Os topônimos de origem tupi são os nomes geográficos que têm origem no tupi antigo, língua falada em toda a costa brasileira quando da chegada dos portugueses, e que mais tarde foi levada ao interior pelos bandeirantes e por missionários, passando a ser conhecida como língua geral. O tupi, tanto o antigo como a língua geral dele derivada, gerou a grande maioria dos topônimos brasileiros de origem indígena.

Tais topônimos podem ser classificados em duas categorias: os espontâneos e os artificiais. Os primeiros são mais antigos, e foram atribuídos de modo natural pelos indígenas ou por colonizadores falantes de tupi. Os últimos são em geral muito mais recentes, e foram criações originais, isto é, foram inventados por alguém ou por um grupo de pessoas em uma época em que o tupi antigo não era mais falado. O filólogo Eduardo Navarro classifica os topônimos artificiais em adequados – aqueles que respeitam a gramática do tupi e designam lugares onde essa língua foi efetivamente falada – ou inadequados, os que não atendem a um desses critérios.

Outra classificação possível é por antiguidade: desde topônimos que foram criados há não muitas décadas (os artificiais) até os que são de origem pré-histórica, isto é, anterior à chegada dos europeus no Brasil. Estes últimos são mencionados nos primeiros textos coloniais, como o relato de Hans Staden sobre sua captura por indígenas que tiveram pouco ou nenhum contato com os colonizadores. Portanto, nomes como Itanhaém, Bertioga, Ubatuba – todos eles mencionados no texto de Staden – não podem ter sido criação europeia.

Para entender os topônimos em tupi antigo, é preciso ter noções da gramática do idioma. A grande maioria dos topônimos são composições, isto é, são formados por mais de uma palavra. Essa nova palavra terá a função de substantivo. Portanto, 'ypiranga (rio vermelho), em tupi, forma uma unidade conceitual, sendo um substantivo como outro qualquer.A composição em Tupi (Aryon Rodrigues, 1951) Há dois tipos de composição em tupi: as composições com relação genitiva e as composições atributivas (ver imagens). Entendendo esses dois tipos de composição, já é possível entender a maioria dos topônimos de origem tupi.

Tipos de topônimos

Os topônimos seguem padrões morfológicos que podem ser sintetizados nos seis itens a seguir (conforme Navarro). Destes, os mais importantes são as composições com relação genitiva e as composições atributivas (itens 2 e 3). Sua compreensão é importante também para o entendimento dos outros itens (como o 3 e o 6).

Os topônimos podem ser:

Substantivos simples Composições com relação genitiva (substantivo + substantivo) Composições atributivas (substantivo +adjetivo) Composições com a posposição -pe Nomes no grau aumentativo ou diminutivo Substantivo + verbo + sufixo -ab(a)

1. Substantivo simples Primeiramente, os topônimos podem ser apenas substantivos simples:

2. Composições com relação genitiva (susbtantivo + substantivo) Não sendo simples, quase todos os demais são composições. Estas podem ser de dois tipos: composições com relação genitiva e composições atributivas.

Em tupi, a relação genitiva ocorre quando dois substantivos são colocados em sequência de modo a dar a ideia de posse, origem ou pertencimento. Os termos devem vir em ordem invertida em relação ao que seria comum no português. Além disso, é preciso adicionar a preposição de, (ou suas variantes: de, da, do, das, dos) entre os termos. É importante lembrar que em tupi não há flexão de número. Portanto, arara pode ser traduzido tanto como arara ou araras, no plural.

Um substantivo encontrado com bastante frequência nesse tipo de composição é tyba, que em português pode realizar-se em TIBA, TUBA, TIBI, DUBA, DUVA, entre outros. Esse substantivo significa "ajuntamento". Portanto, indaiatuba significa "ajuntamento de indaiás, ou ainda "indaiazal", se fosse possível falar assim. (Neste último caso, tyba seria entendido como um sufixo, como o é em guarani.)

3. Composições atributivas (substantivo + adjetivo) Quando a composição contém um adjetivo, ela será uma composição atributiva. Nelas, não ocorre a inversão dos termos: eles aparecem na ordem em que apareceriam em português, com a diferença de que em tupi eles vêm justapostos (são escritos juntos) e são considerados uma palavra só; isto é, obedecem às mesmas regras que qualquer substantivo.

As composições atributivas frequentemente levam o sufixo -a, chamado de sufixo substantivador. Em tupi, todos os substantivos terminam em vogal. Se não terminam, deve-se acrescentar o sufixo substantivador ao final.

Como se pode perceber, o sufixo não faz parte do adjetivo, mas pertence à composição como um todo (bonito é porang não poranga; este último significa beleza). O sufixo substantivador só ocorre nas composições atributivas (pois, como os substantivos sempre terminam em vogal, uma composição com dois substantivos necessariamente termina em vogal.)

4. Composições com a posposição -pe Tanto as composições com relação genitiva como as atributivas podem receber a posposição -pe, que significa "em" ou "para". Todavia, pelo menos na toponímia brasileira, a grande maioria das composições que levam -pe são as com relação genitiva.

As posposições no tupi cumprem a mesma função que as preposições do português, sendo a única diferença o fato de elas virem depois do termo regido. Por vezes, a posposição -pe realiza-se em -be no português:

Há diversas hipóteses para a ocorrência dessa posposição no nome de tantos topônimos no Brasil. Contudo, não há uma explicação conclusiva a respeito. O que o filólogo Eduardo Navarro defende é que esses topônimos foram criados pelos próprios nativos, e estão entre os mais antigos do Brasil, podendo ser inclusive de origem pré-histórica, isto é, anterior ao descobrimento oficial do Brasil pelos europeus. Todavia, não sabemos o porquê de os indígenas colocarem o morfema -pe ao final dos nomes. Trata-se de um fenômeno gramatical que não conhecemos ao certo, pois essa função da posposição -pe não foi descrita por nenhum gramático do tupi.

5. Topônimos com sufixos aumentativos (-guaçu) ou diminutivos (-ĩ) Os graus do substantivo (aumentativo e diminutivo) se fazem pelos sufixos -'ĩ ou -'i, para o diminutivo, e -gûasu, -ûasu ou -usu para o aumentativo.

O sufixo -ûasu, pelo menos nestes casos, comporta-se como um adjetivo. Portanto, Iguaçu pode ser pensado como um caso de composição atributiva, mesmo que isso são seja o mais adequado. -Ûasu não é adjetivo pois não pode ser usado predicativamente. Isto é, não se pode dizer 'y i gûasu: o rio é grande. Só é possível falar ygûasu: rio grande.

O sufixo -'ĩ serve para formar o grau diminutivo. Ele não deve ser confundido com mirĩ, que é um adjetivo. (Cf. com Paramirim acima).

6. Substantivo + verbo + sufixo -ab(a) Trata-se do único tipo de topônimo que contêm verbo (ou mais especificamente, que é formado a partir de um verbo). Eles seguem o seguinte esquema:

Substantivo + verbo com sufixo -ab (formando um substantivo) + sufixo -a.

O sufixo -ab(a) forma os chamados deverbais, isto é, substantivos derivados de verbos. Têm vários significados. Nos topônimos, em virtude do contexto em que são utilizados, significam "lugar de".

Este tipo de topônimo pode ser entendido como uma simples relação genitiva, do tipo substantivo + substantivo, na qual um dos termos contém o sufixo -ab(a). Vale notar que nem todos os topônimos terminados em -aba contém o sufixo em questão. Uberaba, por exemplo, é a junção de 'y, água, e berab, brilhante, clara, mais o sufixo -a, significando águas claras, águas brilhantes.

Lista de topônimos Há a seguir uma lista de palavras em tupi antigo que podem ser encontradas na tabela a seguir. Este vocabulário, junto com o conhecimento das composições em tupi, permitirão ao leitor entender os topônimos apresentados. Não serão apresentadas palavras cujo significado for óbvio, como arara.

-a – sufixo substantivador (ver gramática) atã – duro berab – brilhante gûasu – grande gûyrá – pássaro gûyrátinga – garça (lit. pássaro branco) itá – pedra katu – bom mirĩ – pequeno oby – verde ou azul oka – casa panem – imprestável, amarelo pará – rio grande -pe – em, para (ver gramática) peb – chato, plano pirá – peixe pirang – vermelho pytang – com tom pastel, aclareado sunung – que ressoa taba – aldeia ting – branco, claro tyba – ajuntamento un – preto, escuro -usu – mesmo que gûasu '''y – água ou rio yby – terra ybyrá – madeira, árvore

A fonte dos topônimos a seguir é o Dicionário de Tupi Antigo (2013), do tupinólogo Eduardo Navarro. Nome SignificadoNomeSignificado Abaeté (lagoa) terrífico, horrorosoItaquerapedra dormente, asilo de pedra Abatiá grão de milhoBRODONI, O. "Dicionário: A Língua Tupi na Geografia do Brasil". Universidade do Texas - EUA. Apoio Cultural BANESTADO, O Banco do Paraná. 1990. p.48.Itararébica que corre por cima ou por baixo de uma rocha Andaraí rio dos morcegosItatiaiapedra cheia de pontas Aracaju cajueiro dos arás (aves psitacídeas)Itatibaajuntamento de pedras Araçatuba ajuntamento de araçásItumbiaracaminho da cachoeira, caminho das aguas Araraquara toca das araras ou dos ararás (variedade de formiga alada branca, semelhante ao cupim)Ituramaregião de cachoeiras Araruama lugar de as araras beberem águaJericoacoaratocas das tartarugas Atibaia cabelo crescido que os índios tinham sobre as orelhasJi-Paranário dos machados Avaré padreMandaguariespécie de abelhaFERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 076. Bariri coisa que treme, isto é, corrente veloz de rio em trecho de grande desnivelamentoManhuaçualgodoeiros grandes Barueri Flor VermelhaManhumirimalgodoeiros pequenos Bauru cesto de frutasM'Boi Mirimcobra pequena Botucatu serra boaParário grande Butantã terra muito duraParaíbario ruim Caçapava lugar de se atravessar a mataParaibunario ruim e escuro Caraguatatuba ajuntamento de gravatásParaitingario ruim e claro Catanduva ajuntamento de mata dura, isto é, de cerradoParanário Curitiba ajuntamento de pinheirosParanaguáenseada do mar Embu-Guaçu cobra grandeParanapanemario ruim, imprestável, de navegação difícilWikicionário: Paranapanema Guararema pau-d'alhoPavunalagoa escura Guaratinguetá muitas garçasPejuçaracaminho comprido Ibirapuera árvores velhasPindamonhangabalugar de fazer anzóis Iguaçu rio grandePiracicabalugar de chegar dos peixes Iguatemi rio das canoas emproadasPirassunungaestrondo de peixes Indaiatuba ajuntamento de indaiásPonta Porãponta bonita Ipanema rio amarelo, aziago, azarado, sem peixesSaquaremacaramujos fedorentos Ipiranga rio vermelhoSorocabarasgadura (da terra) Itabira pedra levantadaSuarão (praia em Itanhaém)estrela Sirius Itaboraí rio das pedras brilhantesTabapuãaldeia redonda Itaim pedregulhoTaguatingabarro amarelo claro Itaipu rio barulhento das pedrasTatuapécaminho de tatus Itamarati rio das pedras pequenasTaubatépedras altas Itacoatiara pedra pintadaTijucabrejo, charco, água podre Itajaí rio das pedras que emergemUbatubaajuntamento de canas-ubás, ou ajuntamento de canoas Itanhaém bacia de pedra (alusão a um aspecto do relevo fluvial da região)Uberabaágua brilhante Itapetinga laje de pedra branca, pedra achatada brancaUiraúnapássaros pretos Itapeva pedra chata (laje)Votorantimmorro pontudo Itaporanga pedra bonitaVotuporangamorro bonito Itaquaquecetuba ajuntamento de taquara-faca

Classificação dos topônimos por antiguidade Os topônimos de de origem tupi abrangem um espaço de tempo muito grande: há os que são antiquíssimos, anteriores mesmo à chegada de Cabral, e há os que foram criados há poucas décadas. A classificação a seguir, bem como os exemplos, foram fornecidos por Navarro.