Aune Arrafique Paxá ibne Maomé (; Medina, – Taife, ) foi um xarife dos Du Aune e emir de Meca de 1882 até sua morte. Filho do emir Maomé ibne Abede Almuine, era irmão dos emires Abedalá Camil Paxá, Huceine ibne Maomé e Abede Alilá. Antes de assumir definitivamente o emirado, exerceu-o brevemente de forma interina em 1877 e posteriormente serviu como vizir e membro do Conselho de Estado do Império Otomano em Constantinopla. Aune Arrafique foi nomeado emir pelo sultão em 1882, depois da deposição de Abede Almotalibe ibne Galibe. Seu governo, que se prolongou por aproximadamente 23 anos, foi marcado pelas disputas em torno da divisão de autoridade entre o emir e os governadores otomanos do Hejaz.
Depois de inicialmente enfrentar a política centralizadora do governador Osmã Nuri Paxá, conseguiu consolidar sua posição e ampliar sua influência sobre as tribos, a administração regional e os assuntos relacionados ao haje. Mais tarde, estabeleceu uma estreita relação de cooperação com o governador , e ambos se tornaram as principais autoridades políticas da província. Durante seu emirado, Aune Arrafique procurou preservar as prerrogativas políticas e econômicas tradicionalmente exercidas pelos xarifes diante da crescente intervenção do governo central no Hejaz. Seu período de governo coincidiu com a expansão das comunicações imperiais e o início da construção da Ferrovia do Hejaz, medidas que reforçavam a capacidade de intervenção de Constantinopla na região. Aune Arrafique permaneceu no cargo até morrer em Taife, em 1905, sendo sucedido por seu sobrinho Ali Paxá ibne Abedalá.
Vida
Aune Arrafique era filho do emir Maomé ibne Abede Almuine e pertencia aos aúnidas (Du Aune), ramo dos catádidas da linhagem haçânida da dinastia haxemita, descendente do clã dos haxemitas. Era irmão dos emires Abedalá Camil Paxá, Huceine ibne Maomé e Abede Alilá. Nasceu em Medina no fim de Dulrija de 1256 A.H. (fevereiro de 1841). Após a morte de Abedalá, em junho de 1877, Aune Arrafique exerceu interinamente o Emirado de Meca enquanto se aguardava a chegada de Huceine, que havia sido escolhido pela Sublime Porta como sucessor. Com a posse deste, Aune Arrafique foi chamado a Constantinopla, onde recebeu a dignidade de vizir e tornou-se membro do Conselho de Estado. A oportunidade para assumir definitivamente o emirado surgiu em 1882. Naquele ano, o governador otomano do Hejaz, Osmã Nuri Paxá, depôs Abede Almotalibe ibne Galibe e colocou interinamente no governo Abede Alilá. O sultão , porém, não confirmou a escolha e nomeou Aune Arrafique, que se encontrava em Constantinopla. A decisão foi comunicada ao Hejaz no fim de Dulcada de 1299 A.H. (outubro de 1882), ficando Abede Alilá encarregado do governo até a chegada do irmão. Aune Arrafique chegou a Gidá em 9 de Dulrija e entrou em Meca no dia seguinte, assumindo o emirado. A administração otomana de 1301 A.H. (1884) registra-o como emir de Meca com a dignidade de vizir.
Os primeiros anos de seu governo foram marcados por disputas com Osmã Nuri acerca da distribuição de autoridade no Hejaz. O governador procurava ampliar a administração direta da província e restringir prerrogativas tradicionalmente exercidas pelo emir, particularmente sua influência sobre as tribos. Aune Arrafique, por sua vez, procurou preservar a autonomia administrativa do emirado e recorreu à corte de Constantinopla contra as medidas do governador. A disputa prolongou-se até 1886, quando Osmã Nuri foi afastado do Hejaz. A saída do governador fortaleceu consideravelmente a posição de Aune Arrafique. A elevada rotatividade dos governadores que se seguiram permitiu-lhe ampliar sua influência sobre a administração regional e consolidar relações próprias com as tribos e com funcionários do governo central. Uma das principais fontes de poder político e econômico do emir era o haje. Aune Arrafique exercia influência sobre os guias de peregrinos, o transporte entre Gidá e Meca e as relações com as tribos responsáveis pela segurança das rotas. Esse sistema também deu origem a numerosas denúncias de exploração econômica dos peregrinos. Em 1883, participou de um acordo envolvendo agentes ligados ao transporte dos peregrinos do Sudeste Asiático, pelo qual receberia uma quantia por cada peregrino transportado em troca de empregar sua influência sobre os guias; segundo Ochsenwald, o sistema elevou consideravelmente o preço das passagens e parte dos lucros era destinada ao emir. Também recebeu comissões associadas à venda compulsória de exemplares do Alcorão impressos localmente aos peregrinos javaneses, prática registrada em 1882 e novamente a partir de 1888.
Ao mesmo tempo, a segurança do haje dependia das relações mantidas com as tribos do Hejaz. O emir e a administração otomana distribuíam subsídios e negociavam com chefes tribais para assegurar a passagem das caravanas, mas os acordos eram frequentemente rompidos. Em 1895, a deterioração dessas relações chegou a interromper temporariamente o transporte entre Gidá e Meca. Aune Arrafique dispunha de forças próprias e de alianças entre os beduínos, recursos que lhe permitiam exercer uma autoridade que não dependia exclusivamente das instituições provinciais otomanas. A posição do emir fortaleceu-se ainda mais durante o longo governo de , que assumiu o governo do Hejaz na década de 1890. Embora inicialmente houvesse desconfiança entre ambos, Aune Arrafique e Ratibe estabeleceram posteriormente uma relação de cooperação e tornaram-se as duas principais autoridades políticas da província. Aune Arrafique conservara uma posição particularmente forte em razão da sucessão de governadores anteriores e de sua influência sobre as tribos, o haje e os assuntos de Meca. Essa resistência tornou-se particularmente visível na expansão das comunicações imperiais. A construção de linhas telegráficas no Hejaz permitiria ao governo central comunicar-se diretamente com suas autoridades locais e diminuiria a dependência de intermediários regionais. Fontes otomanas examinadas por estudos modernos atribuem a Aune Arrafique e Ratibe Paxá esforços para retardar a extensão da rede, inclusive por meio de sua influência sobre grupos beduínos que se opunham às obras.
A resistência do emir à centralização, contudo, não implicava oposição ao domínio otomano em si. Ochsenwald interpreta sua atuação sobretudo como uma tentativa de conservar as prerrogativas políticas e econômicas tradicionalmente exercidas pelo emirado dentro da ordem imperial. A construção da Ferrovia do Hejaz, iniciada no começo do , apresentou problema semelhante. A linha, concebida durante o governo de Abdulamide II, permitiria transportar peregrinos, funcionários e tropas com maior rapidez e reforçaria a presença do governo central no interior da Arábia. Embora as autoridades xarifianas não se opusessem publicamente ao projeto, havia preocupação com as consequências que uma eventual extensão da ferrovia até Meca teria sobre a autonomia política do emirado e sobre os rendimentos provenientes do transporte tradicional dos peregrinos. Aune Arrafique permaneceu à frente de Meca até morrer em Taife, em 17 de julho de 1905, depois de aproximadamente 23 anos de governo. Foi sepultado junto de seu irmão Abedalá Camil no mausoléu de Abedalá ibne Alabás, em Taife. Sua morte abriu nova disputa pela sucessão entre os Du Aune. Embora seu irmão Abede Alilá figurasse entre os candidatos, Ratibe Paxá apoiou seu sobrinho Ali Paxá ibne Abedalá, filho de Abedalá Camil, que acabou escolhido pelo governo otomano para sucedê-lo.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século XIX Categoria:Árabes do século XX Categoria:Xarifes de Meca Categoria:Aúnidas Categoria:Vizires do Império Otomano Categoria:Naturais de Medina Categoria:Árabes do Império Otomano