thumb|220px|Fileira de trás: (da esquerda para a direita) F. O. Barlow, G. Elliot Smith, Charles Dawson, Arthur Smith Woodward. Fileira da frente: A. S. Underwood, Arthur Keith, W. P. Pycraft e Sir Ray Lankester. Quadro pintado por John Cooke em 1915.
O assim chamado Homem de Piltdown foi uma fraude científica formada por fragmentos de um crânio e de uma mandíbula, recuperados nos primeiros anos do século XX de uma mina de cascalho em Piltdown, vila perto de Uckfield, no condado inglês de Sussex. Especialistas da época afirmaram que os fragmentos eram restos fossilizados de uma até ali desconhecida espécie de homem primitivo. O nome latino de Eoanthropus dawsoni foi dado ao espécime em homenagem a Charles Dawson, que, em 2016 foi considerado responsável pela fraude.
Em 1912, Charles Dawson afirmou que operários da pedreira de Piltdown lhe havia dado um fragmento do crânio quatro anos antes. Segundo seu relato, os operários do local descobriram o crânio pouco antes de sua visita, mas o quebraram por acreditar que se tratava de um coco fossilizado. Dawson afirmou ter encontrado esses fragmentos do crânio em uma camada de cascalho próxima a Piltdown e entrou em contato com Arthur Smith Woodward, curador de geologia do Museu de História Natural de Londres. Posteriormente, os dois relataram a descoberta de outros fragmentos de crânio, uma mandíbula, dentes e ferramentas de pedra no mesmo local. A combinação de uma caixa craniana com características humanas e uma mandíbula semelhante à de um símio foi interpretada como evidência de uma forma intermediária na evolução humana.
Woodward reconstruiu os fragmentos e estimou que o espécime teria cerca de 500 mil anos. A descoberta foi apresentada à Sociedade Geológica de Londres em 1912 e recebeu o nome de Eoanthropus dawsoni, em referência a Charles Dawson. Naquele período, o registro fóssil da evolução humana ainda era bastante limitado, o que contribuiu para a atenção dada ao achado.
A significância do espécime permaneceu objeto de controvérsia até que, com o avanço da ciência, foi declarada em 1953 como uma fraude. As análises laboratoriais demonstraram que os restos pertenciam a diferentes espécies: a mandíbula e os dentes eram de um orangotango, enquanto o crânio era de um humano moderno. Segundo os relatórios, também foi utilizada uma lima para desgastar os dentes a fim de parecerem mais velhos, bem como os ossos (ou parte destes) foram submetidos a substâncias químicas com o mesmo objetivo. Os materiais haviam sido artificialmente modificados e combinados para produzir a aparência de um fóssil humano primitivo.
Foi sugerido que a fraude havia sido obra da pessoa tida como sua descobridora, Charles Dawson (1864-1916). Este ponto de vista tem sido questionado e muitos outros candidatos têm sido propostos como os verdadeiros criadores da contrafação. O homem de Piltdown representava um organismo que não correspondia à realidade.
Incompatibilidade com a Teoria Evolutiva Quase desde o início, Piltdown foi fortemente desafiado por alguns pesquisadores. As descobertas de uma série de fósseis de hominídeos antigos e hominídeos próximos ao ser humano, por exemplo, o homem de Java, o homem de Pequim, e outras descobertas ligadas ao Homo erectus ou ao australopithecus colocaram a fraude do Homem de Piltdown sob questionamento: à medida que os anos passavam e achavam-se novos fósseis de hominídeos antigos, Piltdown tornou-se uma "anomalia" que não se encaixava na teoria evolucionista, era uma criatura sem um lugar na árvore genealógica humana. Alguns traços do fóssil tornavam-no incompatível com a teoria evolucionistaː O cientista Arthur Keith atacou a descoberta. Keith apontou que os dentes molares humanos são o resultado de movimentos laterais ao mastigar. O canino do maxilar do fóssil de Piltdown impedia o movimento lateral. Não dava para explicar o desgaste dos dentes molares caso os dentes caninos tivessem sido mais altos do que estes.Walsh, John E. (1996). Unraveling Piltdown: The Science Fraud of the Century and its Solution. Random House. ISBN 0-679-44444-0. A fraude do Homem de Piltdown afetou significativamente a pesquisa precoce sobre a evolução humana. Notavelmente, o fóssil colocava os cientistas em um beco sem saída, pois sustentava a crença errônea e rejeitada de que o cérebro humano teria se expandido em tamanho antes do maxilar se adaptar a novos tipos de alimentos.Washburn, S.L. (1953). The Piltdown Hoax. American Anthropologist. 55 (5): 759–62 – via Wiley Online Library. O fóssil tirava a ancestralidade humana da África que era proposta pelo biólogo Charles Darwin com base em homologias com primatas africanos e colocava no continente europeu. Mas as evidências apontavam para a África como berço dos primeiros primatas desprovidos de cauda como o orangotango, o gorila, o homem e o chimpanzé. Outro fato que atormentava os cientistas era que Piltdown se tratava de um espécime híbrido formado com partes de ossos modernos e não com estruturas mais primitivas, como era o proposto pela teoria evolucionista.
Análises da Comunidade Científica As características dos restos encontrados em Piltdown foram questionadas por pesquisadores desde os primeiros anos após a divulgação da descoberta. Em 1913, David Waterston, do King's College de Londres, publicou na revista Nature sua conclusão de que o material era composto por uma mandíbula de macaco e um crânio humano.
Em 1915, o paleontólogo francês Marcellin Boule chegou a uma conclusão semelhante. Posteriormente, o zoólogo americano Gerrit Smith Miller Jr. também analisou os restos e concluiu que a mandíbula de Piltdown pertencia a um macaco fóssil.
Em 1923, Franz Weidenreich examinou novamente os restos e concluiu que eles consistiam em um crânio humano moderno e uma mandíbula de orangotango, cujos dentes haviam sido desgastados.
Execução da fraude Imagens de alta resolução em 3-D mostraram que a mandíbula de orangotango estava rachada longitudinalmente, provavelmente ao ser esticada manualmente a partir de suas duas extremidades. Dawson foi obrigado a alargar os soquetes dos dentes da mandíbula para remover dois dentes molares, que em grandes primatas têm, reveladoramente, raízes curvas. Dawson, em seguida, limou os dentes para que parecessem mais humanóides e os reposicionou em suas órbitas. Uma fina camada de massa de vidraceiro manteve os dentes no lugar.Notorious ‘ape-man’ fossil hoax pinned on one wrongdoer New Piltdown Man probe rules out coconspirators in famous anthropological fraud por Bruce Bower, publicado pela "Science News" (2016).
Como a fraude se sustentou por tanto tempo A fraude de Piltdown permaneceu aceita por cerca de quatro décadas devido a uma combinação de fatores. Em primeiro lugar, o registro fóssil da evolução humana ainda era bastante limitado no início do século XX. A descoberta parecia preencher uma lacuna importante ao apresentar uma suposta forma intermediária entre os primatas e os seres humanos. Além disso, a interpretação recebeu o respaldo de pesquisadores reconhecidos, especialmente Arthur Smith Woodward, do Museu de História Natural de Londres. A reputação dos envolvidos contribuiu para que a descoberta fosse inicialmente recebida de boa-fé pela comunidade científica.
Outro fator foi a própria construção da fraude. Os restos não eram simplesmente colocados juntos: a mandíbula de orangotango e os dentes foram modificados para adquirir características que parecessem humanas, enquanto os ossos foram artificialmente manchados para se assemelharem aos materiais antigos encontrados no cascalho de Piltdown. Parte dos fragmentos também foi preenchida com cascalho e outros materiais do local, reforçando a aparência de antiguidade. Essas alterações dificultavam a identificação da falsificação pelos métodos disponíveis na época.
A chamada segunda descoberta de Piltdown, conhecida como Piltdown II, também contribuiu para reforçar a interpretação original. A suposta existência de restos semelhantes em outro local parecia fornecer uma confirmação independente da primeira descoberta. Com isso, a hipótese deixou de depender de um único conjunto de fragmentos e passou a ser interpretada como evidência de uma população de indivíduos semelhantes.
Ao mesmo tempo, a fraude não passou sem contestação. Pesquisadores questionaram desde cedo a combinação entre o crânio e a mandíbula, e análises posteriores levantaram novas dúvidas. O problema era que, durante décadas, não havia um conjunto de métodos capaz de demonstrar de maneira conclusiva que os materiais tinham origens diferentes e haviam sido artificialmente modificados. Segundo o Museu de História Natural, foi somente com o desenvolvimento de novos métodos de datação e análises químicas, a partir de 1949, que se tornou possível demonstrar que os restos não tinham a idade atribuída a eles.
Em 1953, exames realizados por Kenneth Oakley, Joseph Weiner e Wilfrid Le Gros Clark demonstraram que os fragmentos pertenciam a espécies diferentes. Testes químicos indicaram que os restos eram muito mais recentes do que os sedimentos em que supostamente haviam sido encontrados, enquanto análises microscópicas revelaram que os dentes haviam sido desgastados artificialmente. Também foi identificada a coloração artificial dos ossos. A partir dessas evidências, o Homem de Piltdown foi finalmente reconhecido como uma falsificação.
Assim, a longevidade da fraude não pode ser atribuída a um único fator. Ela combinou uma descoberta que parecia plausível dentro do conhecimento científico daquele período, o prestígio dos pesquisadores envolvidos, uma falsificação cuidadosamente preparada, novas supostas evidências que reforçavam a primeira interpretação e, sobretudo, a ausência, durante décadas, de métodos capazes de testar de forma conclusiva a autenticidade dos materiais.
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