor, Winold Reiss ficou responsável pela decoração do livro e por retratos, e Aaron Douglas produziu ilustrações.

A combinação de textos e imagens fazia parte da concepção editorial da obra e colocava lado a lado literatura, ensaio, retrato e ilustração.

Legado A publicação ampliou a circulação dos trabalhos de autores incluídos na antologia e tornou-se um ponto de referência para discussões posteriores sobre a Renascença do Harlem e a ideia do "Novo Negro".

A obra recebeu novas edições ao longo das décadas seguintes. Registros bibliográficos do WorldCat reúnem edições publicadas desde 1925, entre elas uma edição da Martino Fine Books de 2015.

Os textos de Locke também passaram a ser estudados em trabalhos dedicados à autoria negra, masculinidade, sexualidade, identidade e comunidade. Anna Pochmara examinou esses temas em The Making of the New Negro: Black Authorship, Masculinity, and Sexuality in the Harlem Renaissance.

Leonard Harris abordou a filosofia de Locke em artigos sobre identidade e comunidade. Outros estudos examinaram a presença da África e da cultura africana no pensamento de Locke e na produção literária do período.

Autores como Zora Neale Hurston procuraram na África e nas tradições afro-americanas material para seus próprios trabalhos. Artistas como Aaron Douglas, William H. Johnson, Archibald Motley e Horace Pippin produziram obras ligadas à estética e aos temas associados ao Movimento do Novo Negro.

Ver também

As Almas da Gente Negra Movimento de Artes Negras Nadir das relações raciais nos Estados Unidos Roaring Twenties

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