Aníbal​ (𐤇𐤍𐤁𐤏𐤋; Cartago, – Libissa, c. 183–) foi um general e estadista cartaginês. É considerado um dos maiores estrategistas militares da história.

A vida de Aníbal decorreu no conflituoso período em que Roma estabelecia a sua supremacia na bacia mediterrânica, superando outras potências (a própria República Cartaginesa, Macedônia, Siracusa e Império Selêucida). Foi o general mais ativo da Segunda Guerra Púnica, em que executou um dos mais audazes feitos militares da Antiguidade: Aníbal e seu exército, no qual se incluíam trinta e oito elefantes de guerra, partiram da Hispânia e atravessaram os Pirenéus e os Alpes com o objetivo de conquistar o norte da Itália. Ali derrotou os romanos em grandes batalhas campais como a do rio Trébia, a do lago Trasimeno e a de Canas, que ainda são estudadas em academias militares na atualidade. Apesar de sua brilhante campanha, Aníbal não chegou a invadir Roma. As razões para tal dividem opiniões entre os historiadores, e vão desde falta de materiais para o cerco até considerações políticas que defendem que a intenção de Aníbal não era tomar Roma, mas obrigá-la a render-se. Não obstante, Aníbal conseguiu manter seu exército na Itália por mais de uma década, recebendo escassos reforços. Após a invasão da África por parte de Cipião, o senado cartaginês o chamou de volta a Cartago, onde foi finalmente derrotado por Cipião na Batalha de Zama.

Finda a guerra contra Roma, entrou na vida pública cartaginesa. Enfrentou a oligarquia dirigente que o acusou de estar mancomunado com o selêucida Antíoco III, pelo que teve que se exilar no ano de 190 a.C. Passou ao serviço deste último monarca, cujas ordens o levaram de novo ao confronto com a República Romana na Batalha do Eurimedonte, em que foi derrotado. Uma vez mais exilado, se refugiou na corte de Prúsias I, rei da Bitínia. Os romanos exigiram dos bitínios que entregassem o cartaginês, ao que o rei concordou. Contudo, antes de ser capturado, Aníbal preferiu o suicídio.

O historiador militar Theodore Ayrault Dodge o chamou de "pai da estratégia". Foi admirado inclusive por seus inimigos — Cornélio Nepos o batizou como "o maior dos generais".Cornélio Nepos: Sobre os homens ilustres (De viris illustribus), Livro III: Dos mais destacados generais dos povos estrangeiros (De excellentibus ducibus exterarum gentium). XVIII: Aníbal (Hannibal).

Texto bilingüe alterno latín - español. Texto latino, com índice eletrônico no Projeto Perseus. Texto latino na Wikisource. Texto latino no sitio da Bibliotheca Augustana (Augsburgo). Texto inglés. Mesmo seu maior inimigo, Roma, adaptou certos elementos de suas táticas militares a seu próprio acervo estratégico. Seu legado militar lhe conferiu uma sólida reputação no mundo moderno e foi considerado como um grande estrategista militar por grandes militares como Napoleão ou Arthur Wellesley, o duque de Wellington. Sua vida foi objeto de muitos livros, filmes e documentários.

Nome miniaturadaimagem|199x199px|Ilustração de Aníbal

A forma portuguesa do nome é derivada do Latim. Historiadores gregos grafavam o nome como Anníbas Bárkas ().

Aníbal era seu prenome. O nome de Aníbal foi registrado em fontes cartaginesas como ḤNBʻL (em púnico: ). Sua vocalização exata continua em discussão. Leituras sugeridas incluem Ḥannibaʻl ou Ḥannibaʻal, significando "benção de Baʻal", "Ba'al é gracioso", ou "Ba'al tem sido gracioso"; ou Ḥannobaʻal, com o mesmo significado.

Barca (, brq) era o sobrenome de sua família aristocrática, significando "brilhante" ou "raio".

É então equivalente ao nome árabe Barq ou ao nome hebraico Barak ou ao epíteto em grego antigo keraunos, que era comumente atribuído aos comandantes militares no período helenístico.

Os historiadores designam família de Amílcar com o nome Bárcidas, a fim de evitar a confusão com outras famílias cartaginesas com os mesmos nomes (Aníbal, Asdrúbal, Amílcar, Magão, etc.) Como com os nomes gregos e o costume romano, os patronímicos eram comuns na nomenclatura cartaginesa, de forma que Aníbal também teria sido conhecido como "Aníbal filho de Amílcar".

Antecedentes históricos

Em meados do século III a.C., a cidade de Cartago, onde nasceu Aníbal, estava fortemente influenciada pela cultura helenística oriunda dos vestígios do império de Alexandre Magno. Cartago ocupava então um lugar importante nas trocas comerciais da bacia mediterrânea e em particular nos empórios da Sicília, Sardenha e nas costas da Ibéria e da África do Norte. A cidade dispunha igualmente de uma importante frota de guerra para proteção de suas rotas marítimas e transporte do ouro, procedente do golfo da Guiné, e do estanho, procedente das costas britânicas.

A outra potência mediterrânea da época era Roma, com a qual Cartago entrou em guerra durante vinte anos em um conflito conhecido como a Primeira Guerra Púnica, a primeira guerra de grande envergadura em que Roma saiu vitoriosa. Este enfrentamento entre a República Romana e Cartago foi provocado por um conflito secundário em Siracusa, e se desenrolou por terra e mar em três fases: combates na Sicília (264-256 a.C.), combates na África (256-250 a.C.) e de novo na Sicília (250-241 a.C.). Durante esta última fase, nasceu a fama de Amílcar Barca que conduziu a guerra contra Roma desde o ano 247 a.C.. Com a grande derrota naval nas ilhas Égadas, ao noroeste da Sicília, os cartagineses se viram obrigados a firmar o Tratado de Lutácio na primavera de 241 a.C. com o cônsul Caio Lutácio Cátulo. Entre os termos impostos a Cartago por este tratado, se encontravam a cessão dos territórios da Sicília e das ilhas menores entre ela e a costa africana, assim como onerosas compensações de guerra.

Finda a Primeira Guerra Púnica, apesar das precauções adotadas por Amílcar Barca, Cartago encontrou problemas na hora de dispersar seus regimentos armados de mercenários, que não tardaram em assaltar a cidade e provocar um conflito da envergadura de uma guerra civil. Este episódio histórico é conhecido como a Guerra dos Mercenários. Amílcar conseguiu reprimir esta rebelião depois de três anos, após vencer os rebeldes no rio Bagradas e de novo, com um grande derramamento de sangue, na Batalha do Desfiladeiro da Serra no ano de 237 a.C.. Da sua parte, Roma havia aproveitado a falta de resistência para tomar a Sardenha, anteriormente em mãos dos cartagineses. Após Cartago protestar por essa manobra, que supunha uma violação do tratado de paz recentemente firmado, Roma declarou guerra, mas propôs anulá-la se entregassem não somente a Sardenha, mas também a Córsega e mais compensações econômicas. Impotentes, os cartagineses tiveram que ceder e em 238 a.C. ambas as ilhas se converteram em possessões romanas. Para compensar este revés, Amílcar marchou à Ibéria, onde se apoderou de vastos territórios no sudeste do país. Durante uma década, Amílcar dirigiu a conquista do sul da Ibéria, apoiado militar e logisticamente por seu genro Asdrúbal. Esta conquista restabeleceu a situação econômica de Cartago, graças à exploração das minas de prata e estanho.

Ascensão Juventude 263x263px|thumb|Caricatura do juramento de ser sempre inimigo de Roma, que Aníbal fez a seu pai. |esquerda

Aníbal Barca nasceu provavelmente em Cartago no ano de 247 a.C.. Era o filho mais velho do general Amílcar Barca e de sua mulher ibérica. Os autores greco-romanos registraram pouco sobre a educação de Aníbal. É sabido que aprendeu as letras gregas, a história de Alexandre Magno e a arte da guerra com um preceptor espartano, chamado Sosilos. Desta maneira, adquiriu o modo de raciocínio e de ação que os gregos chamavam Métis, fundados na inteligência e a astúcia.

Depois de haver expandido seu território, Amílcar enriqueceu sua família e, por extensão, Cartago. Para alcançar esse objetivo, Amílcar se baseou na cidade de Gadir (atual Cádis, Espanha), próxima ao estreito de Gibraltar, e começou a submeter as tribos ibéricas. Naquele momento, Cartago se encontrava em tal estado de empobrecimento que sua marinha era incapaz de transportar o exército à Hispânia. Logo, Amílcar foi obrigado a fazer seu exército marchar até as Colunas de Hércules, para cruzar ali em barco o estreito de Gibraltar, entre o que atualmente seriam Marrocos e Espanha.

O historiador romano Tito Lívio menciona que quando Aníbal foi ver o seu pai e lhe rogou que lhe permitisse acompanhá-lo, este aceitou com a condição de que jurasse que durante toda sua existência nunca seria amigo de Roma. Outros historiadores referem que Aníbal declarou a seu pai:

Seu aprendizado tático começou sob a égide de seu pai e continuou aprendendo de seu cunhado, Asdrúbal, o Belo. Asdrúbal sucedeu Amílcar, morto no campo de batalha contra os rebeldes ibéricos em 229 a.C.. Nomeado chefe da cavalaria por Asdrúbal, Aníbal revela de imediato sua resistência, seu sangue frio, e sua capacidade para se fazer apreciado e admirado por seus soldados. Asdrúbal conduziu uma política de consolidação dos interesses ibéricos de Cartago. Para tanto, casou Aníbal com uma princesa ibérica de nome Imilce, com a qual teve um filho. Contudo, esta aliança matrimonial é considerada improvável e não está atestada por todos. Em 227 a.C., Asdrúbal fundou a nova capital cartaginesa na Hispânia, Qart Hadasht, hoje Cartagena. Em 226 a.C. Asdrúbal assinou um tratado com Roma pelo qual a Península Ibérica ficava dividida em duas zonas de influência. O rio Ebro constituía a fronteira: Cartago não deveria se expandir mais ao norte deste rio, na mesma medida que Roma não se estenderia ao sul do curso fluvial.

Comandante Supremo

Após a morte de Asdrúbal, Aníbal foi escolhido pelo exército de Cartago, aquartelado na Península Ibérica, para sucedê-lo como comandante em chefe. Mais tarde, Aníbal seria confirmado no cargo pelo governo cartaginês apesar da oposição liderada por Hanão (um rico aristocrata). Nessa época, Aníbal contava 25 anos. Tito Lívio faz uma breve descrição do jovem general:

Tendo assumido o comando, Aníbal passou dois anos consolidando o poder sobre as terras hispânicas cartaginesas e terminando a conquista dos territórios situados ao sul de Ebro. Em 221 a.C., em sua primeira campanha como chefe das forças cartaginesas na Hispânia, dirigiu-se ao planalto Central e atacou os Olcades, tomando sua principal cidade, Althia. Essa conquista expandiu os domínios púnicos até a vizinhança do rio Tejo. Na campanha do ano seguinte, 220 a.C., avançou para o oeste e enfrentou os Váceos, atacando as cidades de Helmântica e Arbocala. No retorno da expedição com um grande espólio para Qart Hadasht, uma coalizão liderada por Carpetanos, com contingentes de Váceos e Olcades, lançou um ataque próximo ao rio Tejo, mas foi derrotada pela perícia militar do jovem general cartaginês.

Temendo a crescente presença dos cartagineses na Hispânia, Roma concluiu uma aliança com a cidade de Sagunto, declarando a cidade um protetorado. Sagunto estava localizada a uma distância considerável do rio Ebro, na parte sul, no território que os romanos tinham reconhecido como dentro da área de influência cartaginesa. Esta manobra política criou tensão entre as duas potências: enquanto os romanos argumentavam que de acordo com o tratado assinado em 241 a.C., os cartagineses não poderiam atacar um aliado de Roma, os púnicos se apoiavam na cláusula do documento que reconhecia a soberania hispânica cartaginesa sobre territórios situados ao sul do Ebro.