O Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) é uma unidade da Universidade de São Paulo. Voltada à pesquisa, à docência e à difusão cultural e científica. Foi criado em 1989, a partir do desmembramento dos setores de arqueologia e etnologia do Museu Paulista, aos quais se fundiram as coleções do Instituto de Pré-História da USP, do antigo museu homônimo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e do Acervo Plínio Ayrosa.Santos, 1998, pp. 202. Está localizado na Cidade Universitária, na Zona Oeste de São Paulo.Comissão do Patrimônio Cultural da USP, 2000, pp. 442.
O museu possui um dos maiores acervos de artefatos arqueológicos e etnográficos do Brasil, composto por mais de cento e cinquenta mil (150.000) peças, formado por meio de coletas de campo, escavações, compras, permutas, comodatos e doações, desde o fim do século XIX. A coleção arqueológica abrange os povos e civilizações do Mediterrâneo e do Oriente Médio, da América pré-colombiana e, sobretudo, do Brasil pré-colonial. A coleção etnográfica abrange peças relativas às populações africanas e afro-brasileiras e aos povos indígenas de todas as regiões do Brasil. Possui ainda uma vasta biblioteca, com cerca de 60 mil volumes, entre livros, catálogos, teses, periódicos e obras raras.Santos, 1998, pp. 204. Devido à riqueza de seu acervo, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural de São Paulo.
O MAE oferece cursos de extensão e disciplinas optativas para estudantes de graduação. Em nível de pós-graduação, mantém o Programa de Arqueologia para graduados em geral, formando profissionais nas áreas de arqueologia pré-histórica e histórica e arqueologia clássica. Promove exposições e programas educativos voltados à comunidade em geral. A pesquisa é desenvolvida na forma de atividades de gabinete, campo e laboratório, em convênio com diversas instituições brasileiras e estrangeiras.Santos, 1998, pp. 203. Mantém o Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas Mário Neme, na cidade de Piraju, e o Museu Regional de Iguape, no Vale do Ribeira, como núcleos de apoio logístico e operacional para pesquisas de campo. Também possui vínculos com o Centro de Arqueologia Biomas da Amazônia, no município de Iranduba, em conjunto com a Universidade do Estado do Amazonas. Entre 1991 e 2011, publicou regularmente a Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, em formato impresso e com periodicidade anual, mas desde 2012, a Revista do MAE passou ser semestral, em formato eletrônico e de acesso aberto através do Portal de Revistas da USP.
História As coleções arqueológicas e etnográficas do Museu Paulista upright=0.8|thumb|esquerda|Imagem de uma sala de exposição do Museu Paulista com artefatos indígenas, em 1937. A formação do acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP está intrinsecamente relacionada ao processo histórico de desenvolvimento dos setores de arqueologia e etnologia do Museu Paulista, uma vez que o MAE é herdeiro direto destas coleções. É do Museu Paulista que procedem alguns dos objetos mais antigos e raros do acervo do MAE. Já na coleção inicial do Museu Paulista, composta por objetos provenientes do vasto e eclético acervo particular amealhado em meados do século XIX pelo comerciante Joaquim Sertório, ao qual se juntou o acervo do extinto Museu Provincial da Associação Auxiliadora do Progresso da Província de São Paulo (fundado em 1877), existiam peças etnográficas e arqueológicas, além de outros objetos de naturezas diversas, como itens históricos, zoológicos e botânicos, seguindo o modelo de museu enciclopédico, de cunho naturalista, típico das instituições museológicas do século XIX, e refletindo o caráter de gabinete de curiosidades da referida coleção Sertório.Dorta, 2000, pp. 25.
Instalado no palácio do Ipiranga, o Museu Paulista demonstra interesse pela pesquisa arqueológica e pela etnografia desde a sua inauguração em 1895, como atesta o primeiro volume da Revista do Museu Paulista, deste mesmo ano, que traz um artigo assinado por Hermann von Ihering, primeiro diretor do museu, intitulado "A civilização pré-histórica do Brasil meridional", versando sobre aspectos etnográficos das populações indígenas do sul do Brasil.Paiva (ed.), 1984, pp. 20. Durante toda a gestão de Ihering, o museu lograria ampliar consideravelmente as coleções de arqueologia e zoologia, principalmente por meio de permutas com instituições congêneres.
Após a saída de Ihering, entretanto, o museu começaria a ceder à tendência internacional de especialização dos museus enciclopédicos, abandonando aos poucos o perfil de museu de história natural: em 1927, a seção de botânica foi transferida para o recém-criado Instituto Biológico da Defesa Agrícola e, em 1939, as coleções zoológicas passam para a guarda da Secretaria da Agricultura, que pouco depois as utiliza como acervo base do Museu de Zoologia. Permanecem no palácio do Ipiranga as coleções arqueológicas, etnográficas e históricas, conferindo ao Museu Paulista o caráter de "museu de memória", seguindo o projeto elaborado por Afonso d'Escragnolle Taunay. Essa nova configuração, entretanto, não trouxe prejuízos para as atividades científicas do museu, uma vez que o mesmo encontrava-se vinculado à Universidade de São Paulo desde a fundação desta, em 1934, na condição de Instituto Complementar. A partir de 1963, o museu é definitivamente incorporado à universidade, como órgão de integração.
Uma outra importante fase de mudanças no Museu Paulista se daria a partir de 1946, quando a instituição passou a ser dirigida pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda. O novo diretor criou a Seção de Etnologia, deixada aos cuidados de Herbert Baldus, um dos precursores da etnologia no Brasil, e passou a realizar pesquisas nos domínios da antropologia e da arqueologia como suas atividades principais. Baldus ficou encarregado de dar início às primeiras expedições científicas de trabalho de campo e de coleta sistemática de artefatos etnográficos junto às populações indígenas. Estas expedições, das quais participaram o pesquisador Harald Schultz e o indianista Curt Nimuendaju, entre muitos outros, dirigiam-se a diversas partes do território brasileiro, retornando com grandes lotes de objetos, incluindo cerâmicas, tecidos, exemplares da arte plumária e artefatos arqueológicos em geral. Sobre os frutos dessas expedições, Baldus comentaria, em 1953:
"Posso afirmar que a atual Secção de Etnologia do Museu paulista, no sétimo ano de sua existência, já não faz má figura ao lado dos museus etnológicos do velho e do Novo Mundo. E verdade que, em tamanho, continua sendo um anão entre gigantes. Mas, já se está aproximando do fim para o qual a orientei desde sua criação: tornar-se, dentro do organismo do Museu Paulista, um museu sui-generis, o "Museu do Índio Brasileiro". Ainda que estejamos longe de possuir o número de peças do Museu de Gotemburgo ou do nosso Museu nacional, andamos em bom caminho para satisfazer, como poucos museus do mundo, as exigências científicas modernas. Nossas expedições foram organizadas sempre no sentido de colher, não tanto peças espetaculares, mas todo e qualquer objeto que possa contribuir para ilustrar a cultura material de uma tribo em sua totalidade."
Na era pós-Baldus, o Museu Paulista buscaria manter o rigor científico das pesquisas. A partir de 1968, com o provimento das funções de arqueólogo, o museu passa a realizar pesquisas sistemáticas em sítios arqueológicos, em conformidade com as modernas concepções científicas da época. As coleções arqueológicas são reorganizadas e desmembradas da Seção de Etnologia, passando a compor um departamento próprio. Multiplicam-se a partir de então os programas de pesquisa abrangendo diferentes regiões do território brasileiro, na maior parte das vezes em convênio com outras instituições. Têm início, entre outros, o Projeto Paranapanema, coordenado por Luciana Pallestrini, visando o levantamento e a análise dos sítios arqueológicos do trecho paulista do rio ParanapanemaPaiva (ed.), 1984, pp. 22., o Projeto Anhanguera, sob direção de Margarida Andreatta, que realiza prospecções e escavações no estado de Goiás, em cooperação com a Universidade Federal de GoiásPaiva (ed.), 1984, pp. 24., e o Projeto Piauí, coordenado por Niède Guidon, responsável por uma série de pesquisas no município piauiense de São Raimundo NonatoPaiva (ed.), 1984, pp. 40., cujos achados arqueológicos culminariam na criação do Parque Nacional Serra da Capivara, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1991.
Além das peças reunidas em escavações, coletas, expedições científicas e doações, compras eventuais de coleções privadas contribuiriam para a expansão quantitativa e qualitativa do acervo arqueológico do Museu Paulista. É o caso da altamente relevante coleção de cerâmica arqueológica tapajônica, adquirida em 1971 com recursos providos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Trata-se de uma coleção de mais de 8.000 peças cerâmicas, estatuetas e objetos líticos, formada a partir da agregação de duas coleções particulares, pertencentes a Ubirajara Bentes e José da Costa Pereira, coletadas ao longo de mais de vinte anos em uma área que se estende de Santarém até o rio Xingu.Gomes, 2002, pp. 521.
O Acervo Plínio Ayrosa Um segundo núcleo importante de objetos hoje conservados no Museu de Arqueologia e Etnologia tem sua origem no extinto Museu de Etnografia fundado em 1935 pelo professor Plínio Ayrosa, regente da Cadeira de Etnografia e Línguas Tupi-Guarani da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O acervo do Museu de Etnografia começou a ser formado na década de 1930, por meio de coletas e doações. Parte considerável desse acervo, por sua vez, tem origem nas coleções do Centro de Documentação Etnográfica e Social do Instituto de Educação da USP, destacando-se a Coleção Ramkokamekra-Canela. Essa preciosa coleção, composta por 391 objetos, fora formada por Curt Nimuendajú e doada por ele ao Centro de Documentação Etnográfica e Social em 1936. Com a extinção do centro, em 1938, todas as suas coleções foram transferidas para o Museu de Etnografia.Dorta, 2000, pp. 26.
A partir da década de 1970, em consonância com o maior desenvolvimento da etnologia no Brasil, o acervo do Museu de Etnografia registraria uma expressivo crescimento, chegando a 4.000 peças na época de sua incorporação ao MAE. Em função dessa conjectura histórica, a maioria dos objetos procedentes do Museu de Etnografia é composta por materiais relativamente recentes, coletados por pesquisadores do Departamento de Antropologia da USP e de outras instituições. Há, entretanto, pouca documentação histórica a respeito do Museu de Etnografia e muitos dos documentos são contrastantes entre si, a começar pela denominação da instituição, por vezes chamada de "Museu de Etnologia". Os registros internos da Universidade de São Paulo referem-se à coleção, desde ao menos o ano de 1975, sob a denominação "Acervo Plínio Ayrosa".
O Instituto de Pré-História upright=0.8|thumb|esquerda|Sambaqui com restos humanos. Acervo do MAE-USP. O Instituto de Pré-História (IPH) foi estabelecido em 1952 pelo intelectual Paulo Duarte, após o seu retorno ao Brasil, quando do fim do Estado Novo. Inicialmente denominado Comissão de Pré-História, o instituto esteve a princípio vinculado à Casa Civil. Inspirado na instituição homônima parisiense e contando com o apoio de Paul Rivet, então diretor do Museu do Homem, o IPH foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da arqueologia acadêmica brasileira, além de realizar inúmeras escavações e pesquisas científicas em diversas partes do território nacional.Funari, 2003, pp. 26.