Nero Cláudio César Augusto Germânico (em latim, Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus; Anzio, 15 de dezembro de 37 d.C. — Roma, 9 de junho de 68)A data do nascimento de Nero é citada por Suetônio em Vidas Dos Doce Césares, Vida de Nero 6 (do site LacusCurtius). A data da sua morte é incerta, talvez devido a Galba ter sido declarado imperador antes da morte de Nero. Estabelece-se em 9 de junho a data da morte do imperador, partindo da obra de Jerônimo de Estridão, Crônicas. Pela sua vez, Dião Cássio e Flávio Josefo estabelecem a data em 11 de junho, respectivamente nas suas obras História romana e A guerra dos judeus. foi um imperador romano que governou de 13 de outubro de 54 até a sua morte, a 9 de junho de 68, o último imperador da dinastia júlio-claudiana.

Nascido com o nome de Lúcio Domício Enobarbo, era descendente de uma das principais famílias romanas, pelo pai Cneu Domício Enobarbo e da família imperial júlio-claudianafoi, de fato, o último imperador da dinastia júlio-claudiana através da mãe Agripina, a Jovem, filha de Germânico e neta de César Augusto. Ascendeu ao trono após a morte do seu tio Cláudio, que o nomeara o seu sucessor.

Durante o seu governo, focou-se principalmente na diplomacia e no comércio, e tentou aumentar o capital cultural do império. Ordenou a construção de diversos teatros e promoveu os jogos e provas atléticas. Diplomática e militarmente, o seu reinado caracterizou-se pelo sucesso contra o Império Parta, a repressão da revolta dos britânicos (60–61) e uma melhora das relações com Grécia. Em 68 ocorreu um golpe de estado de vários governadores, após o qual, aparentemente, foi forçado a suicidar-se.O historiador Suetônio, na sua obra A vida dos doze césares, estabelece que Nero se suicidou 49; Sulpício Severo, baseando-se em fragmentos das obras de Tácito, põe em dúvida que Nero se suicidasse. A visão de Sulpício Severo, na sua obra Crônica, é compartilhada pelo historiador britânico T.D. Barnes nos seus trabalhos "The Fragments of Tacitus' Histories" e Classical Philology (1977), p.228

O reinado de Nero é associado habitualmente à tirania e à extravagância.Galba criticou a luxúria de Nero em audiências públicas e privadas durante a sua rebelião. Nos Anais de Tácito I.16; Kragelund, Patrick, "Nero's Luxuria, em Tácito e em Octavia, The Classical Quarterly, 2000, pp. 494-515 É recordado por uma série de execuções sistemáticas, incluindo a da sua própria mãeAs referências ao matricídio de Nero aparecem nos Oráculos Sibilinos, na obra de Geoffrey Chaucer Canterbury Tales, e em Hamlet 3.ii, de William Shakespeare e o seu meio-irmão Britânico, e sobretudo pela crença generalizada de que, enquanto Roma ardia, ele estaria compondo com a sua lira,Segundo Suetônio, na sua obra A vida dos doze césares, enquanto Roma era consumida pelo grande incêndio do 64, Nero estava compondo com a sua lira 38; Para uma explicação mais pormenorizada ver M.F. Gyles "Nero Fiddled while Rome Burned", The Classical Journal (1948), p. 211-217 além de ser um implacável perseguidor dos cristãos. Estas opiniões são baseadas primariamente nos escritos dos historiadores Tácito, Suetônio e Dião Cássio. Poucas das fontes antigas que sobreviveram o descrevem dum modo favorável,Os únicos que o fazem são Lucano Guerra Civil, Sêneca Da Clemência e Dião Crisóstomo Discursos, além das lógicas inscrições monetárias imperiais embora haja algumas que relatam a sua enorme popularidade entre o povo romano, sobretudo no Oriente.Tácito, Histórias I.4, I.5, I.13, II.8; Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Nero 57, Vida de Otão 7, Vida de Vitélio 11; Filóstrato, Vida de Apolônio de Tiana 5.41; Dião Crisóstomo, Discurso XXI, Da Beleza

A fiabilidade das fontes que relatam os tirânicos atos de Nero é atualmente controversa. Separar a realidade da ficção, em relação às fontes antigas, pode ser impossível.para O Grande Incêndio e as perseguições cristãs ver F.W. Clayton, "Tacitus and Christian Persecution", The Classical Quarterly, pp. 81-85; B.W. Henderson, Life and Principate of the Emperor Nero , p. 437; em geral mostram-se contrários a Nero, cfr. Edward Champlin, Nero, Cambridge, MA : Harvard University Press, 2003, p. 36-52 (ISBN 0-674-01192-9)

Juventude Família thumb|140px|esquerda|Busto do jovem Nero Nero nasceu a 15 de dezembro de 37 com o nome de Lúcio Domício Enobarbo em Âncio (atual Anzio),Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Nero 1Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Nero 6 perto de Roma. Era o único filho de Cneu Domício Enobarbo e Agripinila, irmã do imperador Calígula.

O seu pai era neto de Cneu Domício Enobarbo e Emília Lépida através do seu filho Lúcio Domício Enobarbo. Cneu era neto de Marco Antônio e Octávia a Menor através da sua filha Antônia, a Maior. Por Octávia era portanto sobrinho de Augusto. O pai servira como pretor e como membro da guarda pessoal de Calígula durante a viagem do futuro imperador para Oriente.Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Nero 5 Segundo Suetônio, o pai de Nero era um assassino e o imperador Tibério acusou-o de traição, adultério e incesto. Somente a morte do próprio Tibério fez com que se livrasse daquelas acusações. Cneu morreu de um edema em 39, quando Nero contava apenas dois anos de idade.

A sua mãe, Agripinila (também conhecida como Agripina Menor), era bisneta de Augusto e da sua esposa Escribônia através da sua filha Júlia Augusta e do seu marido Marco Vipsânio Agripa. O pai de Agripinila, Germânico, era neto da esposa de Augusto, Lívia Drusa por um lado e de Marco Antônio e Octávia por outro. Germânico era ademais filho adotivo de Tibério. Uma série de antigos historiadores acusam a mãe de Nero de assassinar o seu próprio marido, o imperador Cláudio.Tácito, Anais XII.66; Dião Cássio, História Romana LJI.34; Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Cláudio 44; Flávio Josefo, Antiguidades dos Judeus XX.8.1

Conta-se que os Enobarbos tinham barbas ruivas. Segundo Suetônio, "Os Enobarbos encontram em Lúcio Domício o autor da sua origem e do seu sobrenome. Este, ao voltar um dia do campo, encontrou dois rapazes gêmeos de extraordinária beleza que lhe ordenaram anunciar ao Senado e ao povo romano uma vitória que ainda era tida como incerta. E, para provarem a sua divindade, afagaram-lhe as faces de maneira a tornar a sua barba, de negra que era, ruiva e cor de cobre. Esta característica foi transmitida também aos seus descendentes, que tiveram, na maioria, a barba loura".

Ascensão ao poder As possibilidades de que Nero ascendesse ao trono eram muito escassas, pois o seu tio materno, Calígula, começou o seu reinado com a idade de 24 anos, tempo mais que suficiente para ter e nomear os seus próprios herdeiros. Além disso, a sua mãe perdeu o favor de Calígula e após a morte do seu esposo em 39 esteve no exílio.Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Calígula 29 Calígula administrou a herança de Nero e enviou-a à sua tia Domícia Lépida.

thumb|250px|Moeda com a efígie de Nero Antes que Calígula começasse sequer os preparativos para a sua sucessão, foi assassinado junto com sua esposa Milônia Cesônia e a sua filha Júlia Drusila em 41.Flávio Josefo, Antiguidades dos Judeus XIX.1.14, XIX.2.4 O assassinato de Calígula elevou ao trono o tio do finado imperador, CláudioFlávio Josefo, Antiguidades dos Judeus XIX.3.2 quem, uma vez no poder, permitiu Agripinila regressar do desterro.

Cláudio estivera casado em duas ocasiões antes de contrair matrimônio com Messalina.Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Cláudio 26 Fruto deste matrimônio nasceram Cláudio Druso (morto durante a adolescência)Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Cláudio 27 e uma filha. Com Messalina teve dois filhos, Cláudia Octávia e Britânico. Cláudio, no entanto, teve de assassinar Messalina após o complô que esta urdiu para derrocá-lo. Em 49, Cláudio casou-se por quarta vez com Agripinila. Para apoiar-se politicamente num herdeiro, Cláudio adotou Nero em 50, passando este a chamar-se Cláudio Nero César Druso.Tácito, Anais XII.25 Ao ser mais velho que o seu meio-irmão Britânico, Nero tornou-se herdeiro do trono.Tácito, Anais XII.26

Nero foi proclamado adulto com a idade de 14 anos.Tácito, Anais XII.41 Foi nomeado procônsul e entrou pela primeira vez no senado, além de dissertar frente à Câmara. Realizou as suas primeiras aparições públicas junto a Cláudio, e apareceu nas moedas emitidas durante o governo do seu tio como o seu sucessor. Casou-se com a sua meia-irmã Cláudia Octávia.Tácito, Anais XII.58

Imperador Primeira etapa Quando Cláudio morreu em 54, Nero ascendeu ao trono como o seu imediato sucessor. Embora existam discrepâncias entre os antigos relatos sobre a morte de Cláudio, muitos destes apontam para Agripina como a assassina, alegando que a mãe de Nero o envenenara. Contudo, não existem provas contundentes de tal acusação.Dião Cássio e Suetônio alegam que Nero conhecia o assassinato. Dião Cássio História Romana LJI.35, Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Nero 33; Tácito e Flávio Josefo só mencionam Agripinila como a assassina, Tácito, Anais XII.65, Flávio Josefo, Antiguidades dos Judeus XX.8.1

thumb|left|300px|Moeda com Nero e Agripina Nero tornou-se imperador aos 16 anos de idade,Augusto fora-o aos 35, Tibério aos 56, Calígula aos 25 e Cláudio aos 50 sendo portanto muito jovem ainda. Segundo diversas fontes antigas, foi fortemente influenciado pela sua mãe durante a primeira etapa do seu reinado, pelo seu tutor Sêneca e pelo Prefeito do pretório, Sexto Afrânio Burro.Segundo Dião Cássio, "A princípio, Agripinila governou sobre todos os assuntos do Império", depois "Sêneca e Burro tomaram todo o poder nas suas mãos", mas "após a morte de Britânico, Sêneca e Burro foram deslocados" (55) Dião Cássio História Romana LJI.3-7 Os primeiros anos do seu reinado são conhecidos como exemplo de boa administração nos quais os assuntos do Império foram tratados de maneira efetiva e o senado gozou de influência e poder nos assuntos do Estado.Tácito, Anais XIII.5

Contudo, rapidamente surgiram problemas devido à competição entre a influência da sua mãe e a dos seus assessores, Sêneca e Burro. Em 54, Agripinila tratou de se sentar junto ao seu filho enquanto este parlamentava com um delegado arménio, mas Sêneca deteve-a para evitar uma cena escandalosa. O círculo de amigos de Nero começou a pôr o imperador contra a sua mãe e advertiram-no sobre a sua "conduta suspeita".Tácito, Anais XIII.13 Nero, enquanto isso, insatisfeito com o seu matrimônio com Octávia, iniciou um romance com Cláudia Acte, uma liberta.Tácito, Anais XIII.12 Quando Agripinila teve notícias da infidelidade do seu filho, tratou de intervir em favor de Octávia e exigiu-lhe que despedisse Acte. Nero, apoiado por Sêneca, resistiu a que a sua mãe interviesse na sua vida privada.Tácito, Anais XIII.14

Quando Britânico, filho do finado imperador Cláudio chegou à idade de 14 anos, Nero considerou-o como uma ameaça para o seu poder.Tácito, Anais XIII.15 Segundo Tácito, Agripinila aguardava que, com o seu apoio, Britânico se tornasse herdeiro ao trono acima de Nero. Contudo, o jovem morreu repentina e suspeitosamente em 12 de fevereiro de 55, o dia anterior à sua proclamação como adulto.Tácito, Anais XIII.16 Segundo Nero, Britânico morreu de um ataque epiléptico, mas todos os historiadores antigos acusam Nero de envenená-lo com o vinho.Tácito, Anais XIII.16; Flávio Josefo, Antiguidades dos Judeus, XX.8.2; Suetônio, A vida dos doze césares, Vida de Nero 33; Dião Cássio, História Romana LJI.7 Após a morte de Britânico, Octávia e Nero expulsaram Agripinila da residência imperial.Tácito, Anais XIII.18-21

Matricídio e consolidação de poder thumb|300px|Nero e Popeia Sabina