Mocambo foi uma designação empregada no Brasil colonial para comunidades e assentamentos formados principalmente por escravos fugitivos. O termo aparece na documentação colonial antes da generalização de quilombo, passando posteriormente os dois vocábulos a coexistir e, em muitos contextos, a ser empregados como sinônimos. Não existiu, porém, uma distinção uniforme entre mocambo e quilombo baseada no tamanho ou no grau de organização dos assentamentos; o emprego das denominações variou conforme a época e a região.
Os mocambos constituíram uma das formas de resistência à escravatura nas Américas portuguesas. Embora frequentemente instalados em áreas de difícil acesso, muitos mantinham relações econômicas e sociais com vilas, fazendas e outras populações próximas. Podiam combinar agricultura, trocas, redes de informação e, em determinados casos, ataques a propriedades da sociedade esclavagista.
O termo está particularmente associado à história do Palmares. A documentação seiscentista relativa a Palmares emprega amplamente mocambo para designar seus assentamentos, enquanto o vocábulo quilombo passou a aparecer com maior frequência na documentação colonial a partir do final do século XVII.
Terminologia e etimologia
A palavra mocambo é de origem africana, chegando ao português através das relações estabelecidas entre Portugal, a África Central e o Brasil. Sua etimologia exata tem sido discutida pela historiografia e pela linguística. Flávio dos Santos Gomes relaciona mocambo ou mukambu ao quimbundo e ao quicongo, associado a estruturas usadas na construção de abrigos e acampamentos; outros autores propõem sentidos como "esconderijo", "cumeeira" ou "telhado".
O uso da palavra no português também apresentou variações. No Vocabulario Portuguez e Latino, de Rafael Bluteau, publicado em 1716, mocambo designava tanto um bairro de Lisboa associado a pescadores e negros quanto, no Brasil, aldeias de negros compostas por choupanas. Na edição reformada do dicionário, publicada em 1789 por António de Morais Silva, a acepção brasileira foi definida por referência aos quilombos e às habitações construídas nos matos por escravos fugitivos.
O emprego documental do termo no Brasil remonta pelo menos ao início do século XVII. Uma descrição do estado do Brasil elaborada em 1612 por Diogo de Meneses empregou mocambo para agrupamentos de africanos que haviam fugido do cativeiro.
Relação com o termo quilombo
Mocambo e quilombo não tiveram significados invariáveis ao longo do período colonial. Segundo Schwartz, fugas e mocambos foram fenômenos recorrentes durante a escravatura brasileira, enquanto a palavra quilombo, de origem igualmente centro-africana, se difundiu posteriormente como outra designação para as comunidades de fugitivos.
Gomes observa que, nas primeiras décadas da colonização, as comunidades de fugitivos eram chamadas principalmente de mocambos. O termo quilombo começa a aparecer na documentação colonial no final do século XVII, sem eliminar imediatamente a denominação anterior. João José Reis também assinala que, antes da consolidação do vocábulo quilombo, o termo corrente era mocambo.
O uso podia variar regionalmente. No século XVIII, documentos coloniais podiam empregar mocambo com maior frequência na Bahia, enquanto quilombo se tornava comum em Minas Gerais. Na Amazônia, ambos continuaram em circulação durante os séculos XVIII e XIX; grupos do baixo Amazonas chegaram a utilizar para si próprios a designação mocambeiros.
Por essa razão, a historiografia não estabelece uma oposição geral segundo a qual todo mocambo seria necessariamente menor ou menos organizado que um quilombo. Os vocábulos podiam designar fenômenos semelhantes ou sobrepostos, e seus usos dependeram da documentação, da região e do período histórico.
Organização e relações com a sociedade colonial
Os mocambos apresentaram grande diversidade de tamanho, duração e organização. Muitos se instalaram em locais que dificultavam a ação das autoridades, mas isso não significava necessariamente isolamento. Schwartz identificou, na Bahia colonial, comunidades localizadas relativamente próximas de vilas, engenhos e áreas cultivadas, mantendo diferentes formas de contato com a população circundante.
As atividades econômicas variavam de acordo com o lugar e a conjuntura. Agricultura, caça, pesca e comércio podiam coexistir com furtos, ataques ou outras formas de obtenção de recursos. As relações com a sociedade escravista incluíam tanto conflitos quanto trocas, alianças e redes de informação.
Essa variedade dificulta a definição dos mocambos como um único modelo social. Alguns eram pequenos agrupamentos de curta duração, enquanto outros formaram comunidades estáveis, com áreas cultivadas, estruturas defensivas e relações políticas internas e externas mais complexas.
Palmares
A documentação relativa a Palmares é um dos principais conjuntos documentais para o estudo dos mocambos no século XVII. A historiadora Ana Carolina Viotti observa que as fontes coevas utilizam amplamente o termo para Palmares e seus assentamentos, antes de a historiografia posterior consolidar a expressão "Quilombo dos Palmares".
Palmares não correspondia a uma única povoação. Em diferentes momentos, a documentação registra vários assentamentos ou cercas, entre eles o Mocambo do Macaco, Mocambo de Aca Inene, Mocambo de Dambiabanga, Mocambo do Osenga e a Cerca de Subupira. A distribuição territorial dos mocambos mudou ao longo do século XVII. A historiografia recente distingue pelo menos três conjunturas geográficas: a do período da ocupação holandesa, a descrita na Relação de 1678 e a posterior ao fracasso do acordo de paz, quando os mocambos aparecem mais dispersos e afastados do litoral.
A mudança terminológica ocorrida no fim daquele século esteve ligada, segundo parte da historiografia, tanto à repercussão de Palmares quanto à circulação atlântica de conceitos provenientes da África Central. O uso crescente da palavra quilombo não implicou o desaparecimento imediato de mocambo, que continuou presente na documentação de outras regiões.
Uso no século XIX
O termo permaneceu em uso depois do período de maior expansão de Palmares. Na Amazônia paraense do século XIX, a documentação registra tanto mocambo quanto quilombo. Em algumas regiões, seus habitantes eram chamados de mocambeiros e desenvolveram comunidades ligadas às redes fluviais, aproveitando os rios para deslocamento, comércio, comunicação e proteção.
No Pará, foram documentados assentamentos de dimensões muito variadas. Alguns possuíam apenas poucas construções e serviam como pontos intermediários de fuga, enquanto outros constituíam comunidades maiores e mais duradouras. Essa diversidade reforça que o vocábulo mocambo não correspondeu a uma categoria rígida de tamanho ou forma de organização.
Bibliografia
Categoria:Quilombos Categoria:Escravidão no Brasil Categoria:História dos afro-brasileiros