Carly Elisabeth Simon (Nova Iorque, 25 de junho de 1943) é uma cantora e compositora estadunidense, também autora de livros infantis e uma autobiografia. Nasceu em família milionária: seu pai, Richard L. Simon, era um dos fundadores da grande editora Simon & Schuster e a família convivia com os ricos e famosos de Manhattan. Iniciando a carreira no final da década de 1960 numa parceria com a irmã Lucy, contudo alcançou o estrelato com a carreira solo na década seguinte, com uma série de sucessos que a fizeram vencedora do Grammy como artista revelação em 1971 e ter o seu hit "You're So Vain" listado como uma das 100 maiores canções de todos os tempos, além de fazê-la figurar no Grammy Hall of Fame, em 1994.

Com o seu sucesso de 1988 "Let the River Run", do filme Working Girl, Simon tornou-se a primeira artista na história a vencer um Grammy, um Oscar e um Globo de Ouro por uma canção inteiramente composta, letrada e executada por uma só pessoa.

Teve relacionamentos com diversos artistas famosos, como Cat Stevens, James Taylor (com quem foi casada por uma década e teve dois filhos), Kris Kristofferson e Warren Beatty; seu último casamento, apesar de durar vinte anos, terminou quando descobriu que o marido era gay; por fim ela se relacionou com o cirurgião Richard Koehler, com quem vivia, em 2015.

Simon venceu um câncer e, apesar de com a idade estar perdendo a voz, continuava a realizar apresentações junto ao filho Ben. Em 2015 publicou uma autobiografia parcial, intitulada Boys in the Trees. Um empresário certa vez declarou: "Cada momento de sua carreira foi um drama". Em 2022 foi introduzida no Rock and Roll Hall of Fame.

Contexto familiar e histórico O pai de Richard Simon era importador de chapéus da Europa, e não lhe permitira seguir a vocação pela música, profissão que considerava indigna; ele então encontrou um meio de continuar perto do instrumento predileto, tornando-se vendedor de pianos quando, ao tentar realizar uma venda para o comerciante de tapetes, Max Schuster, falavam sobre a biografia de Beethoven quando surgiu a ideia de fundarem, em parceria, uma editora – nascendo assim a Simon & Schuster, em 1924, publicando palavras cruzadas, então na moda. Por muitas vezes, Richard dizia que a editora se tornara um sucesso porque ele estava determinado a demonstrar ao pai que era um homem de negócios melhor que ele, vingando-se assim do pai.

Andrea Heinemann, sua mãe, era cubana, filha de um descendente de alemães com uma descendente de africanos. O programa da emissora PBS, Finding Your Roots (Encontrando Suas Raízes, em livre tradução), realizou em 2017 o teste de DNA em Carly encontrando 10% de origem africana e 2% indígena (a mãe de Andrea resultou em 40% afrodescendente). O programa foi a Cuba pesquisar registros da Igreja, pois a história que a avó de Carly contava era de que descendia do "rei da Espanha e de uma escrava marroquina" - versão que se revelou fantasiosa. Henry Louis Gates Jr, professor de Harvard e apresentador do programa, conjectura que a avó de Carly tenha inventado a história "porque sabia que era de origem mestiça, e isso era muito impopular nas décadas de 1950 e 1960”. Andrea vinha da Filadélfia e era uma pobre mas orgulhosa telefonista na empresa do marido, quando se conheceram. Era 1934 quando Richard entrou na empresa saudou a funcionária com um “Hello, little woman” (“Olá, garota pequena” – em livre tradução) ao que ela lhe respondera “Hello, big man” (“Olá, grande homem” – frase que a filha viria a transformar no título de seu álbum de 1983); eles se casaram um ano depois.

Moravam numa mansão em Riverdale, no Bronx; dividiam o tempo entre a casa em Greenwich Village, onde tinham como visitas Albert Einstein e Eleanor Roosevelt, e uma propriedade em Stamford. A mudança para o Bronx se deu na primavera de 1950, para a mansão de tijolos vermelhos em Riverdale, atendendo aos anseios de Andrea que, esposa de um jovem que ficara milionário e era uma figura de respeito nacional, poderia assim exibir sua condição; a casa passou a ser conhecida como “The Simon House”, com seu imponente jardim gramado, na qual seus filhos viriam a tocar, cantar e posar para fotos.

Um dos convidados na casa foi o astro do beisebol, Jackie Robinson; ele e sua família ficaram hospedados com os Simon enquanto ele construía sua própria casa em Stamford; o beisebol teria um papel importante na infância de Carly.

Richard alimentava o sonho de se tornar um pianista - algo sobre o que que a cantora refletiu: "Sempre achei que, se ele seguisse uma carreira como pianista, teria sido mais feliz"; analisando-o na maturidade, disse acreditar que o pai não gostava nem mesmo de ser judeu. Sua condição na empresa, contudo, principiou a se deteriorar em meados da década de 1940, quando os sócios o pressionaram para ingressar na nova onda de livros de bolso; Richard recusou-se e, com isto, começou a ser posto de lado nas decisões nos negócios; seu estado emocional, que já definhava, sofreu com o golpe e ele tornou-se cada vez mais afastado de todos. Em 1957 sua saúde começou a definhar definitivamente, tornando-o quase um inválido, e a condição nos negócios corriam sério risco; vagava pela casa alheio à realidade, sem distinguir o dia da noite até que, a 31 de julho de 1960, ele finalmente veio a ter o ataque cardíaco que o matou.

Eram convidados frequentes em sua casa Oscar Hammerstein II, Richard Rodgers e George Gershwin, criando um ambiente musical especial. Sua irmã Lucy, por exemplo, viria mais tarde a compor as músicas para o show da Broadway, The Secret Garden. Seu tio Peter, irmão de Andrea, foi quem ensinou Carly a jogar beisebol e foi empresário de Sam Cooke, sendo ele mesmo um aficionado pela cultura musical (e as mulheres) negra: quando tinha setenta anos (quatro antes de morrer) lançou uns sete álbuns com o nome de Peter "Snake Hips" Dean.

Infância: baixa autoestima, abuso e ambiente musical miniaturadaimagem|esquerda|Foto de Carly criança, na capa de seu livro de memórias. Em registro de 2006, Carly falava de uma infância onde seu pai tinha apenas uma regra para os filhos: enquanto cresciam, toda noite tinham que ir até a sala de estar onde ele lia para ela e os irmãos poemas de Whitman, Tennyson ou Shakespeare e, depois, enchia a casa com o som de música clássica, que ouvia na biblioteca e eles escutavam de seus quartos. No mesmo registro, ela se pergunta onde estava a mãe, e responde que ela também ouvia tudo isso e ia beijar os filhos em suas camas - ressaltando que isto era algo muito bom, e que ao menos uma vez, em suas lembranças, isso ocorrera.

Na sua autobiografia, contudo, ela revela que o pai era distante e "frágil"; a ausência de amor paterno era bastante sentida pela pequena Carly. Ele, por vezes, chegava a ser cruel como quando, na fase em que ela sonhava ser Scarlett O'Hara, mentira-lhe que alguém parecido com Clark Gable viria até sua casa e, quando ela se arrumara a caráter, deparou-se com um velhote desajeitado, enquanto o pai ria-se dela. Ao lado disso, sua mãe mantinha um caso extraconjugal com um rapaz de dezenove anos, Ronny, que fora contratado para ser babá de seu irmão Peter; os dois passaram a viver juntos, no terceiro andar da casa.

Quando tinha apenas sete anos de idade, Carly começou a ser abusada por um rapaz de dezesseis; manteve segredo sobre a perda de inocência até os dez anos, quando resolveu contar para suas irmãs o que estava ocorrendo, mas elas não acreditaram; quando tinha onze anos, finalmente, contou para a mãe sobre os abusos e ela, que mantinha um amante na própria casa, tomou como única providência manter o abusador por um ano afastado da residência. O amante da mãe, Ronnie Klinzig, seria na verdade o treinador de tênis do irmão Peter, e Carly o odiava.

Suas irmãs lhe contaram do romance adulterino da mãe quando ela tinha doze anos (1957); para ela foi a partir de então que desenvolveu as crises de ansiedade que iriam lhe acompanhar por toda a vida, sobretudo nas vezes que tinha de encarar o palco.

A irmã mais velha, Joey, estudava ópera e, quando ensaiava, o som do piano era ouvido por toda a casa; completava o ambiente musical em que crescera a presença de vários tios, tanto pelo lado paterno quanto materno, que lidavam com música. A música era o recurso para manter-se longe do ambiente familiar desagregado e ela, que desenvolvera uma gagueira, passou a ter aulas de canto, descobrindo ali seu talento natural para a arte.

Desde pequena Carly tinha complexo de inferioridade, e a gagueira apenas complicou este quadro; isto influenciou a perspectiva com que via seus irmãos, muitas vezes exagerada pela baixa autoestima.<ref name=bergland></ref> Ela lembrava de sentir-se como o patinho feio em meio a belos cisnes: sempre fora a mais feia das irmãs e os convidados não escondiam isto quando saudavam as filhas dos Simon: elogiavam a beleza de Lucy, a elegância de Joanna e, a ela, diziam apenas "Oi, Carly". O fato era tão notório que chegou a ser registrado pelo escritor Sloan Wilson em suas memórias, dizendo que todos os Simon eram bonitos, "exceto Carly".

O beisebol teve um importante papel na infância da cantora; além do astro do esporte Jackie Robinson, que era vizinho em Stanford, naquela época o time dos Dodgers era sediado no Brooklyn e Carly muitas vezes assistia aos jogos no Ebbets Field dentro do campo, no banco, sentada no colo de Pee Wee Reese - um dos maiores nomes do time; e o time todo a elegeu sua mascote, fazendo-lhe uma camiseta especial - tornando oficial sua condição de mascote; deste tempo ela se recorda de que o próprio Jackie lhe ensinara alguns arremessos e que o esportista tinha um olhar especial, "como se estivesse pensando sobre o que estava prestes a falar, antes que dissesse algo."

Seu pai a forçava treinar ao piano mas, quando a ouvia tocar, ele próprio tomava o instrumento e passava a executar como se ela não estivesse mais ali, e ela efetivamente acabava se afastando.

Tinha quinze anos quando o pai morreu; cinco anos antes Richard Simon sofrera um infarto; Carly então desenvolveu um comportamento compulsivo: batia 500 vezes na madeira todas as noites, para com isto evitar que ele morresse: como ele não morrera na primeira vez, ela continuou a repetir o ritual; aos poucos foi diminuindo as batidas: para 300 até que, quando ele finalmente faleceu, em 1960, ela batia 100 vezes na madeira; o gesto refletia a esperança que tinha de ver os pais se amando, um dia.

Anos 1960: Dupla com a irmã e início da carreira Com a morte do pai, a herança que ele deixou foi, em tempo relativamente curto, dissipada.

Lucy havia comprado um violão na loja Manny's Music, situada na 48th Street, e foi tocá-lo no seu gabinete onde ela tinha uma coleção de LPs e, ouvindo Joan Baez ou outro artista, tentava acompanhar com os três únicos acordes que aprendera; logo a irmã ensinou estes acordes para Carly e esta, animada, comprou uma violão para si e logo descobriram como usar capos; as duas furaram suas orelhas e, mesmo com a irmã estudando enfermagem, adotaram um visual ousado com capa e chapéu. Cantando no estilo folk, Carly possuía um raro timbre barítono em mulheres, que complementava a voz da irmã, com a qual era fácil de harmonizar.

As duas então começaram a realizar viagens sem compromissos em que se apresentavam, até que no verão de 1963 foram de carona até Provincetown (no Cabo Cod, em Massachusetts) onde, ao final do cabo, havia um bar-clube chamado The Moors, cuja atração havia sido convocada para a Guerra do Vietnã. As duas cantaram ali e depois, no mesmo verão, foram descobertas por Charlie Close, amigo de Lucy e que era sócio de Harold Leventhal, empresário dos The Weavers e Pete Seeger; este, então, conseguiu que elas se apresentassem no programa de shows da ABC, Hootenanny