Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (Orleães, – Orleães, ) foi um botânico, naturalista e viajante francês. O estudioso pertenceu aos primeiros grupos de cientistas, vindos da Europa, para realizarem suas pesquisas e explorações no Brasil Colônia, durante os anos de 1816 e 1822, período no qual a corte portuguesa estava instalada no país, na cidade do Rio de Janeiro.

Como resultado de suas expedições pelo território brasileiro, Auguste de Saint-Hilare reuniu mais de 30 mil amostras, sendo que eram 24 mil de espécimes de plantas e 6 mil espécies de animais. Dessas 6 mil, eram 2 mil aves, insetos e 135 mamíferos, além de inúmeros répteis, peixes e moluscos.Chisholm, Hugh, ed. (1911). "Saint-Hilaire, Augustin François César Prouvénçal de". Encyclopædia Britannica. 24 (11th ed.). Cambridge University Press. p. 9. A maioria das espécies coletadas era descrita pela primeira vez na história em seus livros, por esse motivo seus cadernos de campo ficaram tão conhecidos.

Ainda hoje, passados mais de 200 anos desde Saint-Hilaire chegou ao Brasil, sua presença ainda é comemorada e seus estudos ainda são revisitados. No ano de 2016, foi realizado o I Seminário Franco-brasileiro Botânica e História,I Seminário Franco-brasileiro Botânica e História CNPQ promovido pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, cujo marco era o aniversário de sua chegada. No mesmo ano, o 24º Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil,24º Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil que acontecia em Belo Horizonte, tinha-o como centro das discussões. E a Biblioteca Nacional inaugurava ao público uma exposição a trajetória percorrida pelo francês em território brasileiro, por meio de textos e imagens.

Vida Europa: primeiros anos Filho de um oficial da artilharia, pertencente à nobreza do interior França, Auguste de Saint-Hilare nasceu em 1779 na cidade de Orleães, região conhecida por ter sido palco do embate entre Joana D'Arc e os exércitos ingleses durante a Guerra dos Cem Anos. Desde pequeno o francês manifestava vocação nata para o estudo das ciências naturais, mas por conta dos imperativos do país, entendido como a Revolução Francesa, Saint-Hilaire foi enviado para a Alemanha, onde trabalhou no porto de Hamburgo e conheceu o também botânico Karl Sigismund Kunth.

Após a experiência malsucedida, Auguste começa sua carreira como naturalista. Entre suas influências, destaca-se o nome do botânico sueco Carolus Linnaeus, autor do livro Systema Naturae, de 1735, que teoriza sobre uma classificação hierárquica das espécies, e também o nome do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, cujas vida e obra foram tema de uma monografia de Saint-Hilare. É também inspirado pelas lendárias viagens oceânicas, datadas entre 1768 e 1779, do capitão inglês James Cook, que inclusive visitou a cidade do Rio de Janeiro.

Avançando na carreira de botânico e naturalista, Auguste Saint-Hilare torna-se professor do Museu de História Natural de Paris e, por meio de seus contatos na época, soube da missão que o conde de Luxemburgo, Charles Emmanuel Sigismond de Montmorency-Luxembourg, na época embaixador da França junto a Portugal, promoveria para o Brasil, em 1816, financiada pela corte do rei Luís XVIII. A expedição, também de caráter político, tinha como objetivo solucionar problemas fronteiriços entre a Guiana Francesa com o governo português de Dom João VI.

Brasil: viagens exploratórias entre 1816 e 1822 Auguste, com 37 anos, viajou pelo Brasil, durante os anos de 1816 a 1822, financiado pela França, tendo escrito importantes livros sobre os costumes e paisagens brasileiros do século XIX. O francês desembarcou no país na cidade do Rio de Janeiro em primeiro de junho daquele mesmo ano. Junto com ele e o conde de Luxemburgo, vinha um grande grupo de cientistas, entre eles, destaca-se o Conde de Clarac, Charles Othon Frederick John Baptist of Clarac, desenhista e arqueólogo também francês.Louis Gabriel Michaud, Biographie des hommes vivants: ou, Histoire par orde alphabétique... , vol. 4, 1819, p. 266 Paralelamente a sua chegada, desembarcava no país um outro grupo de franceses, no caso a Missão Artística Francesa, encabeçada pelos irmãos Taunay, Auguste-Marie Taunay Nicolas-Antoine Taunay e Aimé-Adrien Taunay, o pintor Jean-Baptiste Debret e o encarregado da missão Joachim Lebreton.

Durante os seis anos que viveu em meio a expedições, Saint-Hilaire percorreu inúmeros estados brasileiros. Entre eles, estão Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Goiás, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Isso inclui viagens às nascentes do rio São Francisco e do Jequitinhonha. O tempo de estadia e frequência eram variados, sendo que, por exemplo, estabeleceu-se por 15 meses em Goiás e viajou até Minas Gerais por três vezes. Sobre as condições do deslocamento, eram feitas majoritariamente por burros ou cavalos e os caminhos precisavam ser abertos por meio do facão, ação praticada pelos auxiliares, prioritariamente, escravos, em meio à mata virgem.

Comenta a Brasiliana da Biblioteca Nacional, sobre as faculdades de Saint-Hilare que ele não era um amador, mas, sim, um homem conhecedor da vasta literatura científica até então produzida e dos relatos de viagens de época, além de noções primordiais para um naturalista e para a proteção de suas descobertas, como saberes sobre dissecação de plantas, confecções de herbários, agricultura, transporte de vegetais.

Sobre seu envolvimento com o Brasil, destaca-se a união subjetiva, em suas pesquisas, do utilitarismo e da filantropia, muito presentes na literatura de viagens daquele século. Se por um lado, os objetivos daqueles que o teriam enviado eram a glória nacional, no caso da França, por outro lado, a busca individual também se dava pela melhora do bem-estar da humanidade por meio daquela infinidade de espécimes ainda desconhecidas e dos possíveis benefícios das plantas medicinais. A questão é que, à época, os caminhos da França eram considerados universais, ou seja, trabalhar para aquele país era trabalhar por toda humanidade.

Assim que chegou ao Rio de Janeiro, ele estabeleceu contato com Maller, o cônsul francês, e o funcionário da França, por sua vez, ajudava-o a enviar as descobertas de produtos naturais para Martinica, que é um departamento ultramarino insular francês no Caribe. Para além disso, junto ao frei Leandro do Sacramento, eles enviam outros espécimes também a Martinica e, agora, a Caiena. Foram 21 caixas com plantas vivas da periferia do Rio de Janeiro que foram endereçadas às colônias francesas. Sobre estas atividades, afirma a Brasiliana:

"Desse modo o sentimento de filantropia que permeava as atividades dos viajantes-naturalistas parte de uma distinção inicial básica: países civilizados com ciência, e países não totalmente civilizados com práticas empíricas tradicionais''''.

De maneira mais clara, as fronteiras nacionais deveriam ser abolidas e, assim, a ciência se tornaria universal e seu desenvolvimento seria útil a toda a humanidade. Por isso, onde passava, Saint-Hilaire recolhia informações sobre o uso de plantas na medicina e na alimentação. Bem diferente de seu compatriota François-Auguste Biard, descreveu com sensibilidade suas impressões sobre a variedade do mundo vegetal no Brasil em "Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais" (1830): "Para conhecer toda a beleza das florestas tropicais é necessário penetrar nesses retiros tão antigos como o mundo. Nada aqui lembra a cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e pinheiros; cada árvore tem, por assim dizer, um porte que lhe é próprio; cada uma tem sua folhagem e oferece frequentemente uma tonalidade de verde diferente das árvores vizinhas. Vegetais imensos, que pertencem a famílias distantes, misturam seus galhos e confundem sua folhagem."

Por seu trabalho, o naturalista recebia 3 000 francos anuais, valor que foi, posteriormente, elevado para 6 mil francos pagos pela França. Um possível facilitador de suas expedições era o fato dele ser um bom conhecedor do português ao nível de versar sobre origem de determinadas palavras e sobre as variantes regionais da língua, tratando-se da pronúncia. O que Saint-Hilaire coletou no país seria mais tarde usado em suas publicações e estudos sobre botânica, após junho de 1822, mês em que retorna à Europa, para toda a sua vida.

Roteiro no Brasil e Uruguai Principais localidades visitadas por Saint-Hilaire no Brasil e Uruguai (1816-1822).

Rio de Janeiro Rio de Janeiro, Cabo Frio, Macaé, Campos dos Goytacazes.

Volta de São Paulo: Rio Piraí, São João Marcos

Espírito Santo Itapemirim, Vila da Vitória (atual Vitória), Rio Doce.

Minas Gerais Primeira passagem: Barbacena, Vila Rica (atual Ouro Preto), Jequitinhonha, Minas Novas, Rio São Francisco, Sabará, Caeté, São João del Rei.

Segunda passagem: São João del Rei, Vila Rica (atual Ouro Preto), Serra da Canastra, Araxá, Paracatu.

Terceira passagem (vindo de Goiás rumo a São Paulo): Aldeia de Rio das Pedras (atual Cascalho Rico), Engenho de Furnas, Aldeia de Santana (atual Indianópolis), Tijuco, Farinha Podre (atual Uberaba), Rio Grande.

Quarta Passagem: Barbacena, São João del Rei, Vila Rica (atual Ouro Preto), Baependi, Serra da Mantiqueira, Pouso Alto, Passa Quatro.

Goyaz (Goiás) Santa Luzia (atual Luziânia), Corumbá (atual Corumbá de Goiás), Meia Ponte (atual Pirenópolis), Serra dos Pireneus, Córrego Jaraguá (atual Jaraguá), Ouro Fino, Ferreiro, Goiás (município), Serra Dourada, Caldas Novas, Rio Paranaíba.

São Paulo Primeira passagem: Rio das Pedras, Pouso Alto (atual Ituverava), Ribeirão Corrente, Franca, Fazenda Batatais (em Batatais), Fazenda de Lages, Rio Pardo, Casa Branca, Mogi-Guaçu, Rio Mojiguaçu, Mogi-Mirim, Engenho de Pirapitingui, São Carlos (Campinas), Jundiaí, Pico do Jaraguá, São Paulo, Itu, Porto Feliz, Sorocaba, Itapetininga, Itapeva.

Segunda passagem: Cachoeira (atual Cachoeira Paulista), Lorena, Guaratinguetá, Capela de Nossa Senhora Aparecida, Pindamonhangaba, Taubaté, Jacareí, Arraial da Escada (atual Guararema), Mogi das Cruzes, São Paulo, Bananal.

Paraná (pertencia a então província de São Paulo) Fazenda de Jaguariaíba, Fazenda Caxambú, Fazenda Fortaleza, Castro, Campo Largo, Curitiba, Paranaguá, Guaratuba.

Santa Catarina São Francisco (atual São Francisco do Sul), Ilha de Santa Catarina, Desterro (atual Florianópolis), Laguna.

São Pedro do Rio Grande do Sul (Rio Grande do Sul) Primeira Passagem: Torres, Tramandaí, Fazenda Boavista, Porto Alegre, Viamão, Mostardas, São José do Norte, Rio Grande, São Francisco de Paula (atual Pelotas), Capilha e Curral Alto (hoje no município de Santa Vitória do Palmar), Chuí.

Segunda passagem: Rio Butuí, São Borja, São Luís (atual São Luiz Gonzaga), Santo Ângelo, Rio Jacuí.

Cisplatina (Uruguai) Fuerte de San Miguel, Laguna de Castilhos, Rocha, Garzón, San Carlos, Maldonado, Montevidéu, Colônia do Sacramento, Mercedes, Belém.

Europa: últimos anos Auguste retorna para seu país de origem, após um caso de envenenamento por mel de vespa, acontecimento este que abala seriamente seu sistema nervoso. Assim, volta em busca alívio e tranquilidade para o sul da França. E, ali, concentrou-se no estudo do acervo que coletou e trouxe do Brasil, publicando inúmeras obras de referência na área de botânica, como os três volumes da Flora brasiliae meridionalis até hoje revisitada. Pela sua obra, em 1834, tornou-se membro correspondente da Academia de Ciências da Prússia e também recebeu a Ordem Portuguesa de Cristo.

Além das já mencionadas, o botânico também integrou inúmeras outras associações científicas, como a Academia Francesa, a Sociedade Lineana, em Londres, a Academia de Ciências de Lisboa, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro. Saint-Hilaire morreu aos 73 anos, na mesma cidade em que nasceu, Orleães.

Obra Contexto histórico brasileiro