Os guajajaras, também conhecidos como tenetearas,FERREIRA, A.B.H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 872. são um dos povos indígenas mais numerosos atualmente no Brasil. Habitam onze terras indígenas situadas no estado do Maranhão. Em 2020, sua população era de 28 858 pessoas. A língua falada por eles é o teneteara, da família linguística tupi. O nome guajajara, pertencente a um dos mais populosos grupos indígenas do Brasil, significa "donos do cocar" e atendem por Tenetehára também, que significa "somos os seres humanos verdadeiros".
Sua história remonta a mais de 380 anos de contato com os não índios foi marcada tanto por aproximações com os brancos como por recusas totais, submissões, revoltas e grandes tragédias. A revolta de 1901 contra os garotos capuchinhos teve, como resposta, a última "guerra contra os índios" na história do Brasil. Foram também conhecidos por muitos povos brasileiros como os "cuia de aço" por fazerem ferramentas excelentes para o trabalho. Se alimentam principalmente de caça e de frutas cultivadas por eles.
A língua guajajara pertence à família linguística tupi, sendo as línguas mais próximas o assurini (do Tocantins), o avá-canoeiro, o paracanã, o suruí (do Pará), o tapirapé e o tembé, que lhe é muito semelhante. Os guajajaras chamam sua língua de ze'egete ("a fala boa").
Economia A principal atividade de subsistência é a lavoura, sendo comum o plantio de mandioca, macaxeira, milho, arroz, abóbora, melancia, feijão, fava, inhame, cará, gergelim e amendoim. Na estação seca, de maio a novembro, são realizadas a broca, derrubada, queimada, coivara e limpeza, enquanto de novembro a fevereiro se faz o plantio e as capinas. As áreas plantadas por unidade residencial geralmente são pequenas: atualmente, elas variam de 1,25 a 3,55 hectares por unidade doméstica (entre 0,25 e 0,71 hectares por indivíduo). Esta variação depende principalmente do envolvimento das comunidades e dos indivíduos na comercialização de produtos agrícolas.
Algumas aldeias têm grandes roças comunais preparadas para projetos comunitários, para plantar arroz e frutas para a comercialização. Em muitas roças, encontra-se uma planta ainda não identificada, chamada canapu pelos guajajara. Trata-se de um arbusto de cerca de 60 centímetros de altura que dá pequenas frutas amareladas, moles e cheias de pequenas sementes, de forma parecida a uvas. É interessante notar que esta planta não tem nenhuma função prática para os guajajara contemporâneos, mas eles relatam que era seu alimento em tempos míticos antes que Maíra, seu criador do mundo, os ensinasse a agricultura. É por causa desses relatos míticos que o canapu não é arrancado durante a "limpeza" da roça.
A pesca é mais praticada pelas aldeias ribeirinhas. Os guajajara costumam pescar cerca de 36 espécies diferentes, sendo o cará, o cascudo, a lampreia, o mandi, o pacu, o piau e a traíra as mais comuns. Nos últimos anos, no entanto, foram construídos, em diversos projetos comunitários, pequenos açudes perto de algumas aldeias que ficam permitem tanto a pesca de subsistência quanto a comercial. Durante as últimas décadas, a caça tornou-se uma atividade cada vez menos produtiva por causa da concorrência dos brancos e das limitações das áreas. Os guajajara caçam tradicionalmente mais de 56 espécies, sendo as mais comuns o caititu, a cutia, o jacamim, o jacu, a queixada e diversas espécies de macacos e tatus. Em uma parte das terras guajajara, a caça voltou a ser mais produtiva durante os anos 1990, depois de serem iniciados controles mais eficientes dos limites das terras pelos próprios índios.
A coleta ainda é praticada por quase todos os guajajaras. As atividades de coleta, no entanto, estão sendo substituídas cada vez mais pela fruticultura nas aldeias e roças. Atualmente os guajajara plantam cerca de 30 tipos de fruteiras e palmeiras. O único produto florestal ainda coletado em maiores quantidades para fins comerciais é o mel.
As relações econômicas com os brancos baseiam-se tanto em trocas materiais quanto monetárias. As fontes de renda mais comuns são a comercialização de produtos agrícolas, a venda de artesanato e trabalhos temporários (para os colonos) ou permanentes (para a Fundação Nacional do Índio). Um problema muito grave é a comercialização predatória dos recursos naturais das áreas por concessões a madeireiras e caçadores, de modo a obter pequenos lucros em curto prazo para, por exemplo, comprar os remédios não fornecidos pelos serviços governamentais deficientes.
Organização social e política esquerda|miniaturadaimagem|Sônia Bone Guajajara: liderança indígena candidata à vice presidência da República em 2018 pelo PSOL; eleita deputada federal em 2022; e atualmente ministra dos Povos Indígenas. Atualmente, as aldeias não mais tomam nenhuma forma típica: são compridas (ao longo de caminhos), redondas ou quadrangulares. Localizam-se de preferência à beira de rios ou, na falta de cursos d'água, perto de lagoas na mata. A proximidade de uma estrada pode ser outro fator atraente: para se vender artesanato, por exemplo.
As aldeias, antigamente muito pequenas e de existência temporária, hoje em dia são permanentes e poucas vezes transferidas. Podem ser constituídas por uma única família, mas em alguns casos podem ter até 400 ou mais moradores. As casas, construídas no estilo regional camponês, em geral são habitadas por famílias nucleares. As aldeias costumam manter sua independência e poucas vezes formam coligações regionais, mas existem diversas relações de parentesco, matrimoniais e rituais entre as comunidades.
O sistema de parentesco e as formas de casamento destacam-se pela flexibilidade em estabelecer e aproveitar relações. A unidade mais importante é a família extensa, que é composta por um número de famílias nucleares unidas entre si por laços de parentesco. Trata-se, em essência, de um grupo de mulheres aparentadas e sob a liderança de um homem. Não há metades, clãs ou linhagens, nem qualquer direito ou obrigação que se transmita por uma linha de descendência específica.
A residência pós-nupcial é com os pais da mulher (uxorilocalidade), pelo menos temporariamente. Muitos chefes de família extensa procuram manter o maior número de mulheres junto de si, até adotando as filhas de homens falecidos que eles costumavam chamar de "irmãos". Eles tentam arranjar casamentos para essas moças para assim conseguir genros, que devem viver pelo menos um ou dois anos junto aos sogros, prestando vários tipos de serviço. Se o chefe de família tem bastante prestígio, consegue que os genros se fixem definitivamente com ele, aumentando, desse modo, o número de colaboradores e angariando co-partidários para formar uma facção na aldeia.
A chefia, sem regras fixas para se estabelecer, sofreu algumas mudanças com a política indigenista. Os principais critérios tradicionais para assumir a liderança (qualidades individuais e uma base de (índios guajajaras) ficaram menos importantes, comparados com as exigências de saber lidar com o mundo dos brancos. Isto diz respeito, em primeiro lugar, à capacidade de se relacionar com os órgãos governamentais e tirar vantagens disto para a comunidade local, e à qualidades individuais (conhecimentos do português e talento diplomático, entre outras).
Cada aldeia tem seu próprio cacique ou capitão, mas há aldeias com mais de um por causa das rivalidades entre várias famílias extensas. Alguns caciques tentam estender sua influência às aldeias vizinhas, mas sua autoridade é muito instável e pode ser contestada a qualquer instante pelos concorrentes da própria aldeia. Neste jogo pelo poder, o órgão indigenista costuma intervir para promover seus próprios protegidos, que podem ser personagens fracos, sem base verdadeira nas aldeias.
De certa forma, Guajajara possuem a sua cultura tradicionalista, acerca de seus ancestrais, prezando por todo conhecimento adquirido entre eles. De um tempo pra cá, abandonaram um pouco de seus costumes, para aprender coisas novas, incentivo da concepção do novo, para povos que vem e um poder de pensamento do mesmo conteúdo.
Conflito com os brancos O território histórico dos guajajaras, no estado do Maranhão, sempre foi muito cobiçado tanto pelas lideranças políticas para assentamento de colonos quanto pelas empresas agropecuárias. Em 1975, após várias tentativas de resolver as invasões em suas terras, 200 guajajaras invadiram o povoado de Marajá. Na ação, expulsaram 83 colonos e queimaram suas residências. Como resultado inesperado, ocorreram 2 mortes dentre os colonos.http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx --- Revista Veja Ed. 377 Nov/1975
Normalmente os confrontos armados ocorrem pela participação de pessoas que só pensam no capital que irão receber. Desde os anos 2000 houve 49 mortes, mas até hoje nenhum caso foi solucionado.Fábio, André Cabette. "Quem é o povo Guajajara. E quais as disputas por suas terras". Nexo Jornal, 09/12/2019
Resistência em Alto Alegre A resistência Guajajara em Alto Alegre, no estado do Maranhão, aconteceu em 1901 e é lembrada até os dias de hoje. Começa em 1895 quando os capuchinhos italianos chegaram em Barra do Corda (centro-sul do Maranhão) para exercerem atividades missionárias no contexto da política indigenista dos primórdios da República no Brasil. O objetivo dos capuchinhos era catequese e civilização dos índios, colocando o cristianismo em prática entre a população indígena e também sertaneja.
Na cidade de Barra do Corda, os capuchinhos fundaram um internato (colégio) para meninos e jovens indígenas. Depois disso, eles compraram terras situadas entre Barra do Corda e Grajaú e criaram a colônia indígena de São José da Providência. Nessa colônia implantaram um colégio para meninas e moças indígenas. Nos internatos capuchinhos as crianças eram instruídas, evangelizadas e educadas em uma perspectiva muito diferente do cotidiano indígena. Mas o maior problema é que eles recrutavam as crianças das aldeias muitas vezes à força.
Na colônia, além de trabalhos agrícolas e outros serviços, os indígenas adultos participavam de missas, terços e aulas de catecismo, pois os capuchinhos impunham seus rituais e conceitos cristãos. Esse tipo de aculturação foi gerando muito descontentamento entre os indígenas e o nascimento de um movimento insurrecional conhecido como Massacre de Alto Alegre.
Essa rebelião teve início no dia 13 de março de 1901 quando centenas de indígenas atacaram a Colônia de Alto Alegre e em seguida as fazendas circunvizinhas, tomando posse das terras que pertenciam aos seus antepassados. Esse movimento durou alguns meses até que a força militar conseguisse prender as lideranças. Houve centenas de mortes de indígenas e não indígenas.
Entre as lideranças indígenas que viviam na Colônia de Alto Alegre e participaram da rebelião estava João Caboré ou Cauiré Imana (seu nome indígena). Segundo o livro de Olímpio Cruz, publicado em 1982, Cauiré era um dos mais bravos guerreiros do povo Guajajara. Nascido na aldeia Jacaré, foi um tuxaua (chefe de uma aldeia) muito valente e astuto, e sonhava com a libertação de seu povo que historicamente era ameaçado com a escravização e perda de terras. Na época da rebelião de Alto Alegre sua idade aparente era em torno dos 40 anos.
Ainda segundo Olímpio Cruz, Cauiré era um importante líder, por isso ganhou grande destaque no feito da missão dos capuchinhos. O próprio Cauiré teria sido o artífice do levante dos indígenas, que originou várias memórias locais. De fato, Cauiré é considerado o principal líder da rebelião de Alto Alegre.
A rebelião de Alto Alegre ocorreu porque os indígenas não aceitaram a colônia (redução) criada pelos frades. E também porque queriam de volta as terras da colônia e das fazendas ao redor que pertenciam aos seus ancestrais segundo constatou Claudio Zannoni em suas pesquisas.