O rio Doce é um curso de água da Região Sudeste do Brasil, que banha os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Origina-se na confluência dos rios Piranga e do Carmo, entre os municípios de Ponte Nova, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado, em Minas Gerais. Contudo, seu curso principal se inicia com a nascente do rio Xopotó, afluente do rio Piranga, em Desterro do Melo.

A partir do encontro dos rios Piranga e do Carmo, o manancial percorre até a foz no oceano Atlântico, banhando 38 municípios. O encontro com o mar forma um estuário que está localizado na altura do povoado de Regência Augusta, integrante do município de Linhares, no litoral do Espírito Santo. A bacia do rio Doce abrange de área de drenagem e quase 230 municípios, com uma população de mais de 3,6 milhões de habitantes, correspondendo à bacia mais importante totalmente inserida na Região Sudeste do Brasil.

Foi descrito pela primeira vez pelos colonizadores europeus por André Gonçalves em 1501. Contudo, núcleos urbanos se consolidaram nas margens do curso hídrico somente no , com a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas. A locação da ferrovia, que acompanha o rio Doce de Colatina ao Vale do Aço, deu início ao crescimento populacional ao permitir o desenvolvimento econômico. Trata-se de uma região com notável presença da agropecuária e da atividade industrial, sobretudo da mineração e da siderurgia. O potencial hidrelétrico do rio e seus afluentes é aproveitado pelas indústrias e pelo Sistema Interligado Nacional por meio de usinas hidrelétricas.

Apesar de sua importância geográfica, social e econômica, o manancial sofre gravemente com o assoreamento, desmatamento, baixa cobertura por matas ciliares e recebimento de esgoto sem tratamento. Essa situação foi agravada pelo rompimento de barragem em Mariana em 2015, quando a lama de uma barragem de rejeitos pertencente à Samarco chegou ao rio Doce através do rio do Carmo. Dessa forma, todo o leito foi contaminado por metais usados na mineração. Esse foi o maior impacto ambiental da história brasileira, mas antes mesmo desse acidente o rio já se posicionava entre os dez mais poluídos do país.

História A bacia do rio Doce possui rochas datadas do Eoarqueano e do Proterozoico, que remontam às primeiras idades da Terra. O rio, por meio do transporte de sedimentos, contribuiu com o molde do relevo dessa região no decorrer dos tempos. Também foi assim que se formou a diversidade de lagoas que fazem parte da bacia. Entretanto, o norte do Espírito Santo, incluindo o baixo rio Doce, só se formou a partir do aterramento do oceano Atlântico no Cenozoico. O manancial contribuiu com esse aterramento devido ao deslocamento de sedimentos, formando a superfície sob o atual município de Linhares ao longo do Pleistoceno e do Holoceno.

Desbravamento thumb|esquerda|Rio Doce em Tumiritinga, região que foi habitada por povos nativos no passado. A presença humana conhecida nas margens do rio Doce é relativamente tardia. Enquanto na Região Metropolitana de Belo Horizonte há registros arqueológicos com mais de 10 mil anos de idade, dentre os quais o fóssil de Luzia, os vestígios de vida humana mais antigos encontrados nas margens do rio são datados do . Nessa ocasião os tupis percorreram o curso vindos do litoral e chegaram a povoar áreas entre Governador Valadares e Tumiritinga, em Minas Gerais. Contudo, em algum momento, por razões não conhecidas, eles deixaram o local. Sabe-se que aimorés vindos do Espírito Santo e do sul da Bahia também frequentavam o Vale do Rio Doce, mas apenas nos meses da estação seca, pois nos meses chuvosos a proliferação de mosquitos e doenças tropicais era maior.

O rio era um dos limites da área de domínio dos aimorés, que se estendia até o rio Salitre, na Bahia. Todavia, eram seminômades e estavam em constante deslocamento. Pataxós e puris também podiam ser encontrados nas proximidades do leito. Foi descrito pela primeira vez por colonizadores portugueses por André Gonçalves em 13 de dezembro de 1501, durante expedição enviada pela Coroa Portuguesa para reconhecimento da costa do Brasil. Poucos anos mais tarde recebeu a denominação que permanece até hoje, "rio Doce", pois as primeiras expedições pelo litoral identificavam a água doce do rio no mar sem mesmo poderem avistar a foz. Antes de desaguar no oceano o curso faz uma curva que dificulta sua visualização. Posteriormente, tornou-se uma forma de penetração dos colonizadores para o desbravamento dos atuais estados do Espírito Santo e de Minas Gerais.

Sebastião Fernandes Tourinho foi o primeiro a percorrer o rio, de 1553 a 1573, em busca de ouro e esmeraldas. Em 1577, Salvador Correia de Sá, o Velho, também explorou o manancial. As primeiras entradas tinham o objetivo principal de procurarem por ouro e outros materiais preciosos. Mitos herdados dos indígenas davam conta que o vale guardava jazidas desses metais e pedras. Contudo, a floresta fechada, as doenças tropicais e a resistência dos indígenas foram fatores que repulsaram as intrusões. Fernão Dias chegou a anunciar que faria uma bandeira pelo rio Doce em 1672, mas diferente das anteriores partiria da cabeceira vindo das serras da Mantiqueira e do Espinhaço. Ele faleceu por malária em 1681, antes mesmo de entrar em contato com o manancial. Por outro lado, frentes dispersas dessas expedições conseguiram encontrar ouro em locais onde posteriormente fundaram arraiais, dentre os quais os que deram origem a cidades como Antônio Dias, Caeté, Mariana, Ouro Preto e Sabará.

Pedro Bueno Cacunda, minerador que também percorreu o curso dos rios Guandu e Manhuaçu, obteve sucesso ao alcançar o alto rio Doce em busca de áreas para expansão da mineração no . Nesse intento, incentivou povoamentos nas cabeceiras do rio, trazendo consigo indígenas para auxiliar nos trabalhos e convencer outros indígenas para que pudesse avançar. Nesse século, com o uso de metais pesados para a mineração nas cabeceiras de mananciais da bacia, sobretudo em Ouro Preto, Mariana e Santa Bárbara, é que se iniciou o processo de degradação do rio Doce. Entretanto, a descoberta de jazidas ricas em ouro na região central de Minas Gerais, em uma zona que vai de São João del-Rei a Minas Novas, concentrou ali e nas regiões vizinhas o interesse dos forasteiros a partir do . Fora desses domínios eram denominados os sertões, dentre os quais os "Sertões do Rio Doce", como também existiam o "Sertão do Leste" (Zona da Mata) e o "Sertão do São Francisco".

Do rio proibido ao massacre thumb|direita|Mapa que mostra os rios Doce e Jequitinhonha, por Raimundo José da Cunha Matos, datado do . A fim de proteger as reservas de ouro, o povoamento e a abertura de novas trilhas pelo Vale do Rio Doce chegaram a ser proibidos pela Coroa Portuguesa, como forma de evitar o contrabando de ouro por meio do rio Doce e seus afluentes. Com a intenção de afastar forasteiros, diziam-se ser terras com vegetação densa e animais peçonhentos, com predominância da ferocidade dos povos nativos. No entanto, o povoamento foi liberado em 1755, após Minas Gerais passar por um declínio na produção de ouro. Mesmo com a atenuação da disponibilidade de ouro, a diversidade mineral favoreceu o desenvolvimento da atividade mineradora nos séculos seguintes na região de algumas cabeceiras de nascentes do alto rio Doce, como em Mariana.

Até 1808, 26 exploradores haviam percorrido o rio Doce, todos em busca de pedras preciosas, em vão. Apesar da liberação do povoamento, ataques de botocudos (como eram generalizados os aimorés) a forasteiros estavam se tornando frequentes, o que levou o governo da Província de Minas Gerais a exigir uma tomada de atitude da Coroa Portuguesa. Além disso, os Sertões do Rio Doce em Minas Gerais e a sua extensão no Espírito Santo eram uma das únicas regiões do Brasil ainda totalmente dominadas por nativos, fora do controle da administração portuguesa, pelo que era de seu interesse demonstrar poderio através da tomada de controle. Como resultado, foram criados "quartéis" no curso do rio Doce com o objetivo de fortalecer a proteção aos colonos. A Carta Régia de 13 de maio de 1808 também determinava uma guerra ofensiva contra a população nativa, autorizando seu extermínio, como era vontade do governo mineiro. thumb|esquerda|Ilustração da comitiva do príncipe renano Maximilian zu Wied-Neuwied no rio Doce em 1815

Em 1823, Guido Marlière, militar francês, assumiu a Diretoria de Índios na Província de Minas e promoveu o diálogo com os indígenas no lugar do massacre sistemático. A essa altura, os conflitos contra os indígenas estavam fora de controle até mesmo pelas divisões militares da coroa, pelo que foi confiado a Marlière o objetivo de pacificação. Antes, em 1813, o francês já havia obtido sucesso ao pacificar nativos e colonos na Zona da Mata Mineira. Já no rio Doce, transformou os quartéis em centros de distribuição de alimentos. Apesar da proibição dos ataques a indígenas em 1831, os povos locais já se encontravam praticamente extintos, o que serviu como um incentivo à colonização. Mesmo assim, esse processo continuou a ocorrer de forma relativamente lenta.

O povo crenaque que habita a margem esquerda do rio Doce em Resplendor é a maior concentração de herdeiros dos aimorés sobreviventes. Em contraste com o massacre dos nativos, o também é marcado pelas primeiras expedições que tinham a intenção de pesquisar os aspectos naturais do rio Doce e as culturas relacionadas. Em 1815, o príncipe renano Maximilian zu Wied-Neuwied percorreu a região para entrar em contato com a cultura dos indígenas. Essa visita resultou em estudos que contribuíram com a desmistificação da ferocidade desses povos. O botânico alemão Friedrich Sellow, que se tornou conhecido por enviar milhares de amostras de animais e plantas da América do Sul para estudos em Berlim, morreu ao cair nas águas do rio Doce durante seus trabalhos de pesquisa em 1831, nas proximidades de Belo Oriente. A princesa Teresa da Baviera também esteve no rio Doce para coletar amostras da fauna em 1888.

Expansão populacional thumb|direita|A Ponte Florentino Avidos em Colatina, inaugurada em 1928, foi a primeira grande ponte rodoviária sobre o rio Doce. Em 1900, o povoamento do médio e baixo rio Doce ainda era quase inexistente. Alguns dos antigos quartéis deram origem a povoamentos, enquanto que portos se formaram para troca de mercadorias de produtos agropecuários, como é o caso do Porto de Figueira do Rio Doce, que mais tarde deu origem a Governador Valadares, e de Colatina. Contudo, foi somente com a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) que núcleos urbanos começaram a se consolidar e expandir. Acompanhando o curso do manancial entre Colatina e o atual Vale do Aço em vários trechos, a via férrea foi a responsável por atrair trabalhadores e formar cidades a partir de onde foram construídas estações ferroviárias.

De 1900 a 1920, a população da "Zona Florestal" de Minas Gerais, correspondente aos vales dos rios Doce, São Mateus e Mucuri, cresceu 467%, sendo a Estrada de Ferro Vitória a Minas a principal razão desse aumento. Ao mesmo tempo que a locação da via férrea avançava pelo Vale do Rio Doce, vastas terras, até então ocupadas pela mata virgem, começaram a ceder espaço à agricultura e à pecuária, principalmente a partir da década de 1920. Além disso, a descoberta de fartas reservas de minério de ferro no que mais tarde seria chamado de Quadrilátero Ferrífero levou à implantação de minas de extração.