Censor era um oficial da Roma Antiga responsável por realizar e manter os censos, garantir a "moralidade pública" ("Regimen morum") e supervisionar certos aspectos das finanças governamentais.Suolahti, J. (1963) The Roman Censors: A Study on Social Structure (Helsinki) Esta função de garantir a moralidade é a origem do sentido moderno das palavras "censor" e censura".

História Origem O "censo" () foi realizado pela primeira vez por Sérvio Túlio, o sexto rei de Roma. Depois da abolição da monarquia e da fundação da República Romana (509 a.C.), os cônsules assumiram a responsabilidade pelo censo. No contexto do chamado "Conflito das Ordens", o poder em Roma passou a ser exercido não apenas pelos cônsules, que eram sempre patrícios na época, mas também pelos "tribunos com poderes consulares" (ou apenas "tribunos consulares"), que podiam ser plebeus. Para evitar a possibilidade de os plebeus obterem o controle sobre o censo, os patrícios decidiram remover este poder de cônsules e tribunos consulares e criaram uma nova magistratura, a dos "censores", que seriam eleitos, sempre aos pares, entre os ex-cônsules e, portanto, exclusivamente entre os patrícios (até aquele momento).Jehne, M. (2011) ‘The rise of the consular as a social type in the third and second centuries BC’ in Beck et al. (eds.) Consuls and Res Publica (Cambridge) 212

Os censores continuaram sendo exclusivamente patrícios até 351 a.C., quando Caio Márcio Rutilo foi nomeado o primeiro censor plebeu.Lívio, Ab Urbe Condita vii.22. Doze anos depois, em 339 a.C., uma das leis publílias passou a exigir que um dos censores fosse sempre um plebeu.Lívio, Ab Urbe Condita viii.12. A despeito disto, nenhum censor plebeu foi escolhido até a eleição de Cneu Domício Calvino Máximo em 280 a.C..Lívio, Periochae Ab Urbe Condita 13 Em 131 a.C., os dois censores, Quinto Pompeu Rufo e Quinto Cecílio Metelo Macedônico, foram plebeus pela primeira vez.

A razão para que houvesse sempre dois censores estava na origem da função, quando os dois cônsules realizavam o censo juntos. Se um deles falecesse durante o mandato, outro era escolhido para substituí-lo — o censor sufecto — exatamente como acontecia com os cônsules, o que só aconteceu uma vez, em 393 a.C., quando Caio Júlio Julo foi substituído por Marco Cornélio Maluginense.Lívio, Ab Urbe condita IX 34.Plutarco, Vidas Paralelas, Camilo, 14 Contudo, os gauleses capturaram Roma naquele mesmo lustro (o mandato de cinco anos dos censores) e os romanos passaram a considerar a substituição de um censor como uma "ofensa aos deuses"Lívio, Ab Urbe Condita v.31. e, a partir de então, se um dos censores morresse, seu colega renunciava e dois novos censores eram escolhidos para substituí-los.Lívio, Ab Urbe Condita vi.27, ix.34, xxiv.43, xxvii.6.

Eleição Os censores eram eleitos pela Assembleia das centúrias, que se reunia sob a presidência de um dos cônsules.Aulo Gélio xiii.15Lívio, Ab Urbe Condita xl.45. Barthold Niebuhr sugere que eles eram, a princípio, eleitos pela Assembleia das cúrias e que a escolha desta era posteriormente confirmada pelas centúrias, mas William Smith acredita que "não há fonte autoritativa para esta suposição e sua veracidade depende inteiramente da correção dos pontos de vista de Niebuhr a respeito da eleição dos cônsules". Os dois censores eram obrigatoriamente eleitos no mesmo dia e, se por qualquer motivo isso não acontecesse, a eleição era invalidada e reiniciada no dia seguinte.Lívio, Ab Urbe Condita ix.34.

A Assembleia reunida para eleger os censores era realizada sob as graças de auspícios diferentes dos que eram necessários para as eleições de cônsules e pretores para que os censores não fossem considerados colegas destes altos magistrados, apesar de eles também terem, sobre sua eleição, a graça dos maxima auspicia.Aulo Gélio xiii.15. Esta assembleia era convocada pelos novos cônsules logo no início de seus mandatosLívio, Ab Urbe Condita xxiv.10, xxxix.41. e os novos censores, tão logo fossem eleitos e tivessem seus poderes conferidos por um decreto da Assembleia das centúrias ("lex centuriata"), iniciavam seu mandato de cinco anos.Cícero, De Lege Agraria ii.11

Como princípio geral, os únicos cidadãos elegíveis ao cargo de censor eram os que já haviam sido antes cônsules, mas houve algumas exceções. A princípio, não havia lei que impedisse que uma pessoa fosse eleita para dois mandatos, mas o único a conseguir o feito foi Caio Márcio Rutilo (em 294 e 265 a.C.). Naquele ano, ele próprio propôs uma lei para impedir um segundo mandato e, por isto, recebeu o cognome "Censorino".Plutarco, Vida de Coriolano 1Valério Máximo iv.1 §3.

Atributos do cargo O censorado (ou “censorato”) se diferenciava das demais magistraturas romanas pela duração do mandato. Os censores eram originalmente escolhidos por um lustro inteiro (um quinquênio), mas ainda no século V a.C. (433 a.C.), o mandato foi limitado a dezoito meses por uma lei outorgada pelo ditador Mamerco Emílio Mamercino.Lívio, Ab Urbe Condita iv.24, ix.33. Os censores também se diferenciavam pelo status e pela dignidade ligada ao cargo. Eles não detinham nenhum poder de imperium e, portanto, não andavam escoltados por lictores.Zonaras vii.19. Como seu status era conferido pela Assembleia das centúrias e não pela Assembleia das cúrias, seu poder era inferior ao de cônsules e pretores.Cícero, De Lege Agraria ii.11.

Apesar disto, o censorado era considerado como a mais elevada dignidade do estado romano, com exceção da ditadura e o censor era considerada um "magistrado sagrado" (), a quem se devia a maior reverência.Plutarco, Vida de Catão, o Velho 16, Vida de Flamínio 18, Vida de Camilo 2, 14, Vida de Emílio 38Cícero, Ad Familiares iii.10. A grande consideração e dignidade que o censorado obteve eram derivadas das importantes funções que gradualmente lhe foram encarregadas, especialmente o controle sobre o "regimen morum", o controle sobre a conduta e a moralidade dos cidadãos romanos. No exercício da função, os censores só estavam limitados por suas próprias visões de dever e não respondiam a nenhum outro poder estatal.Lívio, Ab Urbe Condita iv.24, xxix.37Valério Máximo vii.2 §6.

Os censores utilizavam uma cadeira especial chamada "cadeira curul" (), mas existem dúvidas sobre suas vestimentas oficiais. Uma bem conhecida passagem de PolíbioPolíbio, Histórias vi.53. descreve o uso de "imagines" em funerais, o que permite concluir que enquanto um cônsul ou pretor vestia a toga pretexta, de bordas púrpura, um general que realizou um triunfo vestia a toga picta, bordada, o censor vestia uma toga púrpura exclusiva de sua magistratura. Porém, outros autores afirmam que eles utilizavam as mesmas togas utilizadas pelas outras altas magistraturas.Zonaras vii.19 O funeral de um censor era sempre conduzido com grande pompa e esplendor e era conhecido como "funus censorium", uma honraria que seria, muito mais tarde, pelos imperadores romanos.Tácito Anais iv.15, xiii.2.

Abolição thumb|direita|upright=1|Sérvio Túlio, o sexto rei de Roma e criador do costume dos censos periódicos. A censura existiu por 421 anos, de 443 a.C. até 22 a.C., mas, durante este período, muitos lustros se passaram sem que nenhum censor fosse escolhido. Segundo uma fonte, o cargo teria sido abolido durante a ditadura de Sula.Schol. Gronov. ad Cic. Div. in Caecil. 3, p384, ed. Johann Caspar Orelli. Apesar da autoridade desta mesma fonte ser questionado, o fato em si é provável, uma vez que nenhum censo foi realizado nos dois lustros que correspondiam ao período entre a ditadura de Sula e o primeiro consulado de Pompeu (82 a.C.).

Seja como for, novos censores foram eleitos a partir daí. Em 58 a.C., uma das leis do tribuno da plebe Públio Clódio Pulcro prescreveu um procedimento mais complicado para que um censor pudesse expulsar um membro do Senado Romano e exigia que os dois censores estivessem de acordo com a expulsão.Dião Cássio, História Romana xxxviii.13Cícero, pro Sestio 25; de Prov. Cons. 15. Esta lei, porém, foi repelida no terceiro consulado de Pompeu, em 52 a.C., a pedido de seu colega, Quinto Cecílio Metelo Pio Cipião Násica.Dião Cássio, História Romana xl.57. Contudo, os censores jamais recuperaram seu poder e influência completamente.

Durante as guerras civis que se seguiram, nenhum censor foi eleito; foi apenas depois de um longo intervalo, em 22 a.C., que Lúcio Munácio Planco e Emílio Lépido Paulo foram escolhidos por Augusto para preencher a função.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Augusto 37; Vida de Cláudio 16.Dião Cássio, História Romana liv.2. Esta foi a última vez que censores foram escolhidos. Durante o período imperial, os imperadores realizavam as funções de censor com o título de praefectura morum ("prefeito da moral").

Alguns imperadores tomaram para si o título de censor quando realizavam um censo da população romana, como foi o caso de Cláudio, que nomeou o já idoso Lúcio Vitélio como seu colegaSuetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Cláudio 16<ref>Tácito, Anais xii.4, Histórias i.9.</ref> e com Vespasiano, cujo colega foi seu filho Tito.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Vespasiano 8, Vida de Tito 6. Domiciano assumiu o título de "censor perpétuo" (),Dião Cássio, História Romana liii.18. mas seu exemplo não foi seguido pelos imperadores subsequentes.

Funções As funções dos censores podem ser divididas em três categorias interligadas entre si. Em primeiro lugar, os censores eram responsáveis por realizar o censo, que consistia em criar e atualizar as listas de cidadãos e suas propriedades, incluindo a lista de senadores ("lectio senatus") e a dos equestres ("recognitio equitum"). Não menos importante, os censores eram responsáveis pelo "regimen morum", ou seja, pela manutenção da moral pública. Finalmente, os censores eram responsáveis pela administração das finanças estatais, incluindo a supervisão dos edifícios públicos e a construção de todas as novas obras públicas (como aquedutos ou estradas).Suolahti, J. (1963) The Roman Censors: A Study on Social Structure (Helsinki) 58f A função original da censura era muito mais restrita e se limitava quase que somente à realização do censo.Lívio, Ab Urbe Condita iv.8.

Censo romano

O censo romano era originalmente realizado no Campo de Marte e, a partir de 435 a.C., num edifício específico chamado Villa Publica, construído para este fim pelo segundo par de censores, Caio Fúrio Pácilo Fuso e Marco Gegânio Macerino.Lívio, Ab Urbe Condita iv.22Marco Terêncio Varrão, de Re Rustica iii.2.

Um relato das formalidades referentes à abertura de um censo está num fragmento das "Tabulae Censoriae" preservado por Marco Terêncio Varrão.Marco Terêncio Varrão, De lingua Latina vi.86, 87, ed. Müller. Depois dos auspícios , os cidadãos eram convocados por um leitor público a aparecer perante os censores. Cada tribo era chamada separadamente e os nomes de cada tribo eram provavelmente baseados em listas montadas previamente pelos tribunos de cada tribo. Cada pater familias tinha que se apresentar pessoalmente perante os censores, que se sentavam em suas cadeiras curul.Festus, s.v. Lacus Lucrinus; Schol. Bob. ad Cic. pro Scaur. p374, ed. Orelli.