Afrocentrismo é uma ideologia dedicada ao estudo da história africana. Sua principal finalidade é buscar a autodeterminação e uma ideologia pan-africana na cultura, filosofia e história de divulgar e incentivar o nacionalismo e o orgulho étnico entre os afro-americanos como uma arma de efeito psicológico contra o racismo global.
A principal teoria do afrocentrismo é a do Egito Negro, segundo a qual os habitantes do antigo Egito eram negros. O afrocentrismo é uma reação contra o eurocentrismo e suas distorções da história. Entre os estudiosos, o trabalho e os escritos de autores que se dizem afrocentristas são geralmente considerados parte de um discurso ativista e de uma reescrita eniesada da história próxima ao protocronismo. Algumas teorias da conspiração incorporam elementos afrocêntricos.
Terminologia
A palavra afrocentrismo, provavelmente, foi empregada pela primeira vez por John Henrik Clarke em 1972 para afirmar a necessidade da história ser reescrita partir dos sujeitos africanos e afro-americanos. O adjetivo afrocêntrico aparece em uma entrada da Encyclopedia Africana, possivelmente escrita por W. E. B. Du Bois.
O substantivo afrocentricidade remonta a década de 1970, e foi popularizado por Molefi Asante no livro Afrocentricity: The Theory of Social Change de 1980. A diferença fundamental entre afrocentrismo e afrocentricidade é que o primeiro coloca a pessoa africana no centro dos seus próprios interesses e enfatiza os usos culturais, enquanto a afrocentricidade é uma posição acadêmica dentro do estudo da história e realidade africanas. Afrocentricidade, assim, é “definida como uma epistemologia que apela a uma leitura do mundo a partir de África, colocando a África e os africanos como sujeitos da ação histórica no ponto de partida de qualquer análise da sua própria realidade”.
De acordo com Asante, embora afrocentrismo e afrocentricidade sejam frequentemente confundidos com tendo o mesmo significado, nem todo afrocentrista é adepto do afrocentrismo. Isto tem causado confusões, inclusive no meio acadêmico, sobre quem pode ser considerado um afrocentrista. Por um lado, ser um afrocentrista pode significar aderência à proposta de Asante e, por outro, ao afrocentrismo. Para Asante, o afrocentrismo "referem-se a um amplo movimento cultural do final do século XX que possui um conjunto de ideias filosóficas, políticas e artísticas que fornecem a base para as dimensões musicais, indumentárias e estéticas da personalidade africana", enquanto afrocentricidade "é uma teoria da agência, isto é, a ideia de que os povos africanos devem ser vistos e verem-se como agentes e não como espectadores da revolução e da mudança histórica. Para este fim, a Afrocentricidade procura examinar todos os aspectos do lugar dos africanos na vida histórica, literária, arquitetônica, ética, filosófica, econômica e política".
Definição
Na década de 1970, vários autores como Cheikh Anta Diop, Théophile Obenga e Roy D. Morrison II, estavam preocupados em realizar e incentivar pesquisas que evidenciassem a urgência da valorização de um pensamento nativo africano. Anta Diop e Obenga, em especial, afirmavam a primazia da civilização africana e que ela era pautada pela harmonia. Nesse movimento inicial de colocar as africanos em posições de poder, em 1975, o nigeriano Chinweizu diagnosticava que a cultura africana era vista como exótica, quando deveria ser avaliada pela sua afrocentricidade.
O afrocentrsimo surge como uma corrente filosófica afro-americana na década de 1980 com a publicação de Molefi Kete Asante dos livros Afrocentricity (1980) e The Afrocentric Idea (1987). Asante procura, a partir dos estudos históricos de Anta Diop, postular a África como o berço da civilização em matéria de filosofia, ciência, religião, política, arte e comunicação. O afrocentrismo, portanto, é formulado para atuar como um paradigma alternativo ao eurocentrismo. Além da importância de Anta Diop e Obenga para a construção das bases históricas, filosóficas e linguísticas do afrocentrismo, há a retomada de nomes importantes do pensamento africano e afro-americano, como Du Bois, Marcus Garvey, Booker T. Washington e Malcom X para a construção desse "verdadeiro sistema multifacetado, em que ideologia, ciência, pensamento teórico, ideia do futuro, identidade coletiva formam um poderoso conjunto capaz de comunicar as etapas do resgate africano e afro-americano (“Njia”, o caminho) em contraposição ao imperialismo cultural e mental eurocêntrico".
Existem também posturas mais radicais que defendem, como Wilson Jeremiah Moses, que o afrocentrismo deveria ser entendido como uma religião e uma utopia ou, como Yaacov Shavit, que coloca-o como um europeísmo enegrecido. A principal finalidade do afrocentrismo é buscar a autodeterminação e uma ideologia pan-africana na cultura, filosofia e história.
História
Surgimento nos Estados Unidos O afrocentrismo surge nos Estados Unidos na década de 1960, em um contexto de reivindicações políticas e culturais da população afro-americana. Ao longo das décadas de 1960 e 1980, questões como as políticas afirmativas, a luta pelo fim da discriminação racial e a abertura do espaço cultural e acadêmico aos afro-americanos são importantes para a construção do afrocentrismo nos Estados Unidos. Em 1987, por exemplo, foi fundado por Molefi Asante, na Universidade Temple, o primeiro programa de doutorado em Estudos Afro-Americanos. O afrocentrismo também colocava-se como uma alternativa ao liberalismo de Ronald Reagan ao mesmo tempo que o rejeitava e criticava.
De acordo com Stephen Howe, o afrocentrismo surge de debates ocorridos, em 1968, na African Studies Association (ASA). Essa associação era composta, em sua maioria, por pessoas brancas, o que levou a criação da African Heritage Studies Association (AHSA) por John Clarke com uma perspectiva de reunir exclusivamente intelectuais negros na reconstrução da história e da cultura africana com uma perspectiva afrocêntrica.
Principais argumentos
Egito negro como berço da civilização
miniaturadaimagem|Parte do Papiro de Rhind, um dos mais antigos documentos matemáticos registrados e frequentemente utilizado para demonstrar o alto conhecimento matemático dos antigos egípciosA tese do Egito como berço da civilização tem como fundamento a ideia de difusionismo defendida pelo afrocentrismo, que busca demonstrar a influência da cultura e do conhecimento egípcio antigo na cultura grega na antiguidade e, por extensão, na cultura ocidental em geral. O difusionismo é utilizado para responder a duas questões fundamentais: comprovar a influência egípcia sobre a cultura grega e estabelecer a origem única das civilizações africanas contemporâneas a partir do Egito. São quatro os principais argumentos através das quais o Afrocentrismo busca alcançar a resposta dessas questões, baseados nas diferentes formas de interação entre os egípcios e os gregos na antiguidade, sendo eles: ocupação militar, transferências demográficas, trocas comerciais e a presença de intelectuais gregos nas escolas egípcias.
O afrocentrismo proposto por autores ligados a Asante e Diop é "egitocêntrico", defendendo a ideia de que o antigo Egito, frequentemente referido como o "Egito Negro" desempenhou um papel crucial na formação da civilização ocidental. Além de Diop e Assante, outros autores que corroboram com essa tese, como Théophile Obenga argumentam que muitos dos princípios filosóficos, religiosos, científicos e éticos, como a ideia de imortalidade da alma e o autoconhecimento (conhece-te a ti mesmo), que moldaram a cultura ocidental têm raízes no Egito antigo, que seria uma civilização negra, argumentando que o pensamento filosófico se originou no Egito, não na Grécia, e que conceitos filosóficos gregos, como o nous, têm precursores egípcios, sob a acusação de um "legado roubado" por parte dos gregos, mas sem especificar quais preceitos ou filósofos egípcios precedentes realizaram essa influência. Além disso, esses autores argumentam que filósofos gregos como Sócrates e Platão foram influenciados pelos ensinamentos egípcios, acreditando que Sócrates — entendido aqui como um homem negro — adquiriu conhecimentos e ensinamentos durante sua estada no Egito, que teria ocorrido após a morte de seu mestre, e onde teria permanecido por 13 anos, estudando os ensinamentos de seu guia o sacerdote Sechnuphis em Heliópolis. Com isso, argumentam que Platão desempenhou um papel central na transmissão da influência egípcia para a filosofia grega. Alguns afrocentristas, como Cheikh Anta Diop, afirmam que os africanos, em particular os egípcios, possuíam uma superioridade ética devido ao ambiente climático mais favorável em que viviam. Eles argumentam que os princípios éticos egípcios, como a busca pela paz, justiça e equilíbrio, influenciaram a ética em outras culturas, incluindo a grega e a cristã.
Os afrocentristas, principalmente os ligados a Obenga e Asante, que abordam mais diretamente a questão da religião, também defendem que o monoteísmo tem raízes africanas, incluindo a figura de Moisés, que é considerado africano, e que o monoteísmo egípcio, centrado no culto de Aton como única divindade e implementado pelo faraó Aquenáton, influenciou o cristianismo e outras religiões monoteístas. Além disso, o Egito antigo legou importantes conhecimentos para a ciência ocidental, incluindo medicina e matemática, como as soluções matemáticas descritas no Papiro de Rhind e os conhecimentos de medicina do templo de Amenófis III, que viriam a ter sua influência reconhecida até mesmo por médicos gregos, como Hipócrates e Herófilo.
Línguas africanas esquerda|miniaturadaimagem|Mapa dos troncos linguístico das Línguas africanas, que corrobora com estudos linguísticos realizados a partir dos anos 1990 e contraria a hipótese da língua egípcia antiga como origem de todos os idiomas do continente africano Intelectuais afrocentristas como Anta Diop e, principalmente, seu discípulo Obenga destacaram a necessidade de se encontrar ligações linguísticas que unissem os povos do continente africano, com uma raiz linguística em comum, para comprovar a influência do antigo Egito em toda a África antiga, sendo a origem dos fluxos civilizatórios que seguiram por todo o continente. Diferentemente das abordagens linguísticas elaboradas a partir dos anos 1990, que buscam a origem da língua humana na costa sul-ocidental do continente africano, esses autores argumentavam uma origem egípcia dos idiomas de todo o continente, sustentando o ideal do Egito negro como berço da civilização humana. Desta forma, buscavam ligar a Língua egípcia antiga com os idiomas da África contemporânea. Esse argumento é de fundamental importância para demonstrar a suposta unidade cultural africana, buscando unir o norte da África com a África Bantu e as demais regiões étnico-linguísticas do continente.
Essa tese incentivou uma onda de estudos da língua egípcia antiga e da egiptologia na França e em outros centros de estudos afrocentristas pelo mundo a partir dos anos 1980, que visavam compreender a origem do povo africano através de suas raízes egípcias, tanto de forma étnico-cultural, quanto de forma linguística.